De um rio que se sonha e canta

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A língua que falamos não é apenas uma fonte originária. É também uma respiração. É também um destino. Cada vez é a primeira e a última vez. Haverá mais rios mas só neste, e agora, me banho. E naufrago.

 

Casimiro-de-Brito1Já não me lembro em que momento mergulhei no leito deste rio que é a escrita e a poesia de Casimiro de Brito. Segui-lhe o fluxo ao longo dos anos, o sobressalto das suas águas e os seus caminhos múltiplos. Poeta de obra vastíssima, poeta do célebre movimento da Poesia de 61 – com Gastão Cruz, Teresa Horta, Luiza Neto Jorge e Fiama Hasse Pais Brandão – que Casimiro de Brito encontra-se traduzido em várias línguas, é presença constante em inúmeros festivais internacionais (fazendo parte da direcção do festival Voix Vives de Sète) e a sua obra consagrada em diversas ocasiões, tendo-lhe sido atribuído, pela Academie Mondiale de Poésie (da Fundação Martin Luther King) aquele que é um dos mais prestigiados prémios no ano de 2002: o Prémio Leopold Senghor, pela sua carreira literária. Foi igualmente agraciado pela Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, com a medalha Oskar Nobiling, entre outras distinções.

Porém, apesar do fulgor da sua carreira, o que se torna mais espantoso é a versatilidade da sua escrita e a sua capacidade de se reinventar, como é o caso deste livro que aqui apresento, Apoteose das pequenas coisas, um conjunto de 1938 fragmentos, numa obra que oscila entre vários registos e que, de alguma forma, finta os vários géneros, pois tanto pode incluir-se na escrita diarística, como na ficção ou, ainda, na prosa poética. No fragmento 592, que pode ser tomado como uma das melhores portas de entrada deste livro, Casimiro de Brito escreve: “Já nem o chamado poema, os fragmentos do poema, me interessam – parecem lagos polidos. Só os fragmentos com algo inacabado, estes, assim…” (p. 92). Importa estabelecer aqui uma relação importante com o conceito de mónada leibniziano, pois cada fragmento desta obra pode ser entendido dessa forma monádica (em que o fragmento se constitui como uma unidade absoluta e primordial.

Leitor voraz, Casimiro de Brito encontra na estética pré-romântica, sobretudo em autores como Fiedrich Schlegel e Novalis, sublimes cultores desse género no Primeiro Romantismo alemão, uma das suas fontes de inspiração privilegiadas. Se essa paixão pelo fragmento se encontra aqui presente, como um modo de permitir a entrada no texto de um modo não sistemático e de uma forma nómada (e esse foi um dos aspectos sobre os quais já escrevi anteriormente), no seu inacabamento, e que permite a entrada no texto de forma descontínua (e também descontinuada), por outro lado, há também uma outra vertente que é importante para Casimiro de Brito: a sua escrita sóbria e depurada, como uma das características do movimento pré-romântico. Toda a poética de Casimiro de Brito encontra na simplicidade da linguagem o seu veio fundamental, num trabalho que resulta da recusa de efeitos ornamentais da linguagem e de uma redução ao essencial. É sobretudo no despojamento que se encontra a força que o move, um despojamento que caminha no sentido de uma procura de leveza, como no fragmento 599: “Terno é o vazio. Salta para cima de ti mas não pesa. E dentro de ti explode mas não te sufoca. E não te mata quando te reduz a cinzas – ou a um glorioso grão de pó.” (p. 93).

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A grande onda de Kangawa do mestre japonês Hokusai

Este “vazio” a que alude Casimiro de Brito, não é o da desolação (na sua acepção mais ocidentalizada e banal da cultura), mas corresponde a um dos 5 elementos primordiais japoneses, a saber Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio. Enquanto elemento, o Vazio (Kuu), é também o que significa “Céu” e representa tudo o que envolve a experiência, estando associado ao espírito, ao impulso inicial e à energia que é necessária para a criação de todas as outras coisas que se encontram relacionadas com os outros elementos. Chamo a atenção do leitor para estes aspectos que são cruciais na interpretação da escrita e da poética deste autor, que é, em Portugal, o grande, se não o maior, cultor da poesia japonesa e dos haiku, que escreve desde 1958, desde a sua estadia em Londres, quando era ainda muito jovem. Não é descabido falar, assim, de uma escrita que se entretece com as suas múltiplas influências (orientais, árabes, trovadorescas) e que com elas dialoga profundamente, sem temer aquilo a que Harold Bloom diagnosticou como a “angústia da influência”. Enquanto escritor que o tempo lapidou e os textos alimentaram, Casimiro de Brito sabe que todo o texto é palimpsesto e transporta consigo uma tradição irrecusável.

