Poemas de Alberto Pereira

 Poema II (Livro – Poemas com Alzheimer)

 

Os poemas não gostavam do meu bairro.

A miséria era um arranha-céus,

por isso, quando me perguntavam onde morava,

dizia,

Nova Iorque.

 

Havia homens com vinho no lugar do sangue.

As mulheres cheiravam a um velório eterno,

as crianças diziam coisas

que os carteiros desconheciam.

 

“Os políticos são cartas sem código postal”.

 

Os economistas, esses passavam o tempo

a trocar as moedas lá de casa por vazio.

 

Os meus pais detestavam correspondência,

trazia convites para o tribunal.

Depois vinham polícias e algemavam a casa.

 

Nós saíamos.

 

Já não havia telhado,

as paredes ficavam sem gritos

e os santos podiam espreitar-nos o património.

 

Perguntava,

como se fecham as portas ao ácido?

 

O meu pai parecia um hospital,

tinha aflições.

Havia mofo nos seus olhos.

Eu com os dedos

desenhava uma ideia larga,

segurava-lhes o pó.

 

Não entendia,

se as estações são quatro

porque era sempre Outono na minha mãe.

Nela tudo caía.

Os dias tinham sido,

muros que se confundiram com pássaros,

nuvens interpretadas como asas,

pólen com a colmeia deprimida.

Quando as lágrimas transbordavam,

a sua face ficava um rio

e eu,

deixava-lhe beijos como barcos.

 

O tempo meteu-me no naufrágio.

Não controlei as rédeas ao vento

e bem dizia Sylvia Plath,

“a voz de Deus está cheia de correntes de ar”.

 

Agora sei,

o Outono é bilhete de identidade,

fala legalmente de muitos corpos.

 

Poema IX (Livro – Poemas com Alzheimer)

 

Nunca digas amor,

sem saberes que os vermes

nascem na ressaca do paraíso.

O tempo tem essa essência de falésia,

fazer do céu

o ígneo chicote para as lágrimas.

 

Já imaginaste o tecto a descer os degraus,

a entrar-te pela cidade

com pálpebras esmagadas?

O cume a ser o solo?

Pisas então essa palavra

que dizia alucinações aos órgãos.

Muros como se fossem as teclas magnólias.

 

Escreveste com a língua tantas coisas,

imitaste com ela as ondas.

O mar cabia na boca sem margens.

Às vezes,

largas planícies demoravam fábulas na saliva.

Os beijos realizavam as aves.

E depois dos beijos,

as facas prometiam dias capazes de palácios,

fidelidade sem vento,

ouro com lisura infantil.

 

O ferrão é o testamento tardio do mel.

 

Os corpos continuam,

ondas que vão e vêm numa maré magnífica.

Sol estéril, adrenalina furibunda,

gangrena doce.

Amadurece o petróleo, combustão do tempo.

O futuro recua.

Amores com magnitude desavinda,

pétalas em contramão,

terrores deitados, mas com subtileza.

 

Abrem-se clarabóias na cabeça

para que todos saibam,

pela frente se mostra a traição.

 

A testa, casa do segredo jubilado.

O poema regurgitando

feridas altas como prédios.

A boca,

fábrica de ódio em infinito trabalho.

 

O corpo é agora moldura desmedida.

Retratos com espinhos,

assoalhadas para a solidão,

mentiras com um espanto terrível.

 

A Primavera são revólveres que floriram.

 

Poema I (Livro – Poemas com Alzheimer)

 

Desconto para a insegurança social,

para não ter direito ao sangue.

 

No parlamento barbeia-se o pus.

Mas para quê,

se as veias só têm flores enforcadas.

 

Quando fiquei doente o dinheiro roeu a trela.

Já sabia,

carteiras com frio, aprendem dilúvios.

 

Atirei o coração para outro sítio.

 

Fui pelas ruas e fiquei espantado,

o mundo era um canto sem lugares vagos.

Na calçada, profetas erguiam capelas

para subir às papoilas.

As moedas nas suas mãos

compravam anjos que metiam nas seringas.

Havia também os que chegavam ao paraíso

por um gargalo,

corriam a salivar tabernas.

Em breve um copo navegava na boca.

O álcool partia de barco até Camões,

os poemas atracavam no fígado.

 

Não era aqui o meu destino.

 

Dei um novo rumo ao peito,

fui apregoar nuvens para a feira.

De repente levantou-se um teatro.

Todos se riram com ferocidade,

acenavam com folhas que imitavam bandeiras.

Foi assim que soube,

dentro da minha pátria havia um esconderijo.

 

Rendimento Mínimo Garantido.

 

Aí viviam homens com calos nos braços,

pernas que gostavam de dormir,

corações com feriado.

Em alguns apenas sorria o indicador

por exercitar o gatilho.

A garganta era um revólver.

Nesta vivia um cão.

Quando o dedo dava ordens,

erguia as orelhas.

Todos evitavam que ladrasse pólvora.

 

Segui então por onde os olhos podiam,

dobrei a esquina.

Corpos agitados esbracejavam suas gruas.

Coloquei-me naquele rio, deixei-me ir.

A foz era uma porta estreita.

 

Entrei.

O rio dava para um celeiro.

