Para o meu pai (In Memoriam)

Eu deveria andar por esta idade, há 43 anos, quando se deu a revolução dos cravos. Não vivia em Portugal, nessa altura, mas sim em Angola. Pertenci ao rol dos que regressaram após o 25 de Abril, aquando da independência e da libertação das colónias, com o final daquela que foi (e ainda é) a maior ferida da nossa história contemporânea. Uma ferida que só agora começa a cicatrizar e o reflexo disso é a nova literatura portuguesa, que aborda essa experiência (não falo, evidentemente, da experiência da guerra, já anteriormente abordada).

Fui «colonialista» sem querer sê-lo, contra os que dizem maravilhas do salazarismo. Não havia lugar no país para os que estavam contra o regime, como era o caso do meu pai, que havia pertencido às hostes de Humberto Delgado. Estupidamente, por razões que nunca compreendi nem compreenderei, ele foi parar à guerra colonial, mesmo detestando tudo o que aquilo significava. Enquanto a maior parte dos amigos (estudantes de Medicina) desertavam para os países nórdicos, em particular para a Suécia, onde se fixaram até ao 25 de Abril, o meu pai, armado em herói de pacotilha, lá seguiu para a África, onde foi colhido imediatamente, numa armadilha que lhe ia sendo fatal (após ter sido ferido com gravidade, foi passar dois anos no hospital militar, em férias forçadas). Sobreviveu miraculosamente e, quando ficou apto (nunca ficou bom, pois perdeu totalmente a mobilidade num braço), tentou desesperadamente arranjar um emprego. A ficha da PIDE era o maior entrave que tinha, que não lhe permitia encontrar nenhum emprego, a não ser com empresas estrangeiras que actuavam no Algarve e no resto do país. Foi enganado e burlado pelo sócio estrangeiro e acabou novamente sem trabalho. Não conseguiu voltar a estudar, faltava-lhe o último ano de Medicina, pois precisava de trabalhar.

Por fim, decidiu partir para África, lugar onde a PIDE o deixou de procurar (várias vezes a PIDE ia bater-nos à porta, enquanto ele saía pelas traseiras, precipitadamente). Em África, isso deixaria de acontecer, como pensou ele que aconteceria e, de facto, deixou. Finalmente conseguira arranjar um emprego como bancário e alguma estabilidade. Por isso digo que fui forçada ao colonialismo, era também uma saída para os que eram perseguidos políticos. Longe da pátria, deixavam de ser considerados perigosos.

Na véspera do 25 de Abril coisas estranhas passaram-se em minha casa. O meu pai, visivelmente alegre e «encorajado» pelo álcool, já estava a abrir garrafas de champanhe e a gritar coisas como «Viva a Liberdade». Tinha vários amigos militares que o tinham avisado do que se estava a passar (ou do que se iria passar, não estou segura) e festejava ainda antes da revolução do 25 de Abril. Ele tinha a certeza de que a revolução, desta vez, não falharia. Por isso, a sua alegria embriagada e desbragada, a falta de contenção. Muitos anos de espera pela revolução, compreendo-o hoje. Ele trazia aquele sonho no coração, havia muitos anos. Desde a faculdade, em que fora obrigado a fugir, durante as perseguições da PIDE, e as listas dos nomes dos envolvidos eram maravilhosamente escondidas pela Isabel do Carmo, sua colega na faculdade.

A sua felicidade naquele dia não foi ensombrada por nada. Para ele, que sempre defendeu corajosamente os valores da liberdade e da democracia, era plena e limpa, como o «dia inicial» que Sophia de Mello Breyner Andresen cantou, naquele que foi um dos mais belos poemas sobre a revolução:

Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo (“25 de Abril”, in O Nome das Coisas).

Não havia maneira de seguir o que se passava em Portugal, não chegava a televisão a África (uma das maravilhas que fez de mim uma leitora e que sempre me fez suspeitar desse aparelho duvidoso e massificador). Só soube o que tinha acontecido muito tempo depois, já regressada a Portugal. Mas o 25 de Abril foi sempre o dia da grande festa em que eu não percebia bem o porquê, pois, sem imagens e com menos de 11 anos era difícil, para uma criança, perceber o que se estava a passar.

Percebi pelas consequências naturais: o regresso precipitado à «Metrópole». Era assim que chamávamos a um país do qual éramos obrigados a estudar todas as linhas de caminho-de-ferro e rios, e toda a panóplia que o Antigo Regime queria fazer desesperadamente pelo Império. Um império que já se tinha afundado, mas que o fascismo e o imperialismo português queriam, a todo o custo, preservar, à conta de uma mortandade gratuita e absurda. Não há volta a dar a isto e sei que serei crucificada por dizê-lo. Mas di-lo-ei, ainda assim. Não tínhamos o direito de continuar a matar em «nome» de um fantasmagórico império. O mundo inteiro já o compreendia, excepto um punhado de fascistas e usurpadores que nos mantinham reféns do seu sistema.

Sim, tive pena de regressar de um país que achava ser o meu. Reforço a palavra «achar». Embora não tivesse nascido em África, foi lá que passei a minha infância, onde cresci livre e longe do ranço e da tacanhez do fascismo português. Sim, era desmesuradamente livre, desaparecia de casa e, muitas vezes, só voltava ao final do dia. Também nesse tempo não havia os perigos de hoje. Pegávamos na bicicleta e desaparecíamos. Lembro-me de voltar quando tinha fome, como os animais. Isso, nos dias em que não tinha de ir às aulas, ouvir as freiras que ainda tinham nas paredes a fotografia do Salazar e me obrigavam a rezar o terço, não sei quantas vezes ao dia.

O meu 25 de Abril fez-se no dia em que me deitei para o chão, durante uma das infinitas rezas de terço, e me pus a rezar à muçulmana. Andava no segundo ano do ciclo, lembro-me, foi no 2º período. Mas já não aguentava mais terços nem mais rezas, tiveram de me tirar da sala, pois nada me demovia do meu súbito ataque de islamismo…e, logo em seguida, uma freira chamou-me «mentirosa» por qualquer razão estúpida e eu devolvi-lhe o insulto numa versão muito pior, pois chamei-lhe p**. Pois a minha honra não me admitia que me chamassem uma coisa que não era…hoje rio-me e penso como ficaria possessa se um filho me fizesse uma destas. Mas também penso o que havia de revolta contida em mim por ter de rezar ao Salazar e aturar aquelas «zelosas» de Salazar, que me massacravam com terços, quando a revolução já eclodira. O meu pai a dizer-me que o Salazar era o pior homem da terra e as freiras a obrigarem-me a rezar por ele…

Confesso que o meu divórcio relativamente à religião começou nessa altura. Quando percebi na pele que a submissão/respeito não são necessariamente bons, sobretudo quando são prestados de forma equívoca e a quem não serve os direitos humanos. Nada ali me parecia cristão, rezar pela protecção dos fascistas, mesmo na minha cabeça de quase-criança, me parecia uma aberração, que ia contra os princípios que suportavam a dignidade do homem e de valores como a liberdade e a democracia. Digamos que comecei a ser revolucionária muito antes de saber o que isso significava. Mas sentia que não estava certo. Como não está certo utilizar a religião para servir os interesses da política, seja essa religião o que for. Talvez tenha sido essa a lição mais importante da minha experiência africana da revolta.

E, num dia de Inverno, ainda, vi-me na Portela, em T-Shirt, com um frio que me enregelava até aos ossos. A minha mãe dissera-me que estava frio em Portugal e para vestir um casaco. Eu recusei, pois não sabia o que era o frio, até chegar a Lisboa.

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