Rui Costa: da reciclagem dos anjos

Rui Costa

Os anjos são recicláveis e a literatura

controla o tráfego aéreo. No porão do

pensamento acenamos à suavidade,

enquanto Deus é uma sala de fisioterapia.

Conservamos as fábricas de electricidade

em  níveis aceitáveis de educação sentimental.

Somos homens negros paridores da luz.

 

Rui Costa, Breve ensaio sobre a potência, 29, p. 30.

Rui Costa deixou-nos no início de 2012. Tinha 39 anos (nasceu em 1972), era poeta, advogado e investigador na área da saúde. Publicou 4 livros de poesia e um romance. O autor conquistou o Prémio Daniel Faria com a sua primeira obra de poesia, intitulada A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, editada em 2005, pela Quasi Edições e, dois anos depois, recebeu ainda outro prémio literário, com o seu romance A Resistência dos Materiais editado pela Exodus. Entrou assim pela porta grande da literatura portuguesa. Seguiram-se outros livros de poesia, como O Pequeno-almoço de Carla Bruni (Palavra Ibérica, edição bilingue espanhola, 2008), As Limitações do Amor são Infinitas (Sombra do Amor editora, 2009), Breve Ensaio sobre a Potência (Língua Morta, 2012), já publicado postumamente.

A sua morte trágica chocou-nos, deixando-nos perplexos. Talentoso e brilhante, repartindo-se entre a carreira da advocacia, a escrita e, posteriormente, a realizar um doutoramento na área da saúde, Rui Costa parecia mover-se com a mesma agilidade em todos estes campos. Quando observo as suas fotografias, vejo um belo rosto e uma luz que emana do seu olhar, mas onde também aflora uma insondável escuridão. Creio que o seu poema “Autobiografia” nos diz mais do que qualquer análise psicológica, que não é, aliás, o meu objectivo.

Uma das características mais marcantes da sua obra poética é a manutenção, ao longo dos 4 livros publicados, de uma coerência evidente, pautando-se por uma voz singular e notável. A linha de água que a atravessa é a de uma organização do discurso poético, desde o seu primeiro livro, em torno da presença constante de um excesso, que explode frequentemente, uma força vital que conforma os seus poemas e arrasta vertiginosamente o seu leitor. Parece-nos que é neste confronto com os limites da experiência e da linguagem que se tece a grande tensão da sua linguagem poética, a qual nos deixa precisamente num plano que transcende os limites de um sistema de aparência fechado, de uma realidade sempre em auto-superação. E tal remete-nos para um trabalho poético em torno da procura do sentimento do sublime (e não do belo, num sentido tematizado por Kant) que encontra as suas raízes em filósofos como Edmund Burke, Kant e, mais próximo de nós, Jean-François Lyotard.

A força/intensidade poética de Rui Costa advém-lhe precisamente desta procura da transcendência da razão, própria da transgressão dos limites, oscilando a sua poética entre uma extrema leveza da linguagem e uma espessura que lhe advém do excesso e contribuindo, por todas estas razões que explicitarei adiante, para uma poética construída, senão pelo oximoro, pelo paradoxo e pela intensidade metafórica, o que lhe confere uma tonalidade inequivocamente alegórica.

Logo no início do seu livro A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, o poeta diz, na p. 12, no poema “Não São Poemas”:

Não são poemas o que eu escrevo./São casas onde os pássaros esperam./Nas suas janelas coincide o mundo./Nos seus esteios resvalam gigantes./Algumas vezes ódio./Algumas vezes amor./Não são mortalhas incondicionais do medo../ O HÓSPEDE DA CASA NÃO/TEM O DEVER DE SER FELIZ!

Esta analogia entre o poema e o lugar habitável pelo poeta, o “hóspede” que “não tem o dever de ser feliz”, mas sim o “de fazer coincidir o mundo nas janelas das casas”, revela o que caracteriza o ofício da poesia, para o autor. Contraditório na sua essência, mas é nessa dobra da linguagem poética que se encontra concentrada a sua “verdade”, se é que legitimamente podemos falar dela, na poesia. E volta a afirmar o poeta: Não são poemas que eu escrevo./São espelhos onde os nossos rostos principiam. O poema reflecte a “verdade” do rosto, é “espelho”, com todas as conotações que o conceito implica. Uma tarefa urgente, sem dúvida, a do poeta, recusando o poema como “construção” ou “fingimento”, parafraseando o poema de Fernando Pessoa. E a verdade implícita do poema nasce da mais violenta contraposição, onde Rui Costa define os homens como “negros paridores da luz”[1], os que escavam a “luz subterrânea”, no magnífico poema “A Construção da Luz”[2].