É Blanchot quem, na sua obra O Espaço Literário, refere a necessidade que o escritor sente a de renunciar a si mesmo na obra e ele fá-lo lançando mão do diário, gesto que corresponde ao tracejar de uma cartografia de pontos referentes a si próprio, mas que instala (e se instala a partir de) um espaço ficcional que foge ao biográfico e igualmente à cronologia do diário. Veja-se, por exemplo, o fragmento 1098: “O actor é uma página branca. O autor também. Por vezes, um pergaminho. Uma pele onde apetece escrever. Escrever, dançar, representar, cantar como fazem os orientais – e de lá venho -, “com um único traço de pincel” (p. 162). Não apenas desejo de inscrição na página branca, mas também o de, através dessa inscrição, encenar a sua própria existência quotidiana e conferir-lhe o gesto da suspensão “com um único traço de pincel”. Trata-se assim de levar a cabo um reconhecimento, no sentido em que “conserva um nome e fala em seu nome, e a data que se inscreve é a do tempo comum em que o que acontece, acontece verdadeiramente” (BLANCHOT, 1987, p. 19). Por isso, a forma diarística, aparentemente solitária, serve ao escritor como um refúgio da solidão que lhe é imposta “por intermédio da obra” (BLANCHOT, 1987, p. 19).

Recorrer à escrita do Diário, é para Casimiro, tal como o reconhecia Maurice Blanchot, agarrar-se ao quotidiano, deixando-se ir ao sabor dos ritmos secretos da escrita, temporalizando-a e inscrevendo-a nela. Para o autor, não importa atestar a veracidade do que narra, mas antes salvaguardar a ocorrência do evento quotidiano e descobrir nele o seu fulgor íntimo. De onde nasce o título deste livro, também: “Apoteose das pequenas coisas”. Pois é sempre delas e da sua fragilidade que Casimiro de Brito fala, seja a luz de um final de tarde ou o grão de poeira, a pedra, o corpo – na sua fragilidade – , o amor (também ele precário e solitário), o sexo, as viagens, a memória, que, aqui, obedece ao esquema de uma reconfiguração que é o da rememoração, no seu sentido proustiano. A música, também, como se fosse ela o último vestígio do divino, sempre presente, seja o rumor ínfimo da natureza ou o do amor, seja a de Amadeus Mozart ou a própria linguagem poética. Porém, é nela, não só na música como na própria poesia, que o gesto apoteótico se configura, celebrando o canto que há em tudo o que vive.

Mas se esta celebração canta a vida, ela também traz o outro canto, que é o próprio “silêncio da morte – que se vai derramando sobre as coisas.” (Fragm. 1084, p. 160). Nesta lei que toca ao humano e que lhe traça os limites da sua finitude, revê-se também a poética de Casimiro, como uma Ars Moriendi. No fragmento 1092, o autor escreve: “Um barco transportado por uma barca, a de Caronte. O barco é o homem, o animal que somos e todos os seus nomes” (p.161). Precisaremos de afinar a tarefa da linguagem pelo seu diapasão, o da nomeação, talvez o que mais aproxime o homem do seu lado divino. Porque se o conceito de apoteose designa o de celebração, implicando o canto e os seus efeitos retóricos de produção de um clímax, ela não se cumpre sem o lado ritual que consagra a união do homem com o divino. Sem querer simplificar ou sequer explicar os aspectos religiosos (ou místicos) que se encontram aqui presentes, nomeadamente o panteísmo, Casimiro de Brito move-se constantemente neste umbral onde todas as passagens se tornam possíveis, recusando uma transcendência abstracta, mas abraçando o mistério da existência, aceitando-o e glorificando-o, no sereno júbilo da sua escrita.

Por isso, fecho com aquela que é um dos mais belos fragmentos deste livro:

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A língua que falamos não é apenas uma fonte originária. É também uma respiração. É também um destino. Cada vez é a primeira e a última vez. Haverá mais rios mas só neste, e agora, me banho. E naufrago.

É também deste naufrágio que Casimiro nos fala. Um naufrágio num rio, em que as águas são sempre diversas e múltiplas, de que já o grego Heraclito nos falava. Onde as águas são o mistério que canta. No tempo e na noite.

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