Mais um passo para a ditadura: a execução de Marielle Franco

Esta é mais uma mensagem directa para o povo brasileiro que luta pelos direitos humanos (dos negros, dos indígenas, dos favelados). A execução a frio de Marielle Franco não poderia ser mais simbólica. Negra, socióloga, feminista, política brasileira e militante dos direitos humanos, Marielle é o feliz resultado da política de Lula da Silva. Só as mudanças que este trouxe à sociedade brasileira poderiam ter tirado os negros da favela e propiciado a sua educação e formação, como é aqui o caso de Marielle.

Marielle Francisco da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1979, no Complexo da Maré, e, por ter tido acesso a uma bolsa integral, conseguiu estudar Sociologia na PUC do Rio e fez o mestrado em Administração Pública na UFF. A sua militância na defesa dos direitos humanos e luta contra acções violentas na favela foi motivada depois de ver morrer uma amiga, que foi vítima de uma bala perdida, durante um tiroteio que envolveu polícia e traficantes no seu bairro.

Em 2006, Marielle integrou a equipe de campanha que elegeu Marcelo Freixo à ALERJ. Com a posse deste, ela foi nomeada assessora parlamentar do deputado. Anos mais tarde, Marielle assumiu a coordenação da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2016, naquela que foi a sua primeira disputa eleitoral, foi eleita vereadora na capital fluminense pela coligação Mudar é possível, formada pelo PSOL e pelo PCB. Foi a quinta candidata mais votada, com mais de 46 mil votos.

No Brasil do «golpe», em que o exército tomou o controle do Rio de Janeiro, para evitar a sublevação dos favelados (relembro o aviso da Rocinha, à sua entrada, de que desceria do morro se Lula fosse preso), tendo substituído a Polícia Militar e em que tem plenos poderes para a sua actuação, a voz de uma mulher como Marielle, que tinha recentemente denunciado a polícia do 41º Batalhão de Polícia Militar por abusos de autoridade, contra os moradores do bairro de Acari, não era bem recebida naquele que é o regime actual, excludente dos direitos dos negros, das feministas. Como diz Marcia Tiburi:

Seu assassinato é uma prova da abjeção governamental e se insere na política de terror de Estado que atinge a todos. Mas atinge sobretudo o povo da favela, marcado pra morrer. Ela é escolhida nesse momento pelo sistema de opressão para confirmar o genocídio do povo negro. Para silenciar quanto ao lugar das mulheres negras na política.

O partido PSOL, atraindo o poder social e político que o PT perdeu nos últimos anos (com o enfraquecimento político de Lula e de Dilma Rousseff), tinha em Marielle um símbolo de uma guerreira feroz, que ganhava um protagonismo notório ao afrontar o poder político actual. O perigo de arrastar consigo os favelados e os negros, as mulheres negras e esquecidas da favela(que pouco têm participado da vida política brasileira), todos aqueles grupos que viam em Lula o seu governante. Havia quem visse em Marielle uma futura Presidenta, como Dilma Rousseff, investida de um poder simbólico equivalente ao de Lula da Silva.

O dia 14 de Março de 2018, em que Marielle Franco foi executada no seu carro juntamente com o seu motorista, é um dia de vergonha para os seus algozes, por detrás de quem se escondem grandes interesses políticos, um dia de tristeza profunda para aqueles que viam na bela guerreira uma esperança para milhões de brasileiros sem voz nem existência, sujeitos à violência policial diária, sem que isso corresponda minimamente a uma resolução do problema da criminalidade do Brasil. A morte de Marielle é uma facada funda no coração da democracia, mais uma, que vem mostrar o verdadeiro rosto de quem governa hoje o Brasil, o qual caminha a largos passos para uma ditadura, perante a indiferença do mundo, não obstante a sua evidência.

Texto publicado na Revista Caliban

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