Eros, Fragmento e Orientalismo na obra de Casimiro de Brito

 

Quem abriu a porta? Quem a fechou? Onde há porta? Onde não as há?

Apoteose das pequenas coisas, p. 71.

 

Aquilo que me prende à escrita de Casimiro e, sobretudo, à sua poética, que leio e releio um pouco ao acaso porque a ela sempre volto como um gesto antigo – descobri Casimiro de Brito na minha adolescência, como um dos poetas da geração de 61 que marcaram a poesia contemporânea portuguesa – , é o seu modo de génese expansiva, que contém em si esse movimento ou gesto de abraçar o mundo, ancorado na reverência pelas pequenas coisas, no olhar atento ao detalhe, nessa escrita em que se inscreve um desejo de «as sacralizar», fazendo-as ressoar na linguagem. O círculo que se traça à sua volta corresponde à composição de uma escrita imagética que se constrói como um espaço simbólico, mas também de despossessão, de desapego, nesse apelo à viagem e ao abandono, que se aninha na sua poesia.

Por outro lado, a inquietação sempre, a interrogação como causa do poema, nascida essencialmente da perda. O olhar do poeta repete o gesto de Orfeu, o que não resistiu a voltar-se para o que não podia ser visto. O que ele canta é o que já foi. Mas esse já ter sido, sobretudo na poesia erótica de Casimiro, esse modo de apropriação, é também o modo de ser do poema: dir-se-ia aqui o romper do instante no próprio tempo, em celebração e canto. Nessa forma de ser, o poema desenha um gesto de rememoração e de apurada (re)construção, a partir de percepções e de sobreposição de camadas de memória, de selecção de factos da mesma e do seu rearranjo, obedecendo a uma lógica não-linear e cronológica. Também aqui não são apenas os factos da vida que são lembrados, mas também as leituras que constituem uma fonte de inspiração poética, invocando a mitologia, a tradição, a Natureza, etc..  Desta forma, a escrita não decorre de uma consciência, mas é engendrada a partir de um todo que inclui processos como os de inspiração, da atenção e da própria intuição.

No seu último livro, A Apoteose das pequenas coisas, esse movimento presente na construção de que aqui falo encontra-se presente em todos os seus fragmentos, todos eles numerados. A sua organização não obedece aos ritmos da sucessão ou de uma cronologia, mas a uma aparente desordem, que é talvez o ritmo da própria respiração ou de uma viagem interior, a da memória, mas a voz daquele que fala fá-lo quase sempre no presente. Talvez porque a celebração, esse canto que ilumina as pequenas coisas, não conhece senão o presente, o instante da dádiva, esse fragmento que “é um animal cheio de vozes”. Mas também de silêncios, como diz o poeta, onde se acolhe o que não é dito, mas que respira no poema.

São metáforas privilegiadas as que habitam a poética de Casimiro, provenientes de uma oficina que resulta do apuramento dos sentidos e de uma atenção à percepção. Não apenas a metáfora da escuta, mas essencialmente a do olhar e a da visão. Porém, se ela se impõe no universo deste autor, uma visão que muitas vezes tangencia a busca metafísica, ela não se confunde com nenhuma espécie de ascese platónica ou com um qualquer gnosticismo, que tantas vezes prevalece nas poéticas onde é sobrevalorizada a imagem da visão. Há uma espécie de abandono naquele que olha e se deixa olhar, o daquele que segue os vestígios das coisas e os indícios. É antes um olhar erótico, guiado pelo desejo e pela beleza das coisas que persegue. Nessa forma nómada e errante, que sempre caracterizou a sua poesia e da qual falei, num ensaio que escrevi sobre o autor há alguns anos. Escreve Casimiro de Brito: “Não se lê um livro. Tal como não se lê essa coisa flexível a que chamamos mundo. Vamos lendo nos livros e no mundo que, a cada leitura, se outram.” (p. 146). Trata-se de seguir um fluxo que se outra, e se metamorfoseia continuamente, e o acto da legibilidade corresponde ao acompanhamento das formas em devir. Daí que toda a leitura e toda a escrita não possam constituir-se senão nesse caminho, à espera do reconhecimento mútuo e da descoberta da pertença de cada coisa. Acto amoroso e erótico, não apenas porque o seu objecto é muitas vezes a contemplação da amada/amado, mas também porque é um acto de fidelidade amorosa ao mundo.

No prefácio a uma antologia de poemas de Paul Éluard, António Ramos Rosa escreve: “Ver é um acto que revela a reciprocidade perfeita do sujeito com o objecto contemplado. Neste universo transparente toda a opacidade se desfaz, o passado é abolido e o presente surge na sua integral legibilidade (p. 15)”. Creio que esta afirmação se pode aplicar à poética de Casimiro, a de uma exigência do presente e essencialmente da sua legibilidade. Também o outro esteio que aqui se revela é o da doação do sentido, nesta medida em que olhar as pequenas coisas, ir ao seu encontro, exprime o desejo de as querer nomear e procurar arrancá-las ao seu esquecimento. Daí esta insistência de Casimiro no presente e no seu canto, relembro ainda o belíssimo poema “Amo agora”, onde reclama o corpo e o amor inaugural, mas também a língua e o canto, para que tudo possa ser salvo, no poema. Quase sempre o tempo é o da possibilidade e o do desejo, mas esse não é menos real, porque a presença é sempre excesso e enquanto tal escapa às margens do poema.

