O Azul de amendoeiras que são brancas

Todo o pensamento começa por um poema.

Alain, Commentaire sur «Le Jeune Parque», 1953.

Quando as águas da filosofia se cruzam com as da poesia é natural que o rigor do pensamento escape por entre as suas margens e correntes, extravasando-as. O modo como as intuições e as múltiplas figurações do sentido as atravessam desafiam a formulação canónica, desviam-se, para dizerem de outro modo e seguirem a inexaurível música da língua. Tanto a filosofia quanto a literatura e, neste caso, a poesia, ocupam o mesmo espaço originário e é dessa força indomesticável, a da linguagem, que ambas se alimentam. René Char dizia que a poesia é superior à filosofia e podemos entender nessa afirmação a ideia de que a poesia se encontrava mais perto das nascentes e numa relação com o imediato, isto é, dessa «Luz do Ser» de que nos falava Heidegger, citando a esse propósito a poesia de Hölderlin, mas também María Zambrano, algo que não era de todo inédito. A poesia encontrar-se-á sempre mais próxima da música que a filosofia, obedecerá a outras leis (ou não) como o ritmo, a cadência, a entoação, etc. É precisamente nesta tradição que se entronca a poesia de João Rui de Sousa, a qual pode ser encontrada em vários autores da poesia contemporânea portuguesa. Além da sua obra poética, é de referir igualmente o seu notável ensaio, que foi publicando ao longo da sua vida, com destaque para Fernando Pessoa, Empregado de Escritório (1985), Este Rio de Quatro Afluentes (1988), António Ramos Rosa ou o Diálogo com o Universo (1988), bem como a sua actividade dispersa ao longo da sua vida literária pelos textos críticos que ia publicando na Revista Colóquio-Letras,no Jornal de Letras, n’Artes e Ideias e no jornal A Capital. Tendo publicado a sua primeira obra de poesia em 1960[1]; uma geração poética que foi fértil na poesia portuguesa e que rompeu com o neo-realismo em Portugal, à sua maneira; à qual se seguiriam várias obras. Porém, é a partir de 1955 que podemos já encontrar os seus poemas, na revista Cassiopeia (1955), da qual foi um dos fundadores, juntamente com o imenso António Ramos Rosa.

Ardorosa Súmula é muito mais do que um título, poderíamos dizer que encerra em si um programa, um pressuposto fundamental. Enuncia um paradoxo, no coração do qual se colhe o sentido desta recolha poética. Se, na palavra Ardorosa se traça o incêndio (mais do que da poesia, ela diz respeito a essa vibração intensa que afecta o sujeito poético) e a ideia de Súmula remete-nos para a precisão e para a condensação da palavra. Se as coisas se dão e se abrem, isto é, se elas se manifestam na sua natureza «ardorosa», todavia, a palavra poética exerce sobre elas o seu «rigor», impondo-lhes a sua medida, o que dá ao trabalho poético a possibilidade de revelar essa arte da contenção. É mais do que um exercício de refreamento, pois o poético resulta ainda de um exercício de combate com (e contra) os limites da linguagem, mostrando a «estranha inquietação» que no poema se aloja e que se (entre)abre para nós.

Se tivesse que encontrar uma palavra para definir esta obra de João Rui de Sousa, essa palavra seria «luz». Tudo nela parece ser iluminado e simultaneamente enunciador de iluminação. Nas suas inúmeras variações, a luz é central e omnipresente, ilumina todos os objectos, excede enquanto palavra a sua condição de vocábulo e expande-se, renovando-se e fluindo nas suas várias acepções e metáforas e na sua complexa rede de sinonímia: alvor, clarão, sol, claridade, azul. Se a luz designa, na tradição filosófica (e não só na ocidental) que é cara ao poeta, a raiz do conhecimento e da lucidez, permitindo o reconhecimento e a iluminação dos objectos, ela não se esgota nesse sentido intelectual, mas conforma também a própria experiência do excesso e do ofuscamento que este — e também a luz —  provoca naquele que dela padece.

No seu poema “Programa” (p. 9), o sujeito poético define o seu gesto ou antes a estrela que o guia e a sua procura é, ao mesmo tempo, feliz e triste, mas sempre insaciável, no encalço de indícios, pistas, memórias, pedaços de vida. Há mesmo um poema em que o poeta fala dos indícios (p. 14). Retome-se, porém, o poema “Programa”, onde o sujeito poético diz assim:

Enfrenta o sol que vem e adivinha/o azul de amendoeiras que são brancas.

Amendoeiras em flor, de Van Gogh

Porque o sol é, para nós, excesso de luz e de claridade e também porque a visão humana nunca se encontra preparada para o seu fulgor, enfrentá-lo comporta um perigo, mas deixa antever a possibilidade de nele adivinhar o que apenas a desmesura pode trazer: o azul de amendoeiras que são brancas. 