Esses, os construtores da Luz ou os poetas, são os que “cavam por dentro do que somos”, remetendo para uma dimensão alucinatória e onírica, onde descortino uma familiaridade intensa com a poesia de Herberto Helder. Gosto particularmente deste poema, pela intensidade metafórica, por um lado, e também pelo aspecto programático que nele se deixa adivinhar, no desdobramento desse título. A condição da poesia, visceral e violenta, excessiva[3], apresenta-se logo no primeiro verso: “Toda a luz é subterrânea.” É no avesso do apolíneo e do diurno que se apresenta a tarefa do poeta, remetendo, desde logo, para uma dimensão profundamente alegórica (e sem concessões) da poesia. É nesta travessia da escuridão, caminhando cada vez mais fundo, atravessando os limiares (que aqui se apresentam na metáfora do túnel) que se descobre essa “luz”. Por isso, o poeta diz: “Continuo a escavar, os primeiros pilares/abatem. Estremecem na cabeça dos poemas(…)”. É neste trabalho de fragmentação dos limites, de fissura da aparência e da solidez (a metáfora do “abatimento dos pilares”) que assenta o modus operandi do poeta, para aceder a uma dimensão interior (do corpo, da terra), descendo sempre a uma dimensão subterrânea. No segundo verso de “A Construção da Luz”, diz o poeta numa clara intenção alegórica: “Escrevo sob a pele o seu peso”, transgredindo esse limiar, operando uma clara separação entre o visível e o invisível, entre o inteiro – do corpo e da pele, que confere a organicidade ao corpo – e o fragmento. A luz que rejubila, então, é a que nasce do “espasmo”, que pode ser o do prazer como o do sofrimento, a luz do “interior do chão”. E é essa que o traz feliz, nesse sentimento, que já não é da ordem da serenidade, mas antes do êxtase, do esmagamento e do excesso.

A proximidade deste universo poético com o de Paul Celan e, em particular, com o poema “Havia terra neles” é (pelo menos, para mim) evidente e remeteu-me imediatamente para o mesmo. Celan diz: “Havia terra neles, e/cavavam.//Cavavam e cavavam, assim passava/o seu dia, a sua noite. (…)”. Mas, se; em Celan, “se cava” para não chegar a lado nenhum e a alusão à morte é, aqui, terrível; no poema de Rui Costa, cava-se para construir a luz, tecida pela memória: “Quando a memória refaz o equilíbrio/já as primeiras gotas de suor cavalgam./O túnel é agora um espaço/aberto sob o ar, um túnel maior: o que seremos/cava por dentro do que somos.” Aqueles que cavam/poetas  são os construtores da luz, os que escavam o túnel que há de levá-los a um lugar onde a esperança, ainda que obscurecida, acena e chama. Porque a luz, para Rui Costa, é subterrânea. Ou, como ele o diz, no primeiro poema de Breve Ensaio para a Potência: “a luz é a metáfora do verbo,/a matéria escura. Ilumina/ as paredes de água, é como/um vidro com as imagens/do avesso. o animal furtivo/que instaura a violência,/a mãe ao redor do silêncio.” Este poema é enigmático, mas vai ao encontro da ideia anterior e permite-nos compreender de que luz é que nos fala o poeta, a “luz subterrânea”, aquela que é preciso escavar para ser encontrada, aquela que só a transgressão permite encontrar, num gesto de auto-superação. É “metáfora do verbo”, “matéria escura” e alquímica, que ilumina, a partir de dentro. É essa luz que nos permite ver a realidade, mas com as “imagens do avesso”. É preciso lê-las no segredo e na escuridão, de dentro (sublinho a condição), para que delas nasça algo, certamente o poema, o verbo esplendoroso. O poeta fala dela como “o animal furtivo”, aquele que se aproxima da sua presa pela calada da noite, instaurando a violência. Que violência? A da transfiguração alquímica do poema? A da linguagem? Ou a da luta entre os opostos, da qual nasce algo novo e remanescente, o poema? No fim da luta, porém, nasce o sossego, o silêncio, como o sentido máximo do poema, tão claro no último verso: “a mãe ao redor do silêncio”. Para que o silêncio do poema seja protegido?

