O Prazer da Invenção: uma conversa com Nuno Júdice

  Por Maria João Cantinho (Entrevista realizada para a ZUNÁI – Revista de poesia & debates em 2003)

Nuno Júdice nasceu na Mexilhoeira Grande (Portugal), em 1949. Poeta, ficcionista e professor universitário, com inúmeros ensaios publicados, tem uma obra vasta e diversificada. É atualmente professor da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou (1989), apresentando uma dissertação sobre Literatura Medieval.

Exerceu ainda as funções de conselheiro cultural da Embaixada de Portugal e de director do Instituto Camões em Paris. É nessa época que também se inicia a tradução da sua obra em França, pela mão do editor e tradutor Michel Chandeigne. Tem, também, a sua obra traduzida em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e França. No Brasil, tem obra publicada sob a chancela da editora Escrituras.

Divulgador da Literatura Portuguesa do século XX, publicou em França Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise (1993), reeditado e revisto na edição portuguesa Viagem por Um Século de Literatura (1997). Colaborou em acções de divulgação cultural, como as Letras Francesas (1989), com uma apresentação de autores franceses contemporâneos, e organizou a Semana Européia da Poesia, no âmbito da Lisboa 94 – Capital Européia da Cultura.

Poeta e ficcionista, publicou o primeiro livro de poesia em 1972, A Noção de Poema (Publicações Dom Quixote). Recebeu importantes prêmios da poesia portuguesa: o Prêmio Pen Clube (1985), Prêmio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus (1990), Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores (1994), este último com o livro Meditação Sobre Ruínas, que foi também finalista do Prêmio Europeu de Literatura Aristeion. Recebeu também o Prêmio Fernando Namora da Sociedade Estoril Sol com o romance O anjo da tempestade. Publicou diversos estudos sobre Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, antologias, edições críticas, e tem uma colaboração regular em jornais e revistas como cronista. Como dramaturgo, produziu obras para teatro e traduziu autores como Corneille, Shakespeare e Emily Dickinson.

Foi diretor da revista literária Tabacaria, editada pela Casa Fernando Pessoa, e comissário para a área da Literatura da representação portuguesa à 49ª Feira do Livro de Frankfurt. Com o seu último livro de poesia, As coisas mais simples, acaba de receber o Prêmio António Ramos Rosa.

 

Zunái – Uma das coisas que mais me impressionam na sua obra é, além da grande qualidade que lhe assiste, é a sua vastidão, o que faz de si um dos casos raros na literatura portuguesa. Com uma atividade intensa, como consegue conciliar a vida com a escrita?

Nuno Júdice – Sem vida não haveria escrita. Mas essa conciliação decorre de uma disciplina que me obriga, diariamente ou quase, a escrever. E também a ler, embora essa leitura seja quase sempre uma releitura dos autores que me acompanham desde sempre, e que estão ao meu lado na estante: Herberto, Ruy Belo, Jorge de Sena, Drummond, Vinicius, Rilke, Ashberry, Eliot. e os que vou descobrindo, sobretudo da poesia anglo-americana, que é aquela de que me sinto mais próximo, depois da portuguesa. O último foi Robert Nye, com um poema delicioso publicado no TLS de 21 de dezembro sobre o milagre de Canaã.

Quanto à conciliação com outras actividades, neste momento o que me empenha sobretudo é o ensino, e gosto de o fazer porque é complementar da minha criação, embora o contrário também pudesse ser verdade. Podia dizer que isto me obriga a uma reduzida vida chamada social, a participações em atos culturais ou literários que todos os dias têm lugar nesta cidade de Lisboa, mas devo dizer, por outro lado, que ainda bem que assim é, o que me mantém afastado dos faits divers desse quotidiano que é, quase sempre, muito empobrecedor da criatividade.

Zunái – Sei que é muito metódico na sua escrita, creio que falámos nisso um dia. Mas qual a função da inspiração, para si? Ela tem muita importância ou considera-se mais um artesão?

NJ – A inspiração é a parte menor da criação. O poema nasce em geral de um objeto, uma memória, uma imagem – e é a partir daí que a sua construção vai sendo desenvolvida. Pode ser um quadro ou uma escultura, como pode ser uma fotografia, ou uma simples cena do quotidiano. No entanto, é a palavra que vai guiar a escrita poética; e por palavra entendo também o lado fônico, sonoro, que obriga à procura de um ritmo e de uma respiração que vão buscar à música as suas regras. Mas também não me considero um artesão dado que não preciso de trabalhar demasiado o objeto poético: o poema nasce praticamente já acabado, e se há um trabalho ele dá-se na cabeça, antes de passar à página o texto.

