No esplendor das coisas ameaçadas

Profano, profano, profano. Profano o tempo, profana a terra, profana a língua, profana a lei. Tempo e terra, língua e lei, sem outro tamanho que não aquele que por si próprios possam produzir. Causa e consequência, circunstância, condição, isso que a si mesmo, e contra a estrita ideia de civilização, se pesa, se mede e se diz. Contra a civilização, contra a culpa, contra a língua, contra a lei. Contra a proibição inscrita na carne como coisa congénita.

Cancela, H.G., Impunidade

 

Não sabemos quase nada sobre H.G. Cancela, o autor cuja discreta postura o mantém “a salvo” dos holofotes literários. Sobre ele sabe-se que nasceu em 1967, que estudou filosofia na Universidade de Letras de Coimbra e se doutorou em Filosofia. É, actualmente, Professor de Estética na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Entre outros textos, publicou os romances Anunciação (1999) e o De Re Rustica (2011), um ensaio intitulado O Exercício da Violência. A Arte enquanto tempo e um livro de poesia com o título Novembro (2003).

H.G. Cancela publicou em 2014 o romance Impunidade (Relógio d’Água). Miguel Real disse que este livro marca um salto literário na sua obra, num artigo que escreveu para o JL, em 18 de Dezembro de 2014. Não será demasiado dizer que este é um dos melhores livros do ano de 2014, em que publicaram também Mário Cláudio, Retrato de um Rapaz, Lídia Jorge, Os Memoráveis, Luísa Costa Gomes, Cláudio e Constantino, Gonçalo M. Tavares, Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai, William Junqueira, No Céu não há limões, entre outras obras de indiscutível qualidade literária.

Impunidade é uma obra que tem uma trama forte e bem construída, coesa, e o seu principal objecto é a violência, um tema que nos parece ser uma das obsessões de Cancela. Uma violência que nos aparece sob todos os prismas possíveis: surda, explosiva, da linguagem, das relações familiares, da sexualidade, da solidão e da impossibilidade de comunicar, das relações sociais e da própria comunidade (e como sentimos aqui o latejar do problema dos conflitos com a emigração). O ambiente descrito é claustrofóbico, a linguagem usada aproxima-o do abjeccionismo da ficção de Rui Nunes (lembrou-me particularmente essa obra-prima que é A Boca na Cinza). Uma linguagem que estabelece um horizonte semântico de violência pulsional, pela descrição da sujidade, da sexualidade perversa, da imundície, do nojo constantemente sentido pelas personagens, desse estar à beira da loucura. Também por algumas dessas características e não tanto pelo abjeccionismo, mas sobretudo pela sua feroz melancolia e forma como têm trabalhado na sua obra a questão do mal, evoco aqui outros autores como Jaime Rocha, sobretudo pelas suas obras A Loucura Branca  Anotação do Mal, Paulo José Miranda e Gonçalo M. Tavares.

O narrador aparece, vindo não se sabe de onde, como uma personagem errática. Esse nomadismo das personagens aparece numa clara contraposição ao confinamento da história e da atmosfera principal onde decorre a acção. Instala-se num hotel, em Sevilha. Não sabemos como nem por que razão chega a um apartamento, um oitavo andar, em Sevilha, onde vivem duas crianças pequenas, um rapaz de nove anos e uma menina de quatro, numa situação de abandono. É com estupefacção e com horror que o rapaz reconhece o pai, que mal havia visto: “Ele, com a boca fechada e os maxilares comprimidos, dir-se-ia diante da materialização de um terror nocturno.”

É este o tom que dá início à entrada do narrador. Um pai que vem procurar e tentar resgatar dois filhos que vivem sós, sujeitos às vindas irregulares de uma estranha empregada com um filho inquietante, Amir. Este passa muito tempo junto das crianças e exerce sobre elas um domínio que se torna cada vez mais invasivo. O filho é “o rapaz” e a menina chama-se Laura. Não é ao acaso que o filho é “sem nome”, como uma presença profundamente perturbadora, ao longo de toda a história. Se, no início, a sua presença nos aparece como inocente, atento à irmã, que mal se compreende (aliás, a falta de inteligibilidade do discurso de ambos e a confusão das línguas é uma constante, na relação com os pais, como um sinal de um obscuro mal, não-partilhável), no entanto, essa inocência transforma-se numa hedionda cumplicidade com Amir. Une-os o silêncio da culpa e de um mal inconfessável que é crescente. Aliás, esse silêncio que escorre da linguagem, como uma presença indizível, é um dos efeitos mais poderosos da escrita do autor.

As grandes e metafísicas obsessões deste autor são o mal e a culpa, uma culpa arcaica e que pesa sobre todas as personagens, transformando-as em estranhos seres, incapazes de fala e de alegria e apenas Laura (a vítima sacrificial) é capaz de alguma alegria, não obstante todos os sinais de violência sobre o seu pequeno corpo, em crescendo. Sim, poderíamos dizê-lo: em tudo se assemelham a anjos caídos, mas isso não se aplicará a Amir, o rapaz que é meio espanhol e meio marroquino, como se o seu próprio corpo simbolizasse uma irredutível terra de ninguém, incapaz de amor e de respeito, avesso a todas as regras. Essa rebeldia (que é muito mais do que isso) traduz uma profunda angústia e sinaliza aquilo que é também uma das mais actuais condições: a do estrangeiro, que é repudiado, ainda que seja natural de Espanha.

