Entrevista realizada em 2002 para a revista “Digestivo Cultural” e recordada aqui, agora que a obra de Eucanaã Ferraz foi reunida e publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961. Formou-se em Letras e realizou o mestrado em literatura brasileira pela UFRJ, com a tese Drummond, um poeta na cidade (1994). Fez o doutorado em literatura brasileira, pela mesma universidade, com a tese Máquina de comover: a poesia de João Cabral de Melo Neto e suas relações com a arquitetura (2000).Publicações: jornais, revistas e antologias (entre elas, Esses poetas, uma antologia dos anos 90, org. de Heloísa Buarque de Holanda. Rio de janeiro: Aeroplano, 1998). Em parceria com Victor Loureiro: O outro e o outro, Rio de Janeiro: Luxo/Lixo, 1984). Individualmente: Livro Primeiro, Rio de Janeiro: Edição do Autor,( 1990), Martelo (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1997), Desassombro (Quasi, Vila Nova de Famalicão: 2001).

marteloM.J.C. – Começou a publicar poesia em 1990. Mas defendo a ideia de que a experiência poética começa muito cedo, na infância, por exemplo. Quer falar nisso?

E.F. – Realmente, a experiência poética encontra na infância um tempo ideal, pois é quando a curiosidade e a liberdade em lidar com as formas exercitam-se com mais naturalidade, rentes ao sentir, ao corpo, ao sonho. A criança constrói seu conhecimento do mundo não raro por meio de associações inusitadas, insólitas, muito próximas da metáfora. Jamais voltamos a experimentar um tal desembaraço, ainda que tenhamos, na arte, o desejo de retornar à experiência poética natural da infância.

M.J.C. – Quando é que começou a escrever?

E.F. – Quando criança, vivi numa casa praticamente sem livros. Eles apareciam nas mãos de meu pai esporadicamente, em forma de trabalho, algo inacessível e despido de qualquer interesse para mim. Minha aproximação com a poesia, no entanto, deu-se em casa mesmo. Conto isso em uns versos de Livro primeiro: “Conheço o primeiro livro de poemas/ – Eu/ de Augusto dos Anjos// Meu pai o tem entre tratados de odontologia/ sem capa/ velho/ enferrujado”. O livro era, na verdade, terrível, com longos poemas sobre a morte, o apodrecimento dos corpos, tudo visto sob um ponto de vista materialista, cientificista, e construído com um vocabulário exagerado, heterodoxo, antipoético, o que deveria ser repulsivo para uma criança. Mas não o foi. Ao contrário, este livro tornou-se fundamental para mim, pois, durante muito tempo, toda a minha leitura de poesia se restringiu a ele, convertido então numa espécie de sinônimo de poesia. Ou seja, aquilo era a poesia, Augusto era opoeta. Mais tarde, na escola, vivi com grande espanto a experiência de ver morto um de meus professores, um bom velho chamado Veloso. Perturbado, achei que devia falar sobre aquilo. E o melhor modo seria usar a palavra escrita, ao modo de Augusto dos Anjos. Com um verdadeiro impulso emocional, mas sem qualquer maturidade existencial ou literária, escrevi uns versos. Tanto estes quanto os outros que se seguiram eram ingênuos pastiches do que havia de mais superficial naquele poeta. Mas, hoje, gosto de pensar que naquela época já surgia em mim a desconfiança de que a poesia se faz sempre a partir de um “susto”, existencial ou estético, a ser traduzido depois por um arranjo incomum de palavras.

M.J.C. – Sei que tem uma relação estreita com a poesia portuguesa. Nomeadamente com os poetas Sophia de Melo Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. De que modo acha que essas influências se cruzaram com as da poesia brasileira ou não se cruzam?

E.F. – Acredito que todas as influências se cruzam, atuam umas sobre as outras, entram em tensão, geram formas. E, de certo modo, tudo é influência, já que tudo ajuda a formar nossa sensibilidade. Assim, precisaria registrar a leitura entusiasmada da poesia de Pessoa e de Jorge de Sena. Mas, realmente os nomes portugueses fortes são Sophia e Eugénio. Encontrei em ambos, sobretudo, a força que nasce da delicadeza e da luz. A ternura de Eugénio é das coisas mais grandiosas que a poesia já produziu. A palavra de Sophia é absoluta, generosa, abraça uma dimensão cósmica, procura libertar-se de toda contingência, do tempo, do espaço, da descontinuidade dos nomes e dos corpos. A generosidade de Eugénio, por sua vez, parece mais chã, consiste em abrigar as coisas e os seres com as sua pequenas raias para acendê-los com a dignidade, a beleza e o afeto. Não me acredito minimamente capaz de chegar a tanto. Mas creio que estes dois autores revelaram alguns valores muito altos que gostaria de perseguir. Poderia dizer o mesmo da simplicidade sofisticadíssima de Manuel Bandeira. Já a poesia de João Cabral de Melo Neto orientou-me decisivamente para certo materialismo, que tanto me interessa na poética de Eugénio e mesmo em certa poesia de Sophia, e para um realismo que aos poucos foram me afastando como poeta, não como leitor e admirador, do “estilo” de Herberto Helder. Mas nenhum poeta me ensinou tanto a oficina poética quanto Carlos Drummond de Andrade. Lendo e estudando sua poesia descobri minhas próprias habilidades, minhas aptidões para esta ou aquela maneira de dizer. Mas seria preciso acrescentar ainda a pintura de Matisse, a música de Caetano Veloso, a prosa de Clarice Lispector. Tudo se cruza e se amplia, pois permaneço à procura de linguagens, obras, autores e vivências que definam, que afinem o desempenho de minha escrita.