Aqui, toda a visão confina com o invisível e este processo é desencadeado, senão por um processo de visão, pelo dispositivo da imaginação que expande os limites da visão ou, ainda, pelo poder divinatório. E esta conforma assim uma imagem luminosa e irradiante, para a qual o sujeito poético nos convoca, isto é, reenviando-nos para um tempo e um espaço oníricos, libertadores, como podemos ler nos versos seguintes:

Dá livre curso ao fogo, à plena ave/ que voa no teu corpo ou nele se enlaça.

A metáfora do voo e da libertação, associada à força dos elementos, em particular a essa arquetípica metáfora do fogo, associada à paixão. Este «fogo» que é desmesura, queimando tudo à sua passagem, mas também purificador, é ainda, no plano filosófico, o da dialéctica heracliteana:

Este mundo, igual para todos, nenhum deus ou homem o fez, senão que foi, é e será fogo sempre vivo, que acende segundo medidas e se apaga segundo medidas.

É nesta ambiguidade dos planos — entre o físico e o ontológico — que se entretece toda a poética de João Rui de Sousa, não por forma a mostrar a separação dos mundos, mas a sua unidade indissociável e plena, nas suas múltiplas modalidades, entre o profano e o sagrado, o corpo e o espírito. Porque, para o poeta, o sagrado não se encontra fora do mundo físico ou num plano metafísico, mas sim nas próprias coisas, onde ele se revela, enquanto fonte de deslumbre.

Por isso, o fogo ou a paixão da exaltação amorosa dizem respeito a essa ivresse a que Jean Luc-Nancy alude, no seu livro com o mesmo título. Nancy refere-se à ela como à condição da sublimação, do fazer poético, e que, neste caso, se evidencia sobretudo na embriaguez dos sentidos:

A embriaguez é condição do espírito, ela faz sentir a sua absolutidade, ou seja, a sua separação com tudo o que não é ele (…). A embriaguez é ela mesma a absolutização, o desencadeamento, a ascensão livre para fora do mundo.[2].

É também esse o desejo que o poema arrasta consigo, configurando uma desestabilização que nele se instala pela sua condição de desmesura e é ela que se constitui uma ponte de acesso ao sublime (Idem, p. 40). Todo o poema é em si um convite à viagem e à libertação sensorial, à dessubjectivação e à valorização dessa experiência. O poema “Programa” concentra em si a possibilidade da leitura, entreabre-nos a passagem e ilumina-nos o caminho.

É no poema a seguir, “Sonda de olhos cintilantes”, que reconhecemos esse olhar do sujeito poético:

Esses olhos perscrutam o rolar dos dias,/ Eles fixam os tons vários das suas/ labaredas e obscuridades, das suas /contradições, das muitas metamorfoses (…) (p. 10). 

Dar conta da metamorfose, vislumbrar o devir que constitui todas as coisas, esse enigma permanente, tentar compreendê-lo e escrevê-lo — ainda que se saiba que esse é um gesto impossível — , tal reclama o poeta, aquele que procura fixar o que perdura no instante, arrancando-o ao dente voraz do tempo. Por isso ele nos fala dos olhos,

Esses olhos absorvem tudo isso, /todo o assombroso dum/ aprofundado labor transformado/ em presença sempre disponível, /em memória intacta e vivaz,/lúcida e ardorosa (…).

Não é apenas a experiência vivida e essa contaminação do incêndio da vida que são ardorosas, mas e-o também a experiência da memória que, através do exercício da linguagem, procura a exacta, a fecunda e feliz palavra, um verso apenas que seja capaz de arrancar a música à linguagem e de a devolver ao silêncio, «em memória intacta e vivaz».

Porque se escreve contra a morte e, antes que ela nos arrebate o vivo, escreve-se contra o esquecimento, do qual o poeta nos fala no poema “Registo”, perfeito na sua concisão e no equilíbrio métrico, revelando esse paciente labor que nos conduz à simplicidade:

Foi meu o ardor. Foi minha a sujeição/ de olhos quase gastos entre luar e sombra,/ entre um sim e um não, entre este chão/de rosas (e de paz) e um tão alto precipício.

O tom é doloroso, o da «ferida áfona» de que nos fala Derrida[3], mas ressuma nele a ternura que há nesse gesto de olhar para trás, derradeiro, nesse verso onde se diz:

de olhos quase gastos entre luar e sombra.

Uma das marcas mais fortes da sua poética, já o disse aqui, é o seu erotismo. Foi sobretudo a partir do seu livro Obstinação do Corpo, em 1996, que ele se intensificou, como o próprio o afirmou, numa entrevista concedida a Maria Augusta Silva[4], notando que ele constitui uma experiência do sublime. No poema “Intensificação” (p. 28), que se inicia com uma citação de O Cântico dos Cânticos, há uma assumpção da dimensão sagrada do amor erótico, o qual se intensifica com a presença de um paganismo e da natureza. E, aqui, é menos a presença do corpo aparecendo como carne do que a evocação do amor, tal como no poema “Acerca dos indícios”:

Eram também os indícios/o que eu amava:/ toques de pele, trocas de dedos,/mistura de olhares e subtis afagos (…)/ (…) Eram certos modos/ de estar ou ser, silenciosos quase, (…)/ Nesses indícios crescia a erva de uma/cumplicidade que, embora só promessa(…). (p. 14).

