“Nó”, de Daniel Jonas

Como o disse o próprio poeta, na entrevista a António Guerreiro, o poeta tem na linguagem as suas “pastagens” (parafraseando o próprio), no modo como a consciência histórica se apresenta na linguagem e no trabalho poético em particular. Ainda que exista no mundo como sujeito empírico e concreto, ele não é, no entanto, circunscrito pela sua época. Daí que a sua condição possa, antes, ser definida pela sua transversalidade dos tempos, assumindo a sua oficina como palco da história e movendo-se com agilidade entre os clássicos e a mitologia. Como ele próprio o afirma: “Mas para não fugir radicalmente à minha autodescrição, poderia dizer que me sinto tão contemporâneo de Ossip Mandelstam como de Yeats, de Cinatti como de Ungaretti, ou seja, as leituras e as pátrias mentais e cronológicas são tão diversas que não é simplesmente possível fazer esse género de cartografia, isto para me ater somente à influência estrita de poetas. Sou é bastante mimético. Uma leitura pode despoletar em mim uma transmigração imediata. É um motor de arranque bastante eficaz.” (idem). Essa matriz linguística e retórica e a sua riqueza estilística é também um elemento que o distingue claramente da poesia mais jovem, algo que já se encontrava presente em Sonótono.
Os temas de que nos fala Daniel Jonas neste livro são Deus (evoca-o no primeiro poema, mas reaparece em vários), a morte, o tempo, a vida, entre outros temas. Tal como na sua obra anterior, Passageiro Frequente, Daniel Jonas retoma o mito bíblico de Jonas e da baleia. É no primeiro poema de que o poeta diz: “Do ventre da baleia ergui meu grito:/ Senhor! (dizer teu nome só é bom),/ Em fé, em fé o digo, mesmo com/ Um coração pesado e contrito/ Que és de tudo verdade e não mito,/ O coração do amor, de todo o dom (…)” (p. 9). Essa alusão ao mito constitui um jogo com o seu próprio apelido e um modo de sobrepor a sua experiência empírica ao episódio mítico, encenando uma forma subtil de recusa do discurso poético na primeira pessoa e transformando-o em discurso universal. A condição do poeta é aqui tomada como condição humana por excelência: “E toda a luz aqui me falhe/ és grito/ Que chama toda a chama de esperança/ E acorda a luz que resta à réstia eterna (…)”. Se Jonas grita, dizendo o nome de Deus, é porque ele anima a vida, mas também porque acende a chama da linguagem e dá sentido às coisas. Se Jonas vive a experiência da morte e da perda do sentido, é-lhe, no entanto, concedida a vida por Deus, de novo. Como um dom, certamente o da linguagem, a resgatar a experiência humana.
Quando falamos de lirismo, no caso específico deste autor, convém lembrar a suspeita de Daniel Jonas relativamente à tradição lírica actual, pouco trabalhada ou, por outras palavras, pouco vigiada, bem vincada numa entrevista que deu a António Guerreiro, aquando da saída de Passageiro Frequente. Por essa razão, a ironia poética aparece na sua obra como um antídoto, face a esse mesmo lirismo e também como um modo de distanciamento, de reflexão sobre o fenómeno poético, capaz de fazer vacilar a linguagem e os cânones da crítica.

Excerto de um texto crítico a publicar brevemente sobre o livro.

Maria João Cantinho

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