Os habitantes do jardim

Mas para quê/ Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa/ Não sei./ Outros ecos/Habitam o jardim. Vamos segui-los?/ Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os/ Na volta do caminho. Através do primeiro portão,/ No nosso primeiro mundo./ Ali estavam eles, dignos, invisíveis (…).

T.S.Eliot, Four Quartets

Sentada na cadeira, a mãe ouvia os versos, balouçando-se e empurrando as costas da cadeira contra a parede. Tinha o cabelo claro e solto, revolteando ao sabor da brisa. Sonolenta, fingia absorver-se na cor das unhas. Os raios débeis da lua acariciavam-lhe o pescoço, subiam-lhe a nuca, afogando-se nos anéis do cabelo. Florimundo deitava a cabeça no seu colo, enquanto ela lhe afagava os caracóis.

E o ar enchia-se desses habitantes do jardim, invisíveis, errando pelo roseiral. Quase lhes sentia o hálito, no silêncio da casa vermelha, encerrada entre os pinheiros e a noite. Por vezes, o perfume das rosas que invadia a atmosfera era tão intenso que quase se sentia sufocar. Sobretudo no Verão, ao final da tarde, nesses dias em que o sol desaparecia lentamente no fundo do mar. Ouvia a escuridão e o seu canto eterno, o seu deslizar lento entre o marulhar suave e o vento que se elevava da terra, numa suavíssima brisa.

O pai sentava-se no alpendre e ensinava-lhe o nome das constelações, a contar as estrelas, esses pequenos pontos luminosos que salvam a noite. Tudo, no seu universo, tinha uma correspondência precisa. A palavra, o canto, o som, o número. Um alfabeto de estrelas, dizia-lhe o pai, meio a rir, os dentes muito brancos contra a escuridão. Um alfabeto oculto e que constituía uma escrita indecifrável ao homem vulgar. Florimundo não compreendia porque o mundo não podia ser simples e acessível e brincava às escondidas. Era então que o sono vinha e Florimundo ouvia a voz de Gabriel flutuar muito ao fundo, como um peixe luminoso na camada indistinta de sons.

Gabriel voltava-se, detendo-se no rosto adormecido do filho. O miúdo era um relógio certo e inexplicável. Pegava nele como sempre o fizera, aconchegando-o contra si e deitava-o, ouvindo o manso ressonar que se confundia com a música da noite. (…)

MJC

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