Arqueologia de um Rosto

“Não vou mandar limpá-lo”, decidiu.

Decidiu o homem da mercearia

que deixara amarrotar o rosto pelas vielas

enquanto descia a calçada

e os olhos, manchados de sonhos antigos,

resvalavam para dentro.

Um pássaro morrera, empurrado pelo vento

e eram tantos, tantos

os rostos que atravessavam o silêncio das ruas

as mulheres usavam-nos

como vestidos modernos

e descartáveis

os homens usavam-nos

como camisas que se mudam,

mas ele decidira

“não vou mandar limpá-lo”

e as mulheres desviavam o rosto

porque elas só sabiam olhar

para camisas novas e limpas.

Rua abaixo, o rosto de olhos voltados para dentro

a recusa como uma bomba

a rebentar-lhe no coração

o pássaro morto rolava com o vento

e os os rostos desfilavam

indiferentes à morte do pássaro

à queda das folhas e ao fim do Verão.

O homem decidira

“nunca mais vou sequer mudá-lo!”

enquanto os pés o empurravam para a frente

e os olhos sujos de vida

estremeciam de ternura

ao olhar o pássaro morto

que era empurrado pelo vento

sem que as máscaras o vissem.

Trazia nos pulsos essa dor

o reconhecimento, sabendo que a vida

está do outro lado do vidro

no lugar de nenhum rosto.

MJC

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