A primeira semana do bufão Donald Trump, que transformou a Casa Branca num circo mediático, revelou-se pior do que imaginávamos. Nunca estive iludida acerca desta personagem histriónica, agora eleita por um povo que revela um profundo desespero e uma revolta muito bem direccionada contra as políticas anteriores. Nos meus piores pesadelos imaginei que uma parte do discurso que ele usou ao longo da campanha não fosse senão uma espécie de retórica, que abrandaria e que seria, por sua vez, «abrandada» pelas leis americanas e pelo bom-senso que ainda restasse à sua entourage. Cheguei a ouvir dizer a apoiantes de Trump que o seu discurso não seria senão um dispositivo, que se tem revelado infelizmente muito eficaz e que grassa na velha Europa por estes dias. Felizmente, o velho continente tem sabido, pelo menos desde o final da Segunda Grande Guerra, lidar com este tipo de discursos que suscitam imediatamente uma reacção feroz. Até ver digo eu, que, nesta altura, já não arrisco previsões nem a curto prazo!

Não fora apenas o mau-gosto que rege aquela casa, desde a ostentação da riqueza às mamas postiças e à absoluta descaracterização do que se considera ser o papel feminino (quão parecida é a figura de Melania Trump à Marcela de Temer!), reduzindo as figuras femininas a autênticas caricaturas, esvaziadas de sentido e de poder. A este propósito, saliente-se a contraposição de uma camaradagem saudável entre Obama e Michelle, no papel activo daquela e no à-vontade com que se move ao lado do seu marido, e a atitude de submissão óbvia de Melania relativamente a Trump. É um recrudescimento triste dos valores que têm sido defendidos numa América que tem sido conhecida por integrar a diversidade e, apesar dos problemas internos, a postura do governo de Obama foi sempre a da inclusão, da tolerância, em suma, do que tínhamos tomado como suposto da vida democrática. Não só os muçulmanos são rechaçados agora, como o são os hispânicos e outros que hão-de vir, como no poema de Brecht. As leis de Trump, é preciso dizê-lo, são inconstitucionais e curiosamente foram mulheres como Sally Field, recentemente despedida por Trump, que desassombradamente denunciaram a situação. Ser apoiante de Trump, e apoiar as suas medidas, corresponde a violar leis constitucionais, gostava de lembrar este pequeno detalhe. E, em breve, esta figura ridícula vai tentar alterar as leis do país para prosseguir a sua agenda. Ser apoiante de Trump significa apoiar alguém que, desde que chegou, não parou de violar leis. Colocou como conselheiros homens que se tornaram conhecidos pelas suas posições de extrema-direita, em associações em que o cumprimento natural é um “Heil Hitler”, agora reconvertido em “Heil Trump”. Para os que rejubilaram com a saída de Obama, que nunca chegou a fechar Guantánamo e por isso o criticavam, têm agora um carrasco que defende a dureza da tortura e o reforço das técnicas. Que insiste na construção de muros e que chama aos mexicanos “violadores” e “torturadores”.

A caixa de Pandora foi aberta e todos os males estão à solta, legitimadas estão também as mais atávicas atitudes que nascem do medo e da ignorância, a coberto de um discurso de ódio mais ou menos dissimulado. A registar isso relembro o recente atentado do Canadá, em que um terrorista de olhos azuis e ar de ariano, simpatizante da extrema-direita e de Marine Le Pen, entrou numa mesquita e atirou sobre famílias muçulmanas que ali rezavam. Este espírito inspirador, atiçado num continente em que o porte de armas é comparável ao porte de um maço de tabaco, constitui um perigo tremendo, capaz de incendiar, não apenas a América, como se viu, pois passou-se no Canadá, mas também uma Europa flagelada por atentados terroristas e em que os muçulmanos constituem uma parte significativa da população.

A próxima década, não preciso de referir os próximos meses (eis que o Parlamento inglês acaba de aprovar o Brexit) serão de construção de muros e de fronteiras, de exclusão social e de implosão dos valores democráticos e que estiveram na origem da construção da União Europeia. O agravamento das condições económicas trará um consequente agravamento das condições de vida e, em particular, para quem já não gozava delas, nas populações que vivem nas periferias e, porque não dizê-lo, e nos guetos em que foram colocados há várias décadas.

Há quem diga que, quanto mais depressa tudo isto implodir, melhor. Mas não vai ser bonito. Já não é bonito viver o dia-a-dia em insegurança permanente, saindo para ruas vigiadas por patrulhas do exército, olhando para quem usa certo tipo de indumentária de forma suspeita, ao ponto de criar leis que os consigam despir. Nada disto vai ser bonito e tudo ameaça precipitar-se, de forma vertiginosa. À velocidade a que tudo isto se desenrola e o modo como os seus efeitos se desencadeiam, verificando as leis determinísticas de causa e efeito, com as inesperadas e expectáveis alianças entre China e Merkel, para evitar a queda da EU a seguir ao Brexit e a aliança (provável) entre Putin e Trump, disputando responsabilidades no Médio Oriente, a aliança entre Netanyahu e Trump, que apoia a expansão dos colonatos e cauciona o genocídio dos palestinianos, só para citar o mais evidente, ignorando inimigos como o Irão, pode ser um jogo muito perigoso. Não é apenas o ridículo das personagens que movem os nossos destinos que nos atinge, mas uma tempestade anunciada por um céu muito negro.

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