Sobre essa extraordinária personagem, Amir, muito poderia dizer-se. É a verdadeira figura do mal, irredutível nas suas pulsões instintivas e animalescas, incapaz de amor,  dilacerado na sua identidade. É nele que a violência se torna insustentável e grotesca (tomando este conceito como a possibilidade de dar a ver pelo avesso aquilo que já não é suportável), como um cancro que alastra, de uma forma surda e irreparável. Um ímpeto destrutivo e ominoso consome-o, uma sexualidade precoce e doentia dilacera-o, uma violência abjecta, sob todas as formas. Se o tema nos é repugnante, nada é gratuito no romance de Cancela, na sua linguagem depuradíssima, num processo de “escavação”, em que o pensamento ganha um poder imagético e simbólico fortíssimo. O narrador isenta-se de juízos morais, está lá e é testemunha do seu tempo histórico, como um anjo que traz em si o profundo conhecimento da catástrofe e da morte, da violência que atravessa todos os seres. Ele é o único capaz de amor, o único a tentar salvar, a querer redimir, a tentar restabelecer o afecto que nunca há, a tentar amar a mulher, Lisa, que é incapaz de o amar.

Tudo lateja sob a pele da culpa. Irremediável e que cresce por todo o lado, que nos invade e sufoca, que aniquila toda e qualquer relação, que torna impossível qualquer afecto, familiar, maternal ou paternal. Um desamparo vindo do fundo do olhar e da palavra que não se é capaz de dizer porque não se sabe se o outro, esse estranho/estrangeiro, será capaz de a compreender. A expressão “não há nada para dizer” repete-se com frequência, claro sinal de uma mudez culpada, de um saber tácito, sobre as coisas há muito anunciadas. Um segredo que todos parecem saber, numa culpa que une todas as personagens, um interdito sem nome. Um interdito que se escapa pelas fissuras do que não é dito, por meio de meias-palavras, de olhares e de gestos.

Teríamos de salientar aqui a importância de um entrosamento entre a filosofia e a literatura nesse modo como os grandes temas filosóficos se enleiam na literatura e nas suas personagens, num experimentalismo arriscado, mas muito bem conseguido, neste caso. A recusa dos grandes valores transcendentes e a rasura dos ideais e das grandes narrativas, dos valores éticos, numa escrita que encontra nas leis deterministas a sua fonte, como o exercício do jogo da sobrevivência, no modo como a pulsão instintiva determina os comportamentos das personagens, exceptuando-se aqui a lucidez do narrador.

Um tabu, o incesto. A expiação desse interdito. O mal decreta a sua superioridade sobre a interdição, julga-a e condena-a, mas também a repete, nesse jogo abjecto de voyeurismo. Talvez a violência lave a culpa[1], exercendo-se sobre a vida nua, sobre a vítima sacrificial e a testemunha desse crime seja, ela própria, forma de expiação da sua própria culpa, sem nome nem porquê. Estamos, neste romance, como o homem do campo na parábola kafkiana “Diante da Lei”, nesse estado de “loucura mansa”, no sentido em que as personagens se submetem à lei e aos obscuros desígnios do destino, como Lisa ou “o rapaz”. É o mundo do gesto, de uma simbologia cerrada e da aceitação da violência, como se ela fosse o único modo de expurgar a culpa.

Um apontamento, ainda, para uma categoria central, que aqui se apresenta: o tempo. Esta aparece como uma teia invisível, mas que se crava na estrutura da linguagem.  Como uma ameaça que sobrevoa, espectral, sobre as personagens, que se anuncia, de forma trágica. Todas as personagens são prisioneiras, quer do mal, quer do tempo ou, ainda, dessa maldição que pesa sobre todos e implode a comunicação. Porque desse segredo inominável, que se insinua desde o início, não se pode falar e são os corpos das crianças que exibem essa marca do mal, os seus olhares silenciosos, as suas palavras por dizer. Essa impunidade ilimitada com que Amir age, exercendo o seu poder sobre os outros.

Uma estranha beleza, melancólica, nimba de luz estas personagens. Não é exagero se dissermos, como o autor o diz, no final do livro, que ela irradia do “esplendor das coisas ameaçadas”, como a beleza dos condenados, nos romances de Kafka. Essa é a linhagem de H.G. Cancela, o negrume de Dostoievski ou de Thomas Bernard. O mundo em que a escrita tem o poder de dar a ver o lado mais obscuro do humano, sem ilusões falseadoras, gesto ético e de fidelidade última.

[1] Como o diz Walter Benjamin, no seu texto A Crítica da Violência.

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