Do Ofício Poético como Alquimia

O poeta António Gedeão desapareceu há vinte anos. A sua última obra foi Memórias, uma magistral biografia, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.


Rómulo de Carvalho atravessou o século XX. Nascido no ano de 1906, o poeta conheceu uma vida discreta, longe dos salões literários, que nunca o atraíram. Foi, durante toda a sua vida, professor do ensino secundário, a maior parte da sua vida em Lisboa. Comunicador brilhante, foi no ensino que encontrou a sua paixão, tendo sido igualmente historiador, escritor, fotógrafo, pedagogo, pintor e ilustrador, revelando-se um espírito incansável e talentoso, protagonizando um verdadeiro espírito renascentista, abraçando um verdadeiro ideal humanista. A par da sua dedicação pelo saber, a que se dedicava com o rigor que lhe era exigido pela ciência, cultivava um estilo de vida frugal e simples, despojado.

Memórias é uma obra imensa, intimista, mas sem descambar nunca em sentimentalismo, escrita por um metódico Rómulo de Carvalho, onde ecoa a voz do seu espírito humanista, e que reflecte sobre os acontecimentos históricos, sociais e políticos que percorreram o século XX. Começa por relembrar a sua vida, durante a infância e a adolescência, e relata com minúcia esse tempo. Trata-se de uma descrição emocionada do tempo, dos factos históricos e das pessoas que marcaram o seu percurso. Todavia, o que interessa ressaltar é a sua visão lúcida e céptica, marcada por uma ironia subtil. É notória a tolerância do seu olhar e da sua reflexão, face às grandes mudanças ocorridas, tomando a suspensão do juízo como constante (e científica) precaução. O ritmo da sua escrita é fluído e claro, onde se reconhece a escrita poética do autor, correspondendo aos últimos 12 anos da sua vida. Só largos meses após a sua morte, nomeadamente em Fevereiro de 1997, é que os familiares de Rómulo de Carvalho descobriram este vastíssimo espólio autobiográfico, ainda redigido à mão e dedicado aos tetranetos. Foi esse milhar e meio de páginas manuscritas que acabou por se converter nesta obra de 557 páginas. As últimas 57 são documentos biográficos, fotografias, fotocópias de páginas manuscritas, etc.

A introdução anuncia que o volume é dedicado aos “netos dos meus netos”, tendo sido iniciada a sua redacção, logo após a saída do hospital, onde o autor havia sido submetido a uma complexa intervenção cirúrgica. É à maneira de um testemunho preciso e sereno, legando aos seus netos e descendentes as suas memórias.

A sua figura multifacetada e de visão profundamente humanista dá-nos a ver, mais do que um autor de grande riqueza científica e literária, um homem que vive o século XX, no seu início (e são extraordinárias as descrições rigorosas que nos faz do modo como se vivia em Portugal nessa época, quando ainda reinava D. Carlos), mas que irá acompanhando o desabar das grandes ideologias ao longo do século, a queda das falsas certezas que o século XIX impusera, com as suas narrativas. Trata-se, porém, de um olhar distanciado, relativamente aos países europeus e ao resto do mundo, algo que, embora nos pareça estranho actualmente, era compreensível no tempo de Rómulo, dado o nosso isolamento político e cultural.

Nascido numa família de médios recursos, que habitava em Lisboa, filho de um funcionário público, Rómulo cresceu em Lisboa, beneficiando de um ambiente cultural propício à sua curiosidade intelectual. Além da vocação da escrita e da poesia, o autor revelava talento nas áreas artísticas da música e do teatro. É sobretudo através da sua mãe que lhe deu a conhecer Camões, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Cesário, o seu autor preferido, que Rómulo de Carvalho descobre o gosto pela leitura. Descobre também As mil e uma noites, que viria a tornar-se uma das suas obras recorrentes. Criança precoce (aos cinco anos já sabe ler e escrever), escreve os primeiros poemas aos cinco anos e resolve completar os Lusíadas aos dez. A entrada no Liceu Gil Vicente fá-lo descobrir o amor pelas ciências, o que se torna predominante nele. E é essa vertente pragmática e o gosto pelas ciências, a par de uma escolha de vida mais estável, que o impulsiona para uma carreira científica e, nomeadamente, para a docência da físico-química, profissão que manteve durante toda a sua vida. Além de professor, Rómulo de Carvalho dedicar-se-á à escrita e à divulgação da ciência, tanto dos manuais que serão ensinados nos liceus, durante décadas, como de muitas outras obras. Alargará a divulgação científica a um público mais alargado, a partir de 1952, em pequenas colecções, como a “Ciência para gente nova” e a “Física para o povo”, cujas edições, que se estendem até meados dos anos 70, revelam a sua paixão enquanto comunicador. Entretanto, no silêncio das horas mortas, escreve poesia, que vai guardando e não publica, pensando que ela não possui qualidade.

