Os nomes de deus

Eu era Hamlet. Estava à beira-mar e falava, com a ressaca, na língua do blablablá. Atrás de mim, as ruínas da Europa.

Heiner Müller

 

Nos poemas, dir-me-ás,

poeta de mãos melífluas e cigarro cansado,

pode ainda escrever-se o nome de deus

esse hieróglifo sujo de sangue

 

ainda me citas o outro ,

enquanto vazas o copo

e as notícias passam na TV

voltaste as costas para as imagens

 

nem Platão o diria melhor

ao falar desse modo de estar

humano, avesso à verdade

seja por conforto ou vontade de ignorar

 

a beleza já não mora aqui

romântica e apaixonada pela morte,

os poetas, observo, olhando para ti,

tornaram-se obesos

e isso seria o menos grave

não fosse a obesidade uma metáfora.

 

E tudo não passa de blábláblá

Atrás de ti não há deuses nem poemas

escrevem-se apenas os caminhos da morte,

sim, já não há vencedores

apenas vencidos

 

mas tu não vês,

estás de costas voltadas

e falas dos nomes de deus.
In “Do Ínfimo”

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