Zunái – Fala nesse empobrecimento da atividade criadora, quando o poeta vive mergulhado no quotidiano. Mas a sua vida, em grande parte, foi dedicada a uma atividade cultural e social que o retirava a esse espaço silencioso. Lembro-me da sua estadia em Paris, por exemplo. Como conseguiu sobreviver a isso?

NJ – Não creio que se possa falar de um quotidiano pobre quando existe uma dimensão poética da vida que o procura transformar em matéria poética – e muito menos quando esse quotidiano decorre em Paris, onde existe uma presença constante da arte – do teatro à música, às exposições, à própria arquitetura da cidade. Mas é também no lado menos «nobre» ou elevado desse quotidiano que, muitas vezes, o poema vai buscar a sua fonte: os pobres, as cenas de café ou do amanhecer de uma cidade, a solidão, tudo vão ao encontro dessa procura de uma realidade capaz de encontrar na linguagem poética uma transfiguração que talvez não lhe retire a tragédia, mas que lhe poderá acrescentar uma imagem coleciva.

Zunái – A sua estadia em Paris e o contacto com o meio literário francês contribuiu largamente para a sua divulgação fora de Portugal. Pode-se afirmar que o Nuno Júdice é dos primeiros casos de autores portugueses a ser conhecidos em Paris ou, quando chegou, já havia o trabalho de Chandeigne e de Vital, na edição de obras portuguesas?

NJ – Havia já algum trabalho de tradução mas sobretudo no plano da ficção. O que mudou radicalmente o panorama do conhecimento da poesia portuguesa em França foi a descoberta da importância de Fernando Pessoa que teve lugar a partir da década de 1980. Pessoa estava traduzido desde os anos cinquenta, mas a verdade é que lhe faltava um reconhecimento canônico. Lembro-me de ter visitado a casa-museu de Aragon, nos arredores de Paris, onde está a sua biblioteca: e o volume de poemas de Pessoa estava incólume, nem fora aberto. O que sucedeu com a minha poesia foi ter tido a sorte de encontrar um excelente tradutor e amigo, o Michel Chandeigne, e a colecção Poésie/Gallimard ter aceite a proposta de editar Um canto na espessura do tempo e Meditação sobre ruínas. Sendo uma colecção de referência no mundo, foi a partir daí que a minha poesia chegou a países como a Turquia, a Albânia, Israel, Vietnã, Bulgária etc. Fui o primeira poeta vivo a ser publicado nessa colecção (em língua portuguesa havia apenas o Pessoa); depois de mim foram publicados Eugénio de Andrade e António Ramos Rosa, para além de uma excelente antologia da poesia portuguesa feita pelo Michel Chandeigne. Terá sido a boa recepção do meu livro que abriu o campo para essa continuidade, dado que a primeira edição de quatro mil exemplares esgotou, e saiu uma segunda, o que em França – e sobretudo para a poesia – é um caso raro.

Zunái – Tem obra traduzida em vários países, o que eu considero um privilégio. O que acha que falta à obra de poetas portugueses (como sabemos, alguns de extraordinária qualidade) para que possam chegar a outras línguas, a outros países? Uma política acertada, uma vontade de conhecer a poesia portuguesa?

NJ – Falta hoje, sem dúvida, essa política. Uma das áreas em que Portugal pode afirmar a sua diferença, originalidade e qualidade em relação a outras culturas, é a poesia; e, do ponto de vista de orçamento, o apoio a viagens e edição é ridículo, se compararmos com a música, o teatro, a pintura etc. O problema, por outro lado, é que essa divulgação passa também pela personalidade dos poetas e pela sua capacidade de encontrarem os canais próprios para a sua comunicação. Não havendo agentes literários para a poesia, o poeta – e a sua obra – é o grande agente de si próprio. Foi isso que aconteceu com a minha poesia: foi através de leituras em encontros internacionais, e em festivais importantes como o de Roterdão, o de Durban ou o de Medellin, que tradutores e editores se interessaram em publicá-la. Essa capacidade de comunicação talvez falte a alguns poetas; os outros, será a dificuldade em traduzir a especificidade da sua linguagem. A minha poesia, sem abdicar de uma exigência formal que sempre mantive, fala de temas universais que interessam a qualquer leitor.

