Que das cinzas renasça o vivo

Maria Filomena Molder

Molder, Maria Filomena, O Químico e o Alquimista, Benjamin, Leitor de Baudelaire, Relógio d’água, Lisboa, 2011.

É de saudar a publicação desta obra de Maria Filomena Molder, por várias razões. Era notada a ausência de uma publicação consagrada ao pensamento benjaminiano, que tomasse o seu objecto entre mãos, de forma tão rigorosa e completa como o faz a autora, que tem dedicado a Walter Benjamin uma atenção dedicada e incansável, ao longo da sua vida. Já na sua obra Semear na Neve (Relógio d’água, 1999), Maria Filomena Molder consagrava uma parte da mesma ao comentário e interpretação de Walter Benjamin. Vários textos que foram publicados avulsamente, na “Colóquio-Artes”, em revistas académicas como Crítica, entre outras, foram dando resposta ao seu desejo de se demorar sobre a obra de Walter Benjamin. O Químico e o Alquimista é um livro que consubstancia esse desejo e o resultado é notável, na sua escrita sóbria e avessa ao cliché a que a autora já nos habituou. Embora o subtítulo seja Benjamin, leitor de Baudelaire, o alcance do livro é bem mais vasto. A leitura benjaminiana de Baudelaire aparece só na segunda parte. Mas é certo, Maria Filomena Molder sabe-o muito bem e mostra-nos de várias formas, que Baudelaire acompanhou sempre Walter Benjamin, que o traduziu, e é uma irradiação que emana da sua actividade de crítico (Benjamin nunca se pretendeu filósofo, mas sim e sempre crítico). Daí o sentido do título da obra de Maria Filomena Molder, remetendo, desde logo, o nosso olhar para essa dimensão do pensamento benjaminiano. É precisamente a partir do conceito de crítica para Benjamin, tal como era tomado pelo Primeiro Romantismo, em Friedrich Schlegel e Novalis, que deve ser compreendido o pensamento do autor. O texto de Benjamin Sobre As Afinidades Electivas é precioso para compreendermos esse pressuposto. Se o comentador é aquele que se detém no teor material da obra, o crítico é o que procura o teor de verdade da obra de arte (p. 68). O comentador é o químico, uma “espécie de analista, decompõe um texto, no qual o crítico tenta reconhecer a vida” (p. 69). Neste sentido, o alquimista ou o crítico é aquele que procura compreender e aceder à vida íntima da obra, procurando o seu teor de verdade, mas também, à maneira do Primeiro Romantismo, aceder às condições da sua criticabilidade, que a obra traz em si como um princípio formal. Para levar a cabo a análise crítica da obra (pp. 70, 71), há que destruir a unidade aparente da obra e a empatia que ela nos provoca. Esse é o perigo que corre o químico (o comentador), já que se deixa prender aos seus aspectos perecíveis e não lhe é permitido o acesso a esse enigma que é o do ser vivo.

Sem percebermos o que é a actividade crítica para Walter Benjamin é quase impossível compreender o pensamento benjaminiano, nos seus temas essenciais e aqui abordados: a teoria da tradução, a leitura de Baudelaire, a função do pensamento filosófico, a análise do drama barroco (ou lutuoso) e da modernidade, à luz dessa obra colossal que é O Livro das Passagens e dos textos sobre Baudelaire.

Os primeiros temas que Maria Filomena Molder desenvolve, na primeira parte do livro, preparam-nos o acesso à segunda parte, que é a leitura crítica benjaminiana de Baudelaire, como “pedra-de-toque exemplar das teses de Benjamin” (p. 106). Guiando-nos com mão segura através de um périplo cujos caminhos não são seguramente os mais fáceis, parte da análise de algumas passagens de O Livro das Passagens, tomando-as como “fios condutores da leitura benjaminiana de Baudelaire” (p. 111). O seu fito é, através destas categorias que nos vai apresentando, mostrar-nos como Benjamin compreendeu tão clara e profundamente a emergência da modernidade a partir da obra de Baudelaire, em toda a sua decadência e redenção. Por isso, a autora analisa o conceito de Spleen, com as suas figuras típicas do flâneur, da prostituta, do jogador, etc., para nos mostrar o que de essencial marca a desfiguração da experiência autêntica e da tradição [Erfahrung], e a sua transformação na experiência do choque, a vivência [Erlebnis] do “choque que nasce da novidade difícil de absorver e para o qual se procuram boas armaduras” (p. 211), bem como a figura de Baudelaire enquanto crítico feroz do progresso e do ecletismo, nos textos de “Salon de 1846”. Todas estas razões fazem deste livro uma obra imprescindível para os estudiosos e amantes do pensamento de Walter Benjamin.

Maria João Cantinho, Recensão publicada na revista “LER” do mês de Julho

Vejam também a excelente entrevista de Maria Filomena Moder, realizada por Anabela Pinto Ribeiro, aqui

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