Ler no Chiado; uma tarde de primavera poética

Foi no dia 21 de Março, dia da Poesia, que Anabela Mota Ribeiro nos reuniu, para lermos poemas da nossa preferência. Quando cheguei à livraria Bertrand, pelas 18 horas, meia hora antes da sessão, já a sala estava praticamente repleta de pessoas sentadas, aguardando a nossa chegada. O que mostra bem o sucesso deste encontro, criado e coordenado por Anabela, dinâmica moderadora, sempre a dirigir-nos perguntas instigantes e muito oportunas, durante toda a sessão.

A princípio, o pressuposto era o da leitura de 5 poemas a cada um, da nossa escolha. O formato indicava, à partida, uma sucessão de leitura e de comentários, com aqueles poemas. No entanto, à medida que íamos lendo, a nossa moderadora ia traçando questões de afinidade entre os autores e os seus leitores, pedindo-nos que contextualizássemos os poemas e os poetas lidos, dando-nos a possibilidade de exprimir as nossas preferências, permitindo a abertura ao diálogo, por parte dos ouvintes.

É verdade que a poesia pode ser mais ou menos explicada ou mais ou menos apreciada, mas faz toda a diferença – sobretudo num público menos familiarizado com ela – chegar até ela de forma desamparada (pela mera sucessão de leituras poéticas) ou, então, compreender os elos profundos, essa teia de emoções envolvendo o leitor ao poeta. Compreender, sobretudo, o contexto de cada autor, de cada poema, o seu tempo e a sua história, que nele se enredam e se transformam em pura experiência de linguagem.

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Da canção ao poema, o elo traçado por Márcia, foi-nos dado a ouvir Ary dos Santos, Amália, colocando-se sempre essa inevitabilidade da música na poesia. Márcia, que supostamente iria ler, afinal cantou o poema, como cantavam os bardos gregos ou os poetas provençais. Pedro levou Hilda Hilst e Mário Cesariny, Ana Hatherly, falando na dificuldade em «escrever/ler poesia erótica», procurando essa justa medida que transforma a experiência erótica em poética. E eu falei de Celan, de Ramos Rosa, de Manuel Gusmão, três enormes poetas em que a linguagem é salvação e perda, falei da tradução como uma das questões essenciais da linguagem e Anabela provocou-me sobre o assunto. Tanto Celan como Ramos Rosa foram grandes tradutores, também. Manuel Gusmão anda mais perto dessa matéria incandescente, o tempo, sobretudo da questão da imagem dialética, que se apresenta em fulgor, no seu Teatros do Tempo.

Acima de tudo, está esse estremecimento do mundo, essa viagem que nos põe em contacto com o enigma da linguagem e da poesia. A «alegria» da qual nos fala Gusmão, no seu poema «A Perfeição das Coisas». Uma alegria nascendo dessa vibração íntima e inexplicável, capaz de juntar tanta gente num final de tarde, em escuta.

 

 

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