Um novo contexto geopolítico. E nós?

A história não se repete ou, pelo menos não da mesma forma, mas existem factores, situações e conjunturas que configuram dinâmicas que se repetem, legitimadas por várias teorias e validadas pelo sufrágio popular. Quando Francis Fukuyama preconizava, na sua obra O Fim da História(1992), o advento de uma nova ordem social e política, muitas foram as vozes discordantes, sobretudo vindas da esquerda. As profundas alterações da sociedade, com os seus problemas emergentes (nessas décadas de 80 e 90), conduziam a sociedade a um individualismo cada vez mais exacerbado, face a aumento da criminalidade e a mudanças fundamentais na estrutura da família e da própria comunidade. Foi aliás numa obra posterior, A Grande Ruptura (1999), que Fukuyama analisou essa transformação profunda de um tecido social que é hoje a nossa condição. Longe estava o filósofo de avaliar o impacto que as redes de comunicação e o controlo da informação teriam nas nossas vidas.

 A globalização e os seus efeitos perversos; desencadeando uma crise financeira sem precedentes, as guerras e o êxodo maciço, resultante das populações afectadas (Síria, Iraque, etc.) e que tentam a sua entrada na Europa, juntamente com os imigrantes que procuram melhorar as suas condições de vida na Europa; eis o que acelerou vertiginosamente a desagregação da unidade europeia e fez soar os alarmes que vaticinam o seu destino trágico.

Seria de esperar que a ingerência dos líderes europeus e de uma social-democracia inoperante, mais centrada nos grandes interesses dos grupos económicos e da banca e menos nos problemas sociais e políticos, tivesse este desfecho: o da grande revolta das multidões que sofrem com o espectro do desemprego, da fome e da falta de condições de vida. Reiterado pela entrada em cena de líderes populistas que, há décadas, aqueciam obstinadamente o seu assento nos parlamentos nacionais e europeu (veja-se a felicidade com que Nick Farage assinalou a longa luta no parlamento pelo Brexit), à espera de uma oportunidade para assaltarem o poder central. É bom não esquecer que a subida da extrema-direita ao poder (nos vários países europeus) representa também a força da sua representação na UE.

É importante frisar que a crise das dívidas soberanas ainda não foi resolvida, ao contrário do que possamos pensar. Ela encontra-se suspensa graças à intervenção do Banco Central Europeu, mas tal não anula o facto de as suas causas fundamentais, como o baixo crescimento económico, as altas taxas de desemprego, e a resposta à elevada dívida pública e privada cuja implicação tem sido o refreamento do Estado Social e do investimento público, com uma factura pesada para os sistemas de educação, saúde, investigação, cultura, etc. Por essa razão, não tendo sido anuladas as causas que precipitaram a(s) crise(s), não poderemos esperar a melhoria dos resultados, quando muito eles são «mascarados» para conter os múltiplos efeitos que podem ser (falsamente) evitados. Isto significa que o problema do endividamento excessivo se manterá por muito tempo e, não havendo solução à vista, a tendência será para o aumento de uma vulnerabilidade cada vez maior nos países com maior endividamento, os quais terão também cada vez mais dificuldade em financiar-se.

Sim, por várias razões, é uma nova ordem social à vista. E nós? Agora que o rastilho da «esperança» e da utopia se acendeu, com a vitória de Trump; xenófobo, islamófobo, cuja campanha não fez senão acender ódios e atiçar todas as clivagens do povo americano; que reafirma todas as suas intenções populistas que o elegeram (a expulsão de imigrantes, os tais 2 ou 3 milhões que fazem parte de gangs…), o fogo passou para o lado de cá. Uma exultante Marine Le Pen já fala na próxima vitória em Abril e nós trememos. Porque sabemos o que isso significa. Um sismo que deixará as suas marcas irreversíveis se não for combatido. E quem estará em condições de o combater? Um partido Socialista fragilizado como o francês? Que escolha será a dos franceses, agora que, além dos muçulmanos (e de uma islamofobia crescente), têm também um problema que são os imigrantes de Calais dispersos pelo país, amedrontando uma população que tem sido fustigada pelos atentados terroristas?

Frauke Petry

Ou a Alemanha, cujo último ano tem sido dominado pela desordem social causada pela entrada de milhões de refugiados (e sobre os quais circulam toda a espécie de notícias e boatos)? O partido político Alternative für Deutschland e a sua líder Frauke Petry, jovem portadora dos valores de uma Alemanha xenófoba e nacionalista, cujo discurso tanto agrada aos desiludidos das políticas de Angela Merkel, tem crescido expressivamente e nas últimas eleições autárquicas obteve um resultado surpreendente. Já não falarei de Geert Wilders ou do histriónico Beppe Grillo. Não é dizer que o Brexit tenha sido a causa de tudo isto, mas que se revelou como um sintoma alarmante do que sucederá na Europa, aí não devem restar dúvidas. Abriu-se a caixa de pandora e todos os males andam pela Europa fora, à solta e sem freio. Pior do que isso, pois serão, pouco a pouco, sufragados pelo povo, legitimados por ele, escolhendo políticos que souberam perceber-lhes o desespero. Escolhem quem possa fazer o «trabalho sujo» por eles: expulsar os indesejáveis, devolver-lhes o poder das nações, mesmo que tudo isso não passe de um mito. Mas quando acordarem dos seus sonhos já será demasiado tarde.

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