É apenas em 1956, aquando de um concurso de poesia, após ter participado nele, que ganha alento para publicar o seu primeiro livro de poesia, “Movimento Perpétuo”, sob o pseudónimo de António Gedeão. E é então, encorajado pela crítica, que nasce o poeta. Avessa a todos os movimentos poéticos da sua época, a obra de Gedeão resiste às classificações e aos enquadramentos críticos vigentes. Sobre ele escreveram Jacinto do Prado Coelho, Urbano Tavares Rodrigues, Natália Nunes, João Gaspar Simões, Óscar Lopes, entre outros. É o próprio Rómulo de Carvalho que nos relata, com surpresa, o excelente acolhimento que teve (p. 419).

Os seus poemas, construções cintilantes e profundamente melódicas, são rapidamente convertidos em canções magníficas e tocantes, como o poema musicado por Manuel Freire, “A Pedra Filosofal”, que se transforma num hino à esperança e ao sonho. Ou, ainda, em 1972, quando José Niza compõe o álbum “Fala do Homem Nascido”. Numa perfeita simbiose entre o sonho, a vida, a poesia e a esperança, os poemas de Gedeão extravasam o elemento meramente formal, para nos tocar com o que de mais belo e sublime há no humano. Por essa razão, também os valores que na poética de Gedeão se expressam, tocam irremediavelmente uma geração dilacerada pelas experiências da guerra colonial e da ditadura fascista. É fácil compreender porque Gedeão, tão rapidamente, se transforma na “voz inspiradora” de uma geração inconformada e desejosa de criar uma nova ordem de valores, que dignifiquem a experiência humana e a sua existência.

Se o 25 de Abril se configurou como o clímax da esperança do povo português na nova ordem de valores (políticos, sociais, culturais, etc.), por outro lado houve o desencanto motivado pela desorganização e pelos excessos de liberdade, essa mesma liberdade que se tinha convertido no foco simbólico da sua esperança. E Rómulo de Carvalho, que viveu a esperança dessa época, compreende com dificuldade a falta de organização das escolas e das instituições, levando-o a reformar-se, ao fim de 40 anos de ensino. A partir desse momento dedica-se apenas à escrita e à investigação científica.

Com oitenta e nove anos, Rómulo de Carvalho foi homenageado por várias personalidades, nas mais variadas áreas, que incluíam as ciências, as artes, as letras e a música. Personagem multifacetada e brilhante, como raros homens do seu século, reservado e avesso ao brilho dos salões literários e citadinos, é reconhecido a nível nacional durante um ano de efemérides que lhe são dedicadas. Nas suas Memórias, Rómulo fala longamente da sua vida quotidiana, das dificuldades que conheceu, ao longo da sua carreira, mas raramente das distinções que obteve, o que refere de forma sumária nas últimas páginas. As suas palavras são bem expressivas, a este respeito: “E agora, meus queridos tetranetos, aqui para nós que ninguém nos ouve, achei demasiadas tantas homenagens. Não me lembro de nenhum caso como este. Foi talvez único. Eu imagino como os meus colegas de letras, das poesias e das prosas, terão franzido o sobrolho à medida que foram tendo notícia dos acontecimentos. Mas que é isto? A surpresa deles teria sido igual à minha. Acho sinceramente que foi demais(p. 497)”.

Da doença, que o levará com 90 anos de idade, fala-nos no último capítulo, “Adeus”, deixando em branco o espaço que corresponde à data da sua morte, espaço esse que foi preenchido pela sua companheira Natália Nunes. Neste capítulo despede-se, de forma muito tocante, aos netos e tetranetos, num “longo adeus com os olhos tristes” (p. 498). Mas se o olhar da despedida é irreversível, não o é menos rigoroso nem menos lúcido, características que o acompanharam até ao fim. O resto, salvemo-lo na memória, os belos e inesquecíveis versos que, para sempre, nos legou. Foi o sonho que lhe abriu as portas da eternidade.

Texto publicado na Revista Caliban

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