Na poesia de Rui Costa existe uma ideia transversal e que é uma analogia clara entre o corpo visceral e a terra, como lugar de escuridão e de perda, interior, oculto, secreto. Aliás, a sua última obra, Breve Ensaio sobre a Potência, concentra-se sobre a vida vegetal e animal, e tal não acontece por acaso. Ocorre precisamente para que o olhar poético não se distraia com o humano, com a sua beleza aparente e ilusória. O mundo vegetal e animal deixa mais à vista as suas leis naturais e terríveis, os seus inevitáveis enleios com a corrosão e a passagem do tempo. A lei da predação, a ausência do afecto, os actos simples como respirar, alimentar-se, a subserviência à lei da morte, tudo isso que apenas se torna dramático quando aplicado ao homem. Tal olhar despojado permite uma leitura da potência, mas também a interpretação mais imediata dos poderes metamórficos da natureza, esses que tão claramente revelam a “subterrânea luz”. Porque a luz nasce de dentro, repito, da revelação, da dança dos seres, que manifestam a luz de forma epifânica. A “luz breve que irrompe dos mais negros flancos”[4], dos flancos da noite e das trevas, nasce como a frágil luz que inunda a paisagem arruinada e desolada, salvando-a da noite.

A utilização intensiva de certos lexemas na poética deste autor é fulcral para a compreensão do seu discurso poético, assim como a função estruturante que, nesse discurso, desempenha o poder metafórico, confinando com uma certa componente alucinatória e surreal, cuja expressão mais elevada se pode ler no último livro publicado: Breve Ensaio sobre a Potência. Aqui, o campo metafórico atinge os limites da transgressão do discurso poético, bem como afirma, mais do que em qualquer outro, a recusa do lirismo e a afirmação de uma visão dionisíaca do real. Para ele, a ilusão da beleza e do lirismo não é senão isso mesmo: uma imagem falsa. É por isso que o poeta diz, no seu poema “Eternidade”[5]: “A última frase é demasiado lírica para pertencer ao poema./É preciso retomar a calma, consagrar a vida/aos ossos. Desculpa.” A advertência está lá, num poema cujo título nos remete para a infinitude do tempo e para a sua transcendência. Mas que termina assim: “é preciso consagrar a vida aos ossos”. Adiantaria eu: “não há aqui lugar para o lirismo e para a beleza aparente e apolínea”. Não se trata de olhar para fora, deixar que a sedução nos arraste pela aparência da beleza, mas antes, numa outra tarefa, a de lembrar a morte, que se esconde no corpo, o tempo que o corrói, nessa metáfora tão explícita como é a dos “ossos”. E esta metáfora, expressão máxima do que é a fragmentação do humano, do orgânico, atinge uma potência inaudita, lembrando-nos a forma como o excesso consiste na iluminação desse limite supremo.