Se a presença de Eros na poesia de Casimiro é um dos principais elementos que a constitui, ele aparece ligado a outros dois, que lhe são indissociáveis: o fragmento e o orientalismo, no sentido de uma presença de elementos que constituem a poesia japonesa, sobretudo, de que Casimiro é um grande cultor em Portugal. Muito jovem, Casimiro de Brito partiu para Londres, onde acabou por viver até 1968. A proximidade e o contacto com um professor de estudos orientais, fê-lo descobrir uma poética que lhe era estranha, mas que cedo se lhe tornou familiar e que marcaria definitivamente a sua própria escrita. A extrema condensação do haiku e o choque que esta poética teve sobre si marcar-lhe-iam decisivamente o rumo. Numa entrevista que Casimiro deu a Andreia Brito, em 2005, “O essencial ainda está por vir”, explica assim Casmiro de Brito à entrevistadora:

Conheci uma poética que hoje considero ser a mais bela de todos os tempos (comparável só às nossas cantigas de amigo); entrei num campo de trabalho como eu gosto, a longo prazo, para sempre; entrei na vida (física, mental, sensível) de um ser celestial, a minha amiga japonesa, enfim, coisas bonitas que mudaram o meu caminho. Nunca mais deixei de respirar essa poesia e, sobretudo, nunca mais deixei de pensar (e de fazer) que é preciso conhecer mais do que a nossa tradição poética.

Essa presença da poesia japonesa e das suas musas prolongou-se no tempo (e ainda continua viva pelos contactos de Casimiro de Brito com a poesia japonesa) e lembro duas obras fundamentais: “À Sombra de Bashô: Renga com Matsuo Bashô” (2001) e o livro “Através do Ar”, escrito em colaboração com Ban’ya Natsuishi, composto de haiku que são traduzidos, simultaneamente em inglês, francês e português.

 O haiku (um termo que significa “versos de diversão”), constitui a forma lírica japonesa por excelência. A sua estética possui, ainda, vários pontos de afinidade com o aforismo, que Casimiro tanto preza na sua escrita, por ser um dispositivo cuja retórica também se rege pelo mesmo sentido de economia, de concisão e de rigor poético.

O dicionário Houaiss define o aforismo como:

Máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral; apotegma, ditado”.

Ou ainda como:

Texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica. Relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral.”

Os aforismos (de origem grega, de acordo com o termos aphorismós) caracterizam-se, sobretudo, pela brevidade e precisão. Constituem, na sua tradição, uma síntese que aproxima e concilia literatura e filosofia. Relembremos os aforismos dos filósofos pré-socráticos e, em particular, os do enigmático Heráclito, que Casimiro tanto admira. Eles aproximam-se, na sua estrutura, dos provérbios populares, exprimindo saberes e sentenças tradicionais e populares. No Pré-romantismo alemão, Friedrich Schlegel e Novalis retomaram essa tradição aforística, na sua estética do fragmento. Como uma recusa do fechamento do pensamento e da ideia de perfeição do mesmo. Novalis faz referência à capacidade que é inerente ao fragmento, pelo facto de encarnar a incompletude do que está em devir, representado na forma temporal do imperfeito, do que se iniciou e ainda não se concluiu, percebido em primeira instância e imediatamente como inacabamento. Pensar é, para Novalis, o grande cultor do fragmento, antes de tudo, caminhar, e o fragmento, enquanto expressão do pensar é, essencialmente, indicador de caminho e de procura, no sentido de interrogação do real. Além dos pré-românticos ou primeiros românticos alemães, também o filósofo Nietzsche elevou o aforismo, transformando-o num género maior. Como não poderia deixar de ser, Casimiro de Brito, vê no fragmento e no aforismo a expressão de uma arte maior, que cultivou em “A Arte da Respiração”, editado pela D. Quixote (1988), “Da Frágil Sabedoria”, das edições Quasi (2001), “Fragmentos de Babel” (2007) e “Arte de Bem Morrer”, pela Roma Editora (2007) e também agora em “A Apoteose das Pequenas Coisas”. O próprio sentido desta estética nasce da extrema concentração temporal nela existente, do Aqui e do Agora que se abrem na sua leitura. Isto é, o poema conquista a sua plenitude à luz da organicidade e da estruturação que dele irradia, da sua condensação espácio-temporal. Por isso e, como me disse um dia o poeta, cada poema deve ser lido ao centro, para que, da concentração do olhar, surja também a contemplação da origem e do fim do poema, da palavra e da coisa. Cada aforismo, cada haiku, cito Casimiro de Brito, é “simultaneamente um ovo e uma pedra”. Na entrevista que deu a Andreia de Brito, Casimiro diz, sobre o haiku:

