João Oliveira Duarte: um ensaio para compreender a obra de Bento de Jesus Caraça.

No seu texto “A Biblioteca de Babel”, Jorge Luís Borges escrevia:

Quando se proclamou que a Biblioteca abrangia todos os livros, a primeira impressão foi a de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto (Borges 1988, 486).

Deve ter sido uma parcela dessa exaltação a que sentiu Bento de Jesus Caraça, cientista, professor e intelectual ligado ao Partido Comunista Português, no momento em que fundou a Biblioteca Cosmos em Portugal, em 1941. Nesse ano aziago, a Europa e Portugal viviam um dos períodos mais sinistros da sua história com a Segunda Grande Guerra e o seu rasto de destruição, conflito em que Portugal nunca entrou, porém o país estava refém do fascismo, que durou até ao 25 de Abril de 1974.

Apesar da situação política não lhe ser favorável, Bento de Jesus Caraça deu início ao que seria uma colecção de divulgação científica e cultural incomparável, num país em que a taxa de analfabetismo era elevadíssima. Entre 1941 e 1948, só para termos um vislumbre desse sucesso, foi vendido cerca de um milhão de exemplares da Biblioteca Cosmos. Se, à época, Salazar se referia ao comunismo como «a grande heresia da nossa idade» (Duarte 2017, 24), concluímos que foi uma atitude de ousadia inédita o facto de Bento dar início à Biblioteca com um livro de um autor russo, Iline, intitulado O Homem e o Livro. Esse aspecto revela bem a tonalidade política, e simultaneamente simbólica, do seu gesto,  privilegiando o livro na formação integral do homem.

BENTO-DE-JESUS-CARAÇADiante da barbárie destrutiva em curso, Bento de Jesus Caraça respondeu de forma dupla. Por um lado, ele opunha-se à guerra e ao fechamento das fronteiras, resistindo à nacionalização da cultura e do conhecimento. Por outro, o cientista defendia o internacionalismo e a abertura, «a transversalidade do conhecimento e do saber» (Ibidem, p. 24). Esta era a única forma, do seu ponto de vista, para combater o isolamento em que o fascismo nos mergulhara. Se relembrarmos, ainda, como o período entre as duas guerras correspondeu aos grandes avanços da técnica, posta ao serviço da infernal máquina da guerra e  manipulada pelo fascismo em nome de um suposto e armadilhado progresso, então Bento de Jesus Caraça teve a lucidez de não se colocar do lado de onde vinha o perigo e opôs-se-lhe com a sua concepção de um saber e de uma cultura integradas. Para ele, o que urgia era justamente a procura da cultura integral, cujo programa defendeu no seu texto mais conhecido, A Cultura Integral do Indivíduo. Nele revelava que estava atento aos grandes debates europeus e internacionais, nas áreas do ensino e da pedagogia, também por via da sua formação política.

A abordagem de João Oliveira Duarte não se pretende biográfica, como o autor o frisa bem na sua introdução. Trata-se sobretudo de uma reflexão sobre as razões da criação da colecção da Biblioteca Cosmos, relativamente aos vários aspectos que a caracterizam, desde a sua componente política (marxista) à concepção do conhecimento e da ciência que lhe são ínsitas. A proposta de análise de João Oliveira Duarte segue uma metodologia clara, partindo essencialmente do mapeamento de três linhas de fuga correspondentes a «três grandes blocos, em que cada um deles interroga, talvez de forma não linear ou imediata, essa mesma vocação» (Duarte 2017, 15). Esta não é outra senão a «vocação prática do pensamento» (Idem), que decorre da sua componente filosófico-marxista aqui implícita.

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É preciso dizer que, doravante, a investigação sobre a obra de Bento de Jesus Caraça tem neste ensaio uma obra referencial, que levanta questões que não podem ser ignoradas (mesmo não se concordando com o seu autor), contribuindo para a abertura de um debate sobre as circunstâncias e a obra do cientista. Um dos aspectos que gostaria de ter visto mais desenvolvido, por exemplo, seria a sua ligação com o meio científico português da época, para se apreender melhor o contributo e o ineditismo do seu trabalho. Porém, ao autor, que não é historiador, interessa-lhe muito mais o debate em torno de questões epistemológicas, culturais e políticas que presidiram à criação da Biblioteca.

No primeiro bloco, justificadamente mais extenso que os restantes, defende o autor como a aposta de Bento de Jesus Caraça se fez na vertente científica, esse vértice norteador que decisivamente impulsionou a criação da biblioteca. Movia-o a procura de «uma inteligibilidade do real», tentando captar a racionalidade do Cosmos, exprimindo-se na ideia da biblioteca. A segunda parte ou o segundo bloco diz respeito à «ancoragem na tradição humanista ocidental» (p. 186) e a terceira refere-se à análise da escolha da tradução de Prometeu Agrilhoado, feita pelo cientista, para integrar a Biblioteca. Como correntes do mesmo leito, os três blocos ou as três partes diferenciadas, ainda que correspondendo a momentos diferentes da sua análise, não são estanques, mas estabelecem entre si elos, apontando o modo como se inscreve a  transversalidade do saber, da cultura e da ciência na sua obra. O presente ensaio põe igualmente à vista a exigência de uma sequência necessária entre a dimensão reflexiva do seu pensamento e a sua aplicação prática, uma das características essenciais do marxismo.