A eternidade é sublime por isso, não por corresponder a uma falsa ideia de transcendência pacificadora, mas sim porque a morte se redime nessa iluminação suprema, como exposição derradeira, excessiva, fragmentada e arruinada. E este é o segredo da alegoria: redimir a morte, “consagrar a vida aos ossos” para (re)descobrir o incêndio da vida que neles existiu. Não poderia deixar de aludir a um autor que aqui nos espreita, de forma inevitável, mesmo sem saber (ou querer saber se Rui Costa o terá lido) e que é Walter Benjamin. Como ele nos mostrou, é a alegoria[6] que nos permite, enquanto modus operandi, encontrar e alcançar significados profundos, assentando a sua criação num processo de diferimento dos mesmos e não na instantaneidade suposta do entendimento (que apenas nos permite alcançar o brilho da aparência e a sua ilusão). Esta forma de operar ganhou uma especial importância na compreensão das formas decantadas da Modernidade, em especial da poética baudelaireana. É no sentido em que a forma linguística se encontra associada ao excesso, em que a própria desfiguração do corpo e do orgânico se mostra, contribuindo para o desfazer de uma visão orgânica, que tem em vista o acesso a uma visceralidade, não apenas do corpo, como da própria escrita, que eu associo a poética de ambos, unida pelo elo alegórico. Mas esta desfiguração serve um propósito, não é gratuita, permitindo, como Walter Benjamin tão bem o demonstra, em diversas passagens da sua magistral obra A Origem do Drama Barroco Alemão, representar o que é irrepresentável e que é a própria essência do humano, na sua finitude, numa tentativa de salvar o que se encontra destinado à morte. Daí o sentido que irrompe no poema “Eternidade”, de Rui Costa. É preciso lembrar e salvar o que permanece, a beleza do inorgânico, redimindo-a para além de qualquer ordem do sistemático e da totalidade. E é dessa fragmentação levada à sua última instância, a dos ossos, que nasce a luz do poema e da própria vida, fixada para sempre. Aquilo que chega ao fim, nesta visão alegórica, é uma certa visão ou “imagem do corpo”, uma imagem avessa à ideia da carne[7]. A dimensão do alegórico surge, assim, associada a esta transgressão, à própria visceralidade e ao excesso. Creio que a direcção que Rui Costa imprimiu na sua última obra iria muito neste sentido, muito próxima (mas à sua maneira) da poética de Luís Miguel Nava.

Eles, os poetas, os que atravessam a escuridão, os inquietos homens, “negros paridores da luz”, são também os mágicos, os “xamãs foragidos da pele da cidade”[8], que fazem “renascer as/mãos na utopia, como que procurando um lugar habitável e, “neste mundo deus vai dançar”, como o diz de forma sublime o poeta, no seu poema 30, de Breve Ensaio sobre a Potência. Evocando a magia da voz que chama a si os espíritos sagrados, os poetas escavam, para encontrar a luz da utopia, essa que faz as “mãos renascer”, num mundo etéreo onde deus vai dançar. Essa metáfora extraordinária – e que relembra as mais belas passagens da obra de Nietzsche,  em Assim Falava Zaratustra -, que aparece no poema remete-nos para a leveza da criação poética, onde a dança se revela como a expressão esplendorosa da metamorfose da linguagem poética. Os “despidos do Futuro junto ao rio” são os que procuram, no instante do presente, a utopia nascente. O rio, junto do qual eles se detêm, é o rio do tempo puro e “a luz é da Tribo”, essa que traz em si o poder da transfiguração poética. É preciso descer ao espírito da terra, onde a “Grande Pedra escuta”. Nesse mundo, secreto e subterrâneo, apenas conhecido dos “xamãs foragidos”, é possível ainda dançar, na luz da linguagem poética. Essa que é pura e que se cruza com o instante.

Maria João Cantinho, “Prefácio” a uma homenagem a Rui Costa, no número de revista “Sulescrito”, dirigido por Fernando Esteves Pinto, nº 4, Tão Nome de Tudo, Faro, 2013.

[1] Breve Ensaio sobre a Potência, p. 30: “Somos homens negros paridores da luz”.
[2] Nuvem Prateada das Pessoas Graves, p. 31.

[3] No sentido em que o autor como Omar Calabrese, define, in A Idade Neobarroca, edições 70, Lisboa, 1988. Na página 63, define assim “excesso”, partindo do conceito latino: “E ainda mais clara é a imagem do excesso: do latim ex-cedere, «ir para lá de», o excesso manifesta a ultrapassagem de um limite visto como caminho de saída de um sistema fechado.”

[4] Breve Ensaio sobre a Potência, 7, p. 8.

[5] As Limitações do Amor são infinitas.

[6] Remeto o leitor interessado para um estudo que publiquei sobre o conceito de Alegoria, na obra de Walter Benjamin, intitulado O Anjo Melancólico. Foi publicado pela editora Angelus Novus, Coimbra, 2003.

[7] É bom lembrar o magnífico texto de Bragança de Miranda, in “As Ligações do Corpo”, in Metamorfoses do Sentir, Balleteatro Edições, Porto, 1998, p. 33, onde o autor frisa esse aspecto, dizendo que o pensamento da Modernidade «nunca rompeu verdadeiramente com essa imagem, que aprisionava a carne na teia de aranha formada pelo «corpo».”

[8] Breve Ensaio sobre a Potência, p. 31.

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