Zunái – Num poema do seu último livro, As coisas mais simples, diz: “Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que/crescem depressa, como os ciprestes, ou as/que se enrolam a tudo o que aparece nos muros (.)”. É um regresso? Sente que algo mudou no seu olhar?

NJ –  Há aqui sem dúvida uma referência aos grandes temas da literatura – a morte, a vida, o amor, o sagrado – que percorrem toda a minha poesia; e a constatação de que há outras coisas para além deles, que se encontram nestes pequenos aspectos da natureza ou do quotidiano. Não substituo umas coisas por outras: tudo tem o seu tempo e a sua atualidade para quem escreve; mas há uma opção por me debruçar, neste momento, sobre o que se poderia considerar o efémero, seja do mundo humano seja do espaço natural e cósmico, para descobrir uma lógica que sobrevive à queda e ao fim a que estamos condenados. Não o faço, no entanto, com uma simpatia melancólica, mas com esse «desejo de durar» que encontrei algures num livro e que faz parte da nossa essência, contrariando as pulsões negativas que nos empurram para o seu oposto.

Zunái – Curioso quando diz que existem os grandes temas da literatura. Refere-se aos grandes temas clássicos. Acha que essa afirmação é válida para os jovens poetas atuais que se afastam desses temas “duráveis”?

NJ – Se eles se afastam, afastam-se também daquilo que é a grande poesia, e estão condenados a essa mediocridade que os irá engolir. Devo dizer que é o grande problema de alguns desses jovens poetas: a incapacidade de encontrarem uma referência que possa funcionar como um terreno fértil para a sua linguagem. Sem isso, os poemas podem ser bem feitos, limpinhos do ponto de vista técnico, mas falta-lhes a alma e, sem isso, o que é durável na poesia, que é a capacidade de comunicar um ser que, em dado momento, sentiu e pensou uma relação com a vida e o real de um dado momento. Admito que não tenham essa ambição: ninguém é obrigado nem a ter alma nem a ter ambição. Mas não pode exigir grande coisa depois dessa abdicação.

Zunái – A maior parte desses jovens poetas segue uma poética dos anos 70. Refiro-me nomeadamente ao caso de Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge que começaram a publicar na mesma geração. Como foi essa época turbulenta, atravessada por uma poesia altamente comprometida politicamente? Como era possível resistir?

NJ – A poesia sobrevive de forma natural porque não está tão dependente da edição e do grande público como sucede com o romance. Os poetas que começam a publicar nos anos 70, como foi o meu caso, o do Joaquim Manuel Magalhães e o do João Miguel Fernandes Jorge, tinham um horizonte cosmopolita e uma abertura para zonas de interesse que iam além das fronteiras portuguesas – e falo das fronteiras políticas e culturais dessa época de ditadura. Curiosamente, isso permitia uma escrita mais livre e plena do que se tivéssemos sido condicionados por essa situação. Foi, por outro lado, um período de descoberta dos grandes caminhos de compreensão da própria linguagem poética: as novas teorias da literatura, a relação com a música e o cinema, ou a pintura, foram possibilidades inovadoras que permitiram que a mudança de linguagem, de formas e de temas se desse e um modo revolucionário, na linha do que um Herberto Helder, um Ruy Belo e um Jorge de Sena tinham iniciado na década de sessenta.

Zunái – Sente que o 25 de Abril e os anos que se seguiram a essa época vieram destruir a grande qualidade da poesia que se havia feito anteriormente?

NJ – Não falarei em destruição, dado que esse pós-25 de Abril não foi um deserto poético. Houve uma necessidade de adaptação às novas condições da criação, libertas já de imposições não tanto exteriores como interiores de censura; e não foi fácil ir ao encontro de uma poética em que a verdade e a exigência do ser se manifestassem abertamente. Um Al Berto terá sido o primeiro a consegui-lo plenamente. O que sucede é que não voltou a haver um sentido de «geração» – por muito discutível que a palavra seja – como sucedeu na poesia portuguesa até aos anos 60 e 70. As afirmações de poéticas são sobretudo individuais e individualistas, o que torna mais difícil uma proposta consequente de compreensão de uma emergência de novas poéticas. Por outro lado, fenômenos de tribalismo e de seita vêm complicar o êxito dessa compreensão, sendo irrisório o que se tem passado com a crítica de poesia nos últimos anos num jornal como o «Expresso», onde a venda de banha da cobra tem livre curso sem qualquer pudor.

