“A Terceira Miséria” de Hélia Correia

terceira_miseriaApesar de ser mais conhecida como romancista e dramaturga de destaque no actual panorama da literatura portuguesa, tendo conquistado vários prémios literários ao longo da sua obra, Hélia Correia estreou-se na literatura com a poesia. Publicou O Separar das Águas, em 1981, O Número dos Vivos em 1982 e A Pequena Morte/Esse Eterno Canto, em 1986. Foi com A Terceira Miséria, publicado em 2012, que a autora voltou novamente à poesia e, com esta obra, a autora conquistou o Prémio Correntes d’Escrita/Casino da Póvoa, relativo ao ano de 2012.

No discurso que proferiu, na altura em que recebeu o galardão literário, Hélia Correia assumiu que este livro era uma homenagem à Grécia, ou melhor dizendo, à “sua” Grécia, retomando os temas helénicos que lhe são tão caros, mas também à destruição da actual Grécia, como um grito ou uma advertência para o que de pior se desenha no centro da actual Europa: a perda da soberania, a falência da democracia e as consequências desastrosas da política europeia actual.

O primeiro poema relembra a célebre pergunta do helénico Hölderlin: “Para quê, perguntou ele, para que servem/os poetas em tempo de indigência?” (p.7). Mais do que um lamento, esta formulação converte-se numa convocação para uma tarefa, porventura metafísica, mas essencialmente ética. Se, por um lado, se faz o questionamento de uma origem (a da Grécia como nascimento da civilização ocidental), por outro, reclama-se um regresso a uma dignidade perdida, para a qual é preciso resgatar as ágoras. Veja-se o poema 33 (p.39): “De que armas disporemos, se não destas/Que estão dentro do corpo: o pensamento,/A ideia de polis, resgatada/De um grande abuso, uma noção de casa/E de hospitalidade e de barulho/Atrás do qual vem o poema, atrás/Do qual virá a colecção dos feitos/E defeitos humanos, um início.”

Hélia Correia, na sua escrita cristalina e clássica, revisita o esplendor do pensamento grego e dessa mítica pátria, tão cantada por Byron, por Hölderlin, entre inúmeros poetas: “Tu, Grécia, semelhante a heroína/Sujeita a vilipêndio, tu a quem/Acorreram os jovens da Europa,/Os de linhagem, como impacientes” (p. 33). Mas é também sob a forma do desencanto e da desolação, como no poema 3, da página 9, “Tardia já, pois não restava mesmo/Uma desolação, eco nenhum,/Somente um coração que enlouquecia (…)”, falando dessa indigência dos poetas, sobre a qual “não havia/Nada a dizer, nada a fazer” (p.10), essa “grande morte pela qual viria/A morte das palavras”. Metafórica, sim, essa morte, mas também real, constatando o modo como a indigência da experiência conduz à própria morte das palavras, numa radical desesperança. É um canto de despedida, derradeiro e crepuscular, cuja tristeza não é apaziguada. Relembra um pouco um certo tom de Rilke, em Elegias de Duíno, o poema 30 (p.36): “Para onde olharemos? Para quem?”. Um céu onde os deuses se ausentaram, deixando os homens mergulhados na sua pobreza, órfãos. E, ainda que Atenas se mantenha oculta e “de algum modo intacta, por debaixo/Do alcatrão, do ferro retorcido./Certo é que nunca ressuscitará/Visto que nada ressuscita.”

Mas de que misérias nos fala Hélia Correia? A primeira miséria é a do abandono dos deuses, essa “indigência” atestando “Que a perda se instalara para sempre” (p. 11), no poema 5, “a do filho abandonado, aquele/ Que os deuses, retirando-se, não olham/Nem favorecem mais.” Não apenas a voz de Hölderlin ressoa aqui, o da “meiga loucura” (p. 19), o “primeiro Friedrich” (p. 16), mas também a de Nietzsche, “O que desconhecia a mansidão/E enlouqueceu de modo diferente,/Se apercebeu do uivo que soltavam/As ilhas todas, com as suas praias/E os seus bosques vazios. Pois o luto/Leva tempo a formar uma linguagem” (p. 16). O procedimento, aqui, é alegórico, recorrendo a uma linguagem imagética de fortíssima carga: “Quando o primeiro Friedrich fez a pergunta/Quase monologava. Ou, quando muito,/Falava com fantasmