Isabel Ramos: o sentido da (des)ordem

Um universo inquietante, perturbador e isso seria ainda dizer pouco, pois não se trata apenas da estranheza das personagens, das leis que nos escapam, dos gestos que ultrapassam os seus autores. Há também aqui uma escrita que se destaca pelo seu rigor limpo, pela sua depuração que denuncia um trabalho moroso de escriba e uma agilidade na construção dos contos que revela um trabalho prévio de encenação, para encontrar no conto um acabamento perfeito. Uma escrita que revela, também, uma leitura (e transfigurada) de autores como Beckett ou Michaux, dos mestres do absurdo na literatura.

Pensar a alegoria em Walter Benjamin

No dia em que se fizer a história da recepção de Walter Benjamin em Portugal, este livro da Maria João será uma chave fundamental para a compreensão da mesma. Ele situa-se como ponto charneira da segunda geração de leitores de Walter Benjamin, segunda geração que se segue e que é herdeira, uma herança, aliás, nada a contragosto contrariamente a outras heranças, de figuras como Filomena Molder, João Barrento ou Bragança de Miranda. O mais interessante, aliás, é ver como esta história percorre o livro de uma ponta à outra e como as clivagens e as diferenças que existem na recepção de Benjamin encontram uma tensão produtiva na própria formulação conceptual da alegoria.

Do Ofício Poético como Alquimia

O poeta António Gedeão desapareceu há vinte anos. A sua última obra foi Memórias, uma magistral biografia, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. Rómulo de Carvalho atravessou o século XX. Nascido no ano de 1906, o poeta conheceu uma vida discreta, longe dos salões literários, que nunca o atraíram. Foi, durante toda a sua vida,…

Gabriela Rocha Martins

«Não te quero só palavra agnóstica»: Gabriela Rocha Martins

  agora-a-memória .agora o sopro  da face impressa sob a derme .depois  o canto-do-cisne em resguardo-amansado  pelo medo .depois um rasgo de vulgaridade Gabriela Rocha Martins, “A crispação de um toque a-fora o ser” Se uma paixão pudesse dizer-se de Gabriela Rocha Martins, essa seria a da memória. Não só como exercício poético, mas como…

Montaigne: a vida como palimpsesto — Revista Caliban – Medium

Não há nenhuma existência constante, nem do nosso ser, nem do ser dos objectos. Nós, os nossos juízos e todas as coisas mortais vamos incessantemente fluindo e rolando. Não podemos aceder ao ser, porque toda a natureza humana está sempre no meio, entre o nascimento e a morte, e apenas dá de si mesma uma…

O Azul de amendoeiras que são brancas

Todo o pensamento começa por um poema. Alain, Commentaire sur «Le Jeune Parque», 1953. Quando as águas da filosofia se cruzam com as da poesia é natural que o rigor do pensamento escape por entre as suas margens e correntes, extravasando-as. O modo como as intuições e as múltiplas figurações do sentido as atravessam desafiam a formulação…

Manuel António Pina: o homem que não gostava de falar da poesia que escrevia

Há um deus único e secreto em cada gato inconcreto governando um mundo efémero onde estamos de passagem Um deus que nos hospeda nos seus vastos aposentos de nervos, ausências, pressentimentos, e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis, e compassivo o deus permite que o sirvamos e a ilusão de que o tocamos In Como se…

Europa, eira do exílio e da vingança

Rui Nunes, A crisálida. Lisboa: Relógio d’Água, 2016, 46 p. Recebeste mais do que deste para me salvar, como te vou demonstrar. Em primeiro lugar, habitas na terra dos helenos, em vez da dos bárbaros, conheces a justiça e sabes usar das leis, sem recorrer à força.[1] Acolhendo na sua argumentação o valor negativo que…

“A Terceira Miséria” de Hélia Correia

Apesar de ser mais conhecida como romancista e dramaturga de destaque no actual panorama da literatura portuguesa, tendo conquistado vários prémios literários ao longo da sua obra, Hélia Correia estreou-se na literatura com a poesia. Publicou O Separar das Águas, em 1981, O Número dos Vivos em 1982 e A Pequena Morte/Esse Eterno Canto, em…

O número 1 da revista "Café com letras"

Uma nova revista de literatura

No dia 1 de Abril (e não é mentira!) nasceu uma nova revista de literatura lusófona, a revista Café com letras. Esta foi criada pela editora Nota de Rodapé e orgulho-me de ser a directora da mesma, o que se traduz numa imensa responsabilidade perante os leitores que nos acompanham. Deixo aqui as fotografias do lançamento da revista,…