Zunái – Na verdade, os jornais e revistas portugueses dão grande espaço à crítica da ficção. Nalguns casos, até, bastante duvidosa do ponto de vista da qualidade. Porém, nota-se uma quase ausência da crítica da poesia nos mídia portugueses. Concorda? E que razões podem ser encontradas para tal?

NJ – Há uma boa crítica de poesia na revista Relâmpago, e em publicações universitárias, para os happy few. É verdade que nos jornais praticamente desapareceu – tal como a crítica de ficção portuguesa: os romances recenseados, na sua esmagadora maioria, são traduções, e são quase sempre obras de nível muito menor as que são apresentadas, sobretudo quando se trata de americanos, como obras-primas absolutas. A crítica dominante está de cócoras perante a banalidade. As razões vêm do comércio em que a edição literária se transformou, e que privilegia a publicidade mais do que a compreensão. O que é interessante é que os critérios que servem para levar aos píncaros romances feitos na base do best-seller quando feitos na língua não de Shakespeare mas dos bas-fonds de Soho são os mesmos que servem para arrasar o mesmo produto quando traz a marca nacional. Já disse na altura devida o que tinha a dizer sobre o assunto, e devo dizer que o repito porque já não tenho condição, como diria o Jô Soares, para ter medo de ninguém.

Zunái – Para mim, o Nuno Júdice é, antes de tudo, um poeta. Qual é a sua opinião, enquanto leitor de poesia, do que se faz de melhor em poesia, quer em Portugal, quer na Europa?

NJ – Ultimamente tenho relido mais do lido, o que pode já conduzir a uma resposta. Julgo que hoje a poesia mais interessante vem da América Latina – de países como a Argentina, onde um Diário de poesia é uma referência fundamental na teoria e crítica poéticas, para além das traduções que publica, a Colômbia (Piedad Bonnet), a Venezuela (Eugénio Montejo) – da China, da língua árabe (posso referir Adonis), de países da zona ex-soviética, onde ainda recentemente descobri alguns notáveis poetas georgianos. Na Europa, sigo o que se vai publicando em Espanha, na Irlanda e na Inglaterra, onde me parece que vão surgindo linguagens novas e de qualidade. Em Portugal, se essa qualidade também existe, não há vozes emergentes com o sinal de uma ruptura e de uma inovação em relação a poéticas anteriores. No entanto, os princípios de século são sempre períodos complicados, como podemos ver no princípio do século XIX e do século XX. Pode ser que a segunda década deste século XXI nos traga outro Orpheu.

Zunái –  Sente-se tão à-vontade na poesia como na ficção e no teatro? O trabalho, no seu ritmo e na sua respiração, pede-lhe o mesmo?

NJ – São trabalhos diferentes, e que exigem disposições diversas. Claro que a poesia é o meu elemento natural; mas a ficção tem-se vindo a impor como uma outra forma de expressão em que encontro um outro universo, que é da minha memória, onde vou buscar os materiais que me permitem construir um retrato do país em que nasci, e dos tempos diversos que fui vivendo nas décadas que vão do fim da ditadura à democracia. Mas é também a sua história que me interessa, e alguns romances vão buscar a esse passado o horizonte necessário para construir uma ficção. No entanto, não enveredo nunca por uma ficção histórica, académica; é sobretudo o presente, o mundo actual, contemporâneo, que me interessa olhar e compreender.

Zunái – Li com atenção O anjo da tempestade, que me fascinou. Em parte, é um livro em que volta ao passado, mas a estrutura da obra é absolutamente espiralada, diria barroca, quase. Desassossega, faz o leitor saltar para espaços/tempos completamente diferentes, em nada segue a ficção histórica clássica. A todos os títulos, a técnica narrativa é original. Deu-lhe prazer esse jogo com o leitor? Diverte-se enquanto escreve? Ou gosta apenas de contar uma história?

NJ – Este jogo começou com um livro de que gosto muito, que é Por todos os séculos, e continuou com O enigma de Salomé. É uma vertigem de épocas e de personagens que saltam de um contexto para outro, do passado para o presente, num movimento que vai ao encontro do que aprendi com a ficção científica e as máquinas do tempo, embora estes livros nada tenham a ver com esse género. O que me interessa é transportar-me para o contacto com situações e sentimentos vividos em séculos anteriores, e que procuro recriar numa actualidade que lhes dá outra leitura e outra compreensão. É isso que me diverte – e se não me divertisse não teria escrito esses livros, dado que para mim a escrita é acima de tudo o prazer da invenção.

 

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