Que sociedade estamos a criar?

Hoje foi o dia em que se assinalou o desaparecimento de duas livrarias emblemáticas em duas cidades diferentes de Portugal: a Livraria Miguel de Carvalho (Coimbra) e a Livraria Pó dos Livros em Lisboa.

Em Coimbra, a livraria de Miguel de Carvalho, espaço que sobreviveu durante pelo menos duas décadas, mas que, agora, não resistiu e acabou por encerrar as suas portas ao público. Independente e com uma programação cuidada, esta livraria não aguentou o embate provocado pelo desgaste cada vez maior provocado pela expansão das grandes superfícies, que asfixiam as livrarias independentes. Com tristeza assistimos, não apenas à gentrificação de Coimbra, que fez disparar os preços das rendas e substituiu a vida da baixa de Coimbra em «poiso» de comércio para turismo. Os turistas não precisam de livrarias portuguesas, mas apenas de souvenirs e coisas afins.

Também em Lisboa, refém dos aumentos brutais das rendas, a Livraria Pó dos Livros encerrou a sua actividade, num espaço que durante muitos anos foi dinamizado por uma intensa actividade, mas que não foi suficiente para a preservar da gentrificação nem das rendas altíssimas, que obrigam os comerciantes a reconverter a sua actividade. No Porto, a situação foi igual com a Livraria Leitura e ainda podemos lembrar a mítica livraria Lello, em Lisboa, que fechou recentemente.

Não apenas as livrarias independentes sofrem esta depauperação contínua, asfixiando quem procura resistir às grandes superfícies, como também os próprios editores são cada vez mais atingidos pelo facto, obrigados a pagar percentagens elevadas para colocar os livros nos grandes espaços. Também eles são atingidos por uma desproporção que inviabiliza qualquer margem de lucro, acrescentando a elevada rotação com que as distribuidoras colapsam e deixam os editores a braços com dívidas.

Creio que ao próprio Ministério da Cultura e às instituições culturais deveria caber o desenvolvimento de programas para salvaguardar, de algum modo, os interesses, quer dos livreiros, quer dos editores, estimulando uma relação saudável entre a comunidade local e aqueles espaços, afinal espaços culturais que conferem identidade aos lugares, às cidades.

Se formos para o interior do país, a desertificação e a rasura destes espaços mostra como agoniza hoje a nossa sociedade, ferindo de morte os (mínimos) pólos culturais que existiam, em torno deles. Não existem livrarias nas pequenas cidades e vilas do interior (e anteriormente existiam), como também já não existem cinemas nem teatros, tendo-se eclipsado qualquer possibilidade de serem criadas pelas autarquias as necessárias estruturas culturais, grupos ou associações – também estas desapareceram.

De que serve um país próspero, economicamente falando, se não existir o lugar para reflectir, debater, sequer divulgar qualquer actividade cultural, empurrando assim os jovens para uma existência absolutamente desprovida de qualquer interesse cultural,  para espaços de diversão, em que o álcool parece ser o único elemento social agregador? Ou então, ainda, o desporto, sem mais hipóteses?

Sou de um tempo em que, vivendo em pequenas cidades de província, tinha a possibilidade de ir a uma biblioteca, a um cinema. Para quem vive longe das grandes cidades, isso era, por si, uma grande valia que era oferecida aos jovens, despertando-os para actividades comunitárias que traziam, não apenas capital cultural às autarquias, como igualmente uma coesão simbólica e estimulante que não se limitava ao supérfluo. Não se trata de dizer que «no nosso tempo é que era bom», mas de alertar para essa desertificação que não é meramente geográfica, mas também cultural, causa (para além do desemprego) que constitui uma das grandes razões para a fuga da juventude das pequenas cidades.

Culpar a globalização não é suficiente. Na verdade, como um desdobramento que nela se encontra implícito, deixámos de cuidar das pequenas comunidades, entregando-as ao consumismo fácil e imediato que se entrega ao centro comercial (estes também desertos, como espaços fantasmáticos), como se o consumismo fosse o único prazer concedido ao cidadão. E, tendo morrido também esses espaços comerciais, que irromperam como cogumelos na década de 90, em todo o país, desapareceu tudo, o comércio local, a cultura, o prazer pelo espaço público e comunitário, porque nele nada acontece. Poderíamos apontar culpados, mas não encontraríamos senão causas e pretextos fornecidos por um capitalismo que nos foi vendido como um sinónimo de progresso e de desenvolvimento e que não passou de uma ilusão, a qual durou pouco mais que dez, quinze anos. Estamos hoje mais pobres do que nunca. Se nas grandes cidades a oferta ainda permite o prazer da deambulação e da flanerie, nas pequenas cidades do país tudo parece ter ficado petrificado, coagulado, numa espécie de paragem da vida. E do tempo, um tempo morto.

Devolvam-nos as livrarias, devolvam-nos o comércio local, o pequeno espaço onde os vizinhos se reconhecem e se cumprimentam, ofereçam aos nossos jovens o que eles precisam desesperadamente: bons cinemas locais, boas bibliotecas e associações, grupos de actividades culturais e artísticas, de música. Autarquias, cumpram o vosso papel e deixem de vender o país ao desbarato, de hipotecar o futuro dos que virão.

 

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3 thoughts on “Que sociedade estamos a criar?

  1. Maria Sá Pires

    Estamos a criar um mundo de ignorantes assediados pela indiferença a correer valores humanos …até convém, pois qto mais mirrados interiormente mais facilmente se deixa ” correr o marfim : a cultura,a convivência,até a espiritualidade das coisas boas….
    Abram uma livraria de jornais de football,revistas de sexologia ,de escândalos….ver se à como a oferta tem sucesso na procura.
    Maria

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  2. António Fonseca

    completamente de acordo com a Maria João, na Costa da Caparica também já não temos livrarias, a última encerrou há 2 anos, faço parte da Associação Gandaia, na Costa da Caparica, existimos há 6 anos e lutamos por agitar a Costa, criámos um grupo de teatro, um coro, uma Universidade Popular, temos mensalmente uma tertúlia à volta de um livro com a presença do autor, uma tertúlia de poesia e uma “Res_pública” , um espaço de debate socio-político e revitalizámos um cinema que estava encerrado há 12 anos, fazendo obras e levando semanalmente espectáculos culturais e artísticos de vários quadrantes… a presença do Fórum Almada a cerca de 5km é um chamariz para o público do concelho de Almada (e não só) o que torna a nossa tarefa muito complicada…

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  3. António Malta

    Não vale só nostalgia!
    Nesta sociedade onde o consumo e as modas são apanágio só a ação concertada de interesses comuns e eficazes poderão fazer a diferença!
    Enquanto tal não acontecer… choremos, choremos, choremos.

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