M.J.C. – São claramente evidentes essas influências, na sua poesia. Creio que em Desassombro elas se tornam mais explícitas e acentuadas, querendo referir-me ao aspecto apolíneo da sua poética, não concorda? O próprio título sugere o contraste e toda a obra se coloca sob esse signo…

desassombroE.F. Penso que em Desassombro as marcas do diálogo com outras poéticas estão de tal modo assimiladas que já não surgem sob a forma de influência. Quanto ao que chamas de aspecto apolíneo, de fato minha poesia prima pela clareza, pela ordem e pela plástica. Mas se há uma valorização da razão e da materialidade das coisas, não há exatamente uma ocultação do fundo trágico da existência. Mesmo num livro que se consideraria mais apolíneo, como Martelo, lê-se que “o poema é ver/ com lanternas/ que cor é a cor/ do escuro”. Assim, há tanto uma vontade de tornar claro quanto um desejo de conhecer o escuro. Esta luz de que tanto falam os meus poemas é da ordem da razão, sim, mas ela é também a imagem da compreensão de nossa condição trágica. Só que sou um lírico a falar do trágico. Um outro poema de Martelo diz da “sorte/ precária/ de uma luz/ em meio à sombra/ que tudo amesquinha”. A luz é também conforto existencial, físico, tem a ver com o bem-estar que experimentamos quando nos esquecemos da morte. Há um poema algo narrativo de Desassombro que põe em cena uma mulher que passeia num jardim e se depara com a estátua de uma ninfa a qual falta o rosto. A mulher se depara com a tragédia, a violência, a repulsa, o horror. Os versos tratam disso, mas, ao final, surge o homem por quem a mulher esperava, eles se beijam e ela sorri. O poema tem um final feliz! Termina iluminado! A mulher compreende seu corpo, sua existência, a natureza, o tempo. O aprendizado se dá pelo vislumbre do trágico, mas tudo chega a um termo claríssimo, ordenado, com a valorização do indivíduo, da razão, da própria aparência como valor capaz de produzir um alto conhecimento da existência. O espírito apolíneo é apenas um polo das tensões que minha poesia apresenta. Eu até gostaria de fazer uma poesia absolutamente apolínea. Não faço por não saber, por não poder.

M.J.C. – A sua poesia, em qualquer um dos livros, mas, sobretudo em Desassombro, refiro-me ao último poema, aquele em que compara a oficina poética com o trabalho do moleiro, evoca um lado profundamente “artesanal” da poesia, que encontramos, por exemplo, em Carlos de Oliveira ou em João Cabral de Melo Neto. Reconhece-se nesta tradição?

E.F. – Sim, sem dúvida. Mas a hipervalorização do artesanato, assim como a hipertrofia da inspiração, que teve lugar sobretudo na tradição romântica, pode ser perigosa. Embora eu me ponha ao lado dos trabalhadores, digamos assim, já na primeira parte de Desassombro, a que dei o nome de “À mesa de trabalho”, apresento o trabalho de construção do verso, do poema, como um risco: “Sem que fabriquemos/ na procura do cristalino/ o tão-somente incolor,// sem que, à procura do estrito,/ bebamos a estricnina/ do sensabor,//quanto de erro/ é acerto/ na fórmula de fingirmos?” Creio, portanto, que há sempre o risco de esterilizarmos a poesia, de matá-la em nome do artesanato, que é apenas um aspecto da criação. Admiro os escritores inspirados, que são procurados pela palavra. Quanto a mim, procuro por ela. Num outro poema, queixo-me um pouco deste meu trabalho, digo que gostaria de ser “o cão da palavra”, ser levado por ela. Uma submissão maravilhosa! Há poetas como a Sophia, a Cecília Meireles, o Manuel Bandeira, escritores como a Clarice Lispector, que falam desta experiência do texto que se faz, cabendo ao poeta obedecer, receber, o que só é possível, é claro, num estado de absoluta atenção, de concentração extrema, de dedicação mais alta e mesmo superior àquela exigida pelo trabalho. Sim, o artesanato parece então alguma coisa realmente menor. Mas é impossível não invejar, igualmente, a engenharia sem-par de um poeta como João Cabral, que estruturou muitos de seus livros definindo, a priori, a quantidade de seus poemas, os temas de cada um, o número de versos, o esquema das rimas, os metros, tudo numa relação matemática perfeita, serial, para depois preencher a “planta” com versos. Veja que nestes exemplos opostos não há nem a exacerbação sentimental e descuidada nem o esfriamento das emoções! Um grande artista sabe escapar dos riscos de que falei antes. Um poema de Sophia é algo perfeito como objeto construído, enquanto um poema de Cabral nos leva à mais intensa comoção. Não sou capaz destas grandezas extremas. Daí, procuro situar-me numa fronteira, sempre a martelar, martelar, a alegria, o amor, a tristeza, a raiva, o susto.

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