A voz poética, tantas vezes o puro eco da memória, é aquela que se alimenta desses traços ou

brevíssimos sinais que, no decorrer/dos instantes, pairavam na atmosfera.

E são os indícios que inscrevem no poema a vida póstuma e fulgurante, são ainda eles que permitem escrever o “registo”, traçando essa caligrafia amorosa que tem por horizonte a natureza, a claridade do dia, a praia, “os muitos vagares do sul” e a lassidão dos dias felizes, das manhãs claras que há no tempo de outrora, no céu aberto e que nos conduz ao sonho.

Em “A escrita que tarda” o deslocamento semântico — e como é fértil a prosódia de João Rui de Sousa, manejando habilmente figuras de estilo, exercitando o jogo livre entre as palavras e o fulgor das imagens, conjugando a tradição da poesia portuguesa nas suas várias presenças —  desliza entre o exercício metapoético e amoroso, naquele que é um dos seus temas predilectos: o rosto. Ou antes, poderíamos dizê-lo, do modo como o amor eleva ao sublime o reconhecimento do Outro e de como transforma o corpo amado em templo.

Neste poema, o sujeito poético oscila entre planos semânticos, joga com a linguagem metonímica e define a escrita, não apenas enquanto expressão da linguagem, mas também como modalidade de inscrição e de fixação do rosto amado:

A escrita do teu rosto já me tarda/e, embora tardia, é já abrasamento./Sei o teu nome. Mas não sei o assombro/de te voar nos ombros e nas virilhas. (p.17).

Todo o poema é prodigioso, no modo como voa de um plano para outro e nos faz ver a íntima e irrecusável relação entre amor e escrita, em que a esta se converte em toque mágico, procurando religar o que a vida arruinou, a chama intacta do amor:

(…) a escrita do teu vulto já me tarda,/ mas não desisto. Num estampido/ de folhas e metal- num revólver/de brumas — reacendo o rumo/ (o rubro) desta chuva/ que há-de fazer crescer as tuas letras/nas páginas de mim, da minha alma. (p. 17).

Adentra nestes poemas a água da memória e o vento do passado, a imponderável música desse ardor que os habita. Que esse rio, que essa água cante, é o que o poeta nos diz, no poema “Alvor que é de alvoroço”:

Alvor que é de alvoroço/quando a cantata me banha. (p. 18).

Nos temas desta obra e da sua própria poética ressalte-se a vocação apolínea e uma irrecusável busca ontológica, a do indizível que a escrita faz desencadear e revela. Quase sempre o amor aparece ligado à presença da luz e do sol. Ao surgimento do clarão, também, como no poema “Clarão”:

Quando rosas abres/como num rodar de estrelas,/o teu rosto e um clarão/de aves inesquecíveis! (p. 24).

O poema “O Olhar que arde — I” (p. 30) revela a alegria e a celebração do olhar que ilumina as coisas:

Regozijo-me/ pela facilidade/com que me dou/ ao olhar que arde,/ ao coração que permanece e avança (…)/em direcção ao sol que já me enleia,/em direcção à terra que, insistente, piso (…).

Evocando neste poema a condição de humildade da criatura, são ainda a luz e o afago do sol que lhe trazem o comprazimento do olhar. Como seria possível (e aqui se encontra o paradoxo) narrar a luz, grafá-la no poema, se não a partir da experiência do envelhecimento? A luz não seria se não houvesse a experiência do mundo iluminado e são as coisas iluminadas que lhe dão sentido, a possibilidade de olhar e de ser reconhecido nele.

O sol e a terra e o som./ E o olhar que arde/ em tudo isso,/o olhar que parte/ para o abraçar/ de um corpo (…).

Como um salmo ou uma litania, eis o que nos desampara na margem do poema: a fragilidade da criatura, o fulgor do efémero. Escreve-se para redimir o olhar que arde./ E arde. Sabendo que esse ardor não é senão passagem. E partida.

Maria João Cantinho

15/11/2016

[1] Das suas obras de poesia fazem parte “Circulação” (1960), “A Hipérbole na Cidade” (1960), “A Habitação dos Dias” (1962), “Meditação em Samos” (1970), “Corpo Terrestre” (1972) e, em 1983, reuniu os poemas publicados com inéditos em “O Fogo Repartido”. Na década seguinte editou “Enquanto a Noite, a Folhagem” (1991), “Palavra Azul e Quando” (1991), “Sonetos de Cogitação e Êxtase” (1994), “Obstinação do Corpo” (1996) e “Respirar pela Água” (1998).

[2] Nancy, Jean-Luc, Ivresse, Bibliothèque Rivages, Éditions Payot & Rivages, Paris, 2013, p. 37.

[3] Derrida, Jaqcues, “Che cos’è la poesia ?”, in Poesia, I, 11, Novembro, 1988.

[4] http://www.casaldasletras.com/Textos/JOAO_RUI_DE_SOUSA.pdf.

Este texto também foi publicado na Revista Caliban. Veja aqui

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