(…)Tem a forma de um ovo, de onde pode nascer um pássaro. É um texto mínimo que, começando por surpreender, vai transformar-se em coisa do outro, do leitor, uma vez que a sua estrutura enigmática se presta à interpretação. Deve ser perfeito como um ovo ou uma pedra: não há nele uma sílaba a mais, mas tudo o que lá está é muito mais.(…)

Esta compreensão do haiku só pode nascer da articulação do tempo a-histórico com aquele tempo em que vivemos, o tempo quotidiano, onde a outra dimensão temporal se revela e manifesta, em cada uma das partes, reclamando uma pertença antiga. A estética do haiku ou do fragmento, ao recusar a ideia de um acabamento ou de uma definição da obra, e esta vai-se fazendo à medida que se escreve cada poema, circunscreve-se precisamente pela ausência da sua definição, avançando contra as evidências e o fechamento imposto pelo formal, colhendo em cada verso a imperfeição e o segredo, o inesperado. E, como Casimiro de Brito gosta de nos recordar, “o poeta é aquele que trabalha com o segredo”, habitando o umbral do querer dizer das línguas e do mundo, numa luta perdida contra o emudecimento da matéria.

Esta tensão interna, este “segredo” da matéria e do mundo e que constitui a sua opacidade é o que confere à poesia de Casimiro de Brito esta poderosa imagética, evidente, desde logo, no título “A Boca na Fonte”, que nos remete para essa busca do primordial, do acto de beber directamente da fonte, aqui dupla, pois é no sentido da natureza e simultaneamente da linguagem. Uma poética que se faz assim irmã da terra e da água, da escuta e da visão directa. Cito dois haiku, para dar ideia desta proximidade: por exemplo, o número 43, na página 16: “Silêncio. Ouçam/a vida – água correndo/cada vez mais triste” ou o 48, da página 17: “Diante do mar/o meu coração derrama-se/e vai com as ondas.” Cosmos, palavra, coração são rostos de uma mesma realidade, metamorfose incandescente que se escreve no poema, que se coagula na forma de imagem, breve e luminosa. Se os elementos e a força da terra e da natureza perpassam a sua poética, sob as mais variadas formas, desde a ínfima gota de chuva ou grão de areia até ao enigmático silêncio das constelações, também o onírico deflagra, a todo o instante, para nos recordar a brevidade da vida e do instante: “Viagem nocturna –/ regresso à origem do sonho/donde nunca saí.”

Morte e vida, sonho, natureza e linguagem são os «diversos rostos» que constituem a poesia de Casimiro, sempre. Seja na sua forma lírica ou de fragmento, em particular. Desses nomes essenciais dá conta a sua linguagem poética, revelando uma profunda sabedoria que se entrelaça com a simplicidade e o rigor da sua poética. Diríamos ainda uma mística que não se exibe como tal, mas que apenas se mostra e se revela, pela extrema simplicidade de um trabalho apurado com a linguagem. Se, por um lado, Casimiro é dos mais inspirados poetas portugueses e disso nos dá conta a sua “paleta lírica”, por outro, é senhor de uma contenção e de um rigor irrepreensíveis, que nunca o deixam resvalar para qualquer facilitismo.

Cito um haiku que resume esse rumo poético: o da página 8: “Na prosa do dia/a rosa alumia. Que prosa/se tudo é rosa?”. É por esta razão que o poeta René Char dizia que a poesia era superior à filosofia e a qualquer metafísica. Na poesia de Casimiro, a filosofia e a sagesse lavram esse sulco, em que a poesia deita a sua semente e onde a concentração da imagem atinge um ponto de intensidade e de deflagração raros. Como raros o foram os poetas-pensadores da Antiguidade Grega. Tanto os mais luminosos como os mais obscuros – relembro mais uma vez Heraclito – , mas era essa sabedoria enigmática que instigava o pensamento e originou a filosofia. Como as águas inquietas de um rio. Algumas correntes são mais claras e transparentes, outras serão mais profundas, talvez menos transparentes. Porém, os gregos nunca deixaram de perseguir a aletheia, fosse ela uma ilusão ou não. Creio que, na poesia de Casimiro, não existe essa obsessão pela procura da verdade ou da aletheia, mas tão-somente o desejo de compreender o mistério. Às vezes interrogando-o, mas muitas outras vezes, como aquele que se ajoelha e ora, aceitando o mistério. Porque é dele que emana a beleza de todas as coisas e o divino que nelas há, o sinal de uma qualquer coisa que pressentimos, mas que não agarramos. Porém, de qualquer coisa a que não nos é dado resistir: o Amor, como o gesto que nos é concedido: o da fidelidade às pequenas coisas. O Amor não tem sujeito, tem o mundo todo lá dentro e ele é-nos dado, no fulgor íntimo das pequenas coisas que, perdidas no ruído e na repetição dos dias, correm o perigo de não serem olhadas porque nos falta o silêncio e o olhar. Essa é a Alegria, a cantável, a que a Linguagem colhe, em gesto de ternura. E disso sabe a poesia.

 

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