Na secretária, a ninfa com face de inferno

perguntou:

“Que deseja do tubarão, ouro ou sombra?”

 

Respondi:

trabalho.

 

Ao longo das mesas

várias cabeças pasmadas me carimbaram.

Os homens que eram um rio disseram:

“vai para a margem”,

e eu fui.

Dali ouvia as vozes gritarem,

violador de poltronas.

 

Finalmente percebi quem eram,

artistas e não rios.

 

Havia de tudo.

Inventores de depressões,

piegas sensuais,

criadores de febres,

projectistas de maleitas,

e até advogados do tédio.

Quando li,

Subsídio de Incapacidade para o Trabalho,

soube,

parte deles eram domingos imortais.

 

Ordenei à cabeça,

procura outros dias da semana.

 

Tanto insisti que encontrei emprego.

 

O patrão disse-me,

pago-te se produzires sol

e declararmos naufrágios.

 

Recusei.

Tornei-me ilha.

 

Então à frente dos meus olhos,

o tubarão com pústulas foi à falência.

 

Eu vi quem o devorou.

 

O meu país chama-se subsídio.

 

FERIDAS (Livro – Amanhecem nas rugas precipícios)

 

I

 

Parámos a infância numa fotografia.

 

Era um tempo no alto da eternidade.

A madrugada trazia pássaros,

o sol disparava praias pelas janelas.

Na melodia das aves,

ouviam-se as viagens falar com os barcos.

Quando as mães abriam a porta,

o mar vinha.

Imaginávamos então as algas ao vento

e os peixes a ir à lua.

Com seus mapas,

a areia ensinava os dedos

a encontrarem castelos.

Nos baldes trazíamos o oceano

para fazer lagoas só nossas.

 

A solidão tem tanto Agosto.

 

 

II

 

Um corpo.

 

Invernos que se roçam como gatos,

até os brinquedos terem pânico de miar.

 

São isto, as feridas.

 

 

III

 

Já reparaste que a morte hoje tem pássaros?

 

 

IV

 

Com o sangue de todos,

o tempo vestiu-nos de nada.

 

Afinal,

morremos na infância.

 

ESTENDAL DE VULCÕES (Livro- Amanhecem nas rugas precipícios)

 

 

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?

Uma sarjeta mal vigiada

acaba sempre a florir aftas.

Porque não arrancar os preservativos às palavras

para que os homens aconteçam.

Escurece-os a impotência dos dentes

sempre acomodados à crise das gengivas.

 

O palato não nasceu para engolir o escuro.

Vergar a língua é encomendar

um caixão para a cabeça.

Talvez por isso,

a boca seja um estendal de vulcões,

farto de se adiar em aspirinas.

 

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?

Sílabas sem esmalte,

são barbatanas para a cárie.

Mas os lábios têm por destino,

afogar lanças em perfume.

 

O pântano chega mais tarde,

quando o tártaro inunda o látex.

 

Os homens não sabem que as rugas começam na garganta.

 

Inédito próximo livro

 

Flores de ponta e mola.

Beijos calibre 6,35.

Foi assim que encostaste

o aço ao meu nome.

 

Guardo ainda num revólver

algumas árvores e pássaros,

o arrependimento de Raskólnikov

e as sinfonias de Stravinsky.

 

É já tempo de matar a eternidade.

 

Tenho a mais bela pólvora do mundo.

 

“CARTA  À ARQUITECTURA DA GEADA” (Faz parte do próximo livro e foi publicado no nº1 da Revista Cintilações)

 

O homem trepava pela assombração

para ver se a casa anoitecera de vez.

 

A casa e o homem eram a mesma coisa.

 

Habitava-lhe o peito uma harpa azeda.

A pele, oráculo

ou ilha povoada de retratos.

 

O homem apoiava os braços

como molduras.

Percorria o pensamento

para acender a mulher na paisagem.

 

A mulher partira

e deixara a possibilidade da erva.

 

O homem chamava dentro da morte

ou de uma espécie de arquitectura

amanhecida pela geada.

 

Inclinado nas trevas gritava pelo amor,

mesmo sabendo que àquela hora

a mulher construía pássaros noutro corpo.

 

Inédito próximo livro

 

As navalhas abrigaram-se na casa.

Os corredores estão escuros

e nunca mais te posso atear

com o mel das estantes.

 

Os livros já não têm janelas

para dentro de ti.

Os versos de Celan

foram alagados.

 

Se agora dissesse,

“Era Primavera,

e as árvores voaram para os seus pássaros”,

a porta ficaria na mesma.

 

Poema próximo livro (Publicado em Antologia)

 

Não venhas agora,

as árvores tremem nos móveis

e a tempestade não adormeceu a cama.

Os lençóis assobiam o teu nome

e dizem os retratos,

os pássaros são barcos para a insónia.

 

Não venhas agora,

as paredes hospedaram o vento

e nos atris os versos dançam falésias.

Há livros com janelas doentes

e as histórias agasalham-se no nevoeiro.

 

Não venhas agora,

as paisagens passeiam naufrágios

e Agosto está numa cadeira de rodas.

 

Quando regressares,

os dias estarão sós.

 

Leia a entrevista de Alberto Pereira na Revista Caliban

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