Manuel António Pina: o homem que não gostava de falar da poesia que escrevia

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

In Como se desenha uma casa, editora Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.

A presente antologia já havia saído na editora Pé de Página Editores, em 2007, tendo sido organizada por Sousa Dias e prefaciada por Inês Fonseca Santos, que é autora de uma tese de mestrado sobre a obra do poeta, Regressar a casa com Manuel António Pina (Abysmo). Dito em voz alta foi agora reeditado pela editora Documenta, como explica o organizador na página 7, a pedido das filhas do escritor, Ana e Sara Pina. Por isso foram incluídas as entrevistas que o poeta deu, no período ulterior à edição original, entre 2007 e 2012.

Amigo pessoal de Manuel António Pina, Sousa Dias, ensaísta discreto e outsider com obra de relevo publicada na área da filosofia e da estética, volta a assinar aqui a organização da antologia e procura levar a cabo um trabalho de resgate que contribua para uma perspectiva mais alargada da vida e da obra do poeta.

Numa entrevista a Sarah Adampoulos, Manuel António Pina falava da “necessidade de escrever poesia” (p. 93). Referia-se aqui também ao interregno entre cada livro que escrevia como o período de pousio, referindo que era um “certo incómodo” que o incitava à escrita do próximo. E falava da poesia como uma forma de respiração ou de co-existência no mundo: “Escrever poesia serve-me, não para estar, mas para ir estando mais ou menos bem comigo mesmo e com o mundo.” (p. 94).

São dez as entrevistas que compõem este livro, concedidas pelo poeta a vários autores, respectivamente: Osvaldo Manuel Silvestre e Américo Lindeza Diogo, Ana Marques Gastão, Anabela Mota Ribeiro, Carlos Vaz Marques, José António Gomes, Luís Miguel Queirós, Maria Augusta Silva, Maria Leonor Nunes, Sarah Adampoulos, Sérgio Almeida, Sérgio Costa Andrade e Sérgio Guimarães de Sousa. Caleidoscópica, a estrutura desta antologia permite ler/perscrutar o universo poético de Manuel António Pina, penetrando de forma multímoda as várias dimensões da sua poética.

Para além do trabalho de investigação que tem sido realizado em torno da obra do poeta, Dito em voz alta constitui um incontornável testemunho que configura uma obra de referência e abre novas possibilidades de leitura e interpretação da obra de um autor “que não gostava de falar da sua própria poesia. Não me refiro apenas às suas considerações em relação à oficina poética, mas também à sua forma de pensar o mundo, a sua visão estética e a perspectiva que tinha o poeta sobre a literatura e sobre a vida.

O lastro que conforma a sua escrita torna-se mais visível nesta antologia, sobretudo nas entrevistas em que Manuel António Pina se desnuda, como por exemplo na página 99, e em que afirma: “O que se ficciona é a verdade. Sim, a ficção não existe. O que há é a verdade. Escreve-se com o próprio sangue.”

A poesia de Manuel António Pina dialoga permanentemente com as grandes vozes da literatura contemporânea e universal e é precisamente essa densa tessitura, intertextual e espessa, composta por várias camadas, que se pode escutar e ler na sua poesia, num largo espectro que vai dos clássicos, a T.S. Eliot (autor referencial, sobretudo Waste Land), passa por Jorge Luís Borges (outra das suas grandes referências literárias) e tantos outros que não são aqui mencionados. Cita também e com frequência vozes mais jovens da poesia portuguesa contemporânea: Daniel Faria, Rui Pires Cabral, Rui Lage, etc. E há também essa ligação de Manuel António Pina ao cinema, explorada sobretudo na entrevista que concedeu a Sérgio Guimarães de Sousa, onde se confronta com a influência do cinema na sua obra.

Evoquem-se os animais e os gatos em particular, esses seres cujo olhar é feito de enigma, que o poeta sente estarem tão próximos do Ser, como o afirma, numa resposta a uma pergunta de Anabela Mota Ribeiro: “ Dou-me bem com os gatos porque eles, os animais em geral, estão muito próximos do Ser. Como estão algumas personagens literárias.” (p. 136). Essa paixão melancólica pelo mistério felino reflectia-se na sua poesia (relembre-se o livro “Os gatos”, para além de tantos poemas que lhes dedicou), avesso que era a quem o tentasse desvelar, como se pode confirmar na página 123, onde diz não gostar de psicanalistas, designando-os por “polícias das almas” e afirmando: “Não gosto nada que me espreitem cá para dentro”. O que ironicamente fazemos agora, contrariando-lhe a vontade. Uma edição imprescindível e muito cuidada. Fazia falta.

Este artigo foi publicado originalmente na revista Caliban.

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