De todas as partes desta obra, a que mais nos seduz é a primeira, onde o autor se move, numa escrita cuidada (que nem sempre é fácil), com destreza entre os autores, os temas e os conceitos abordados, em particular nos capítulos relativos à ideia da biblioteca. Partindo desse conceito/ideia, Duarte procura estabelecer uma análise das suas modalidades diversas e aplicá-lo ao caso singular da Biblioteca Cosmos. Situa-nos desde logo na caracterização de um ideal, circunscrevendo um modelo utópico (entenda-se revolucionário) de cultura que reflecte a visão de Bento de Jesus Caraça e não é por acaso que a Biblioteca Cosmos se inicia com o livro de Iline, O Homem e o Livro, enfatizando a dimensão livresca do saber.

No capítulo “O Labirinto e a Biblioteca, entre Borges e Foucault”, Duarte opta por duas referências inevitáveis, para tematizar em simultâneo a imagem da biblioteca e do labirinto, duas figuras intimamente aparentadas nos autores aqui abordados e que pertencem a uma mesma constelação (que vai de Agamben a Walter Benjamin, Aby Warburg). A ideia de que existe uma homologia entre o universo e o livro inscreve-se no pensamento filosófico ocidental, sobretudo na tradição racionalista. Remonta à própria China antiga, referindo que «a ordenação conferida aos livros, a divisão por categorias, correspondia à forma como o próprio universo era pensado» (p. 38). Foucault, uma referência privilegiada aqui, na sua obra As Palavras e as Coisas refere-se a uma equivalência dos projectos enciclopédicos, construídos de acordo com a própria imagem do mundo, baseando-se no poder que o homem tem de estabelecer afinidades e de as reconhecer, poder esse que assenta na sua capacidade mimética – e a propósito da qual Benjamin escreveu o seu precoce texto “A doutrina das Semelhanças” (1913). Nesse texto, Benjamin refere as relações de simpatia, de analogia, de similitude e de conveniência que nos permitem estabelecer conexões, e reconhecê-las, entre a escrita e o cosmos.

Como o afirmavam os filósofos e os cientistas do Renascimento e da idade Moderna, também em Bento de Jesus Caraça transparece a ideia racionalista do mundo como um livro aberto, no qual o homem precisa de (re)conhecer as cifras que nele se inscrevem para o poder ler. Todavia, como o salienta João Oliveira Duarte, a biblioteca enquanto ideia não se restringe apenas às suas relações de enumeração, ordenação, sistematização, tomadas à maneira do positivismo científico, mas suscita paradoxos que desassossegam uma compreensão simplista do arquivo e da biblioteca.

Prometeu

«Prometeu Agrilhoado» por Jacob Jordaens (1640)

A segunda parte de Uma Biblioteca contra o Inferno mergulha na tradição humanista, na qual entronca o projecto da Biblioteca Cosmos. A ligação entre a segunda e a terceira parte é evidente, sobretudo se tomarmos como eixo fundamental a noção da tradição. Ainda que Bento de Jesus Caraça a tome como uma exigência de base da sua obra, são sobretudo os pensadores do Renascimento e da Idade Moderna que lhe importam verdadeiramente, pois tiveram uma visão mais clara e certeira da transversalidade do saber, tendo sabido conciliar a vertente filosófica do seu pensamento com os grandes avanços científicos da sua época. A tradição de que Bento de Jesus Caraça se reclama, na óptica de João Oliveira Duarte, é também de carácter político: assenta sobretudo na perspectiva marxista de uma «cultura revolucionária (…) com essa ideia de que a emancipação deve ser feita pela própria classe operária» (p. 157). Segundo o autor, esta convicção de cariz político apresenta-se simbolicamente  quando o cientista opta – e, nessa medida, a sua escolha não é neutra, embora esta tese possa suscitar algumas reservas pela parte dos investigadores, sobretudo historiadores – pela tradução da tragédia grega de Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, entre as demais tragédias. É justamente nesta parte que a figura de Prometeu é escrutinada, procurando o autor mostrar como ela concentra em si uma potencialidade revolucionária elevada ao seu mais elevado grau. Se esse foi ou não o intento de Bento de Jesus Caraça, faz todo o sentido pensar nessa hipótese levantada pelo autor, onde se vislumbra a possibilidade de uma comunidade mais livre e justa, possuidora de uma arma mortífera contra o obscurantismo: o conhecimento. A Cosmos traz em si esse sonho, o do rearranjo do mundo contra o inferno da história.

 

Texto publicado no JL, mês de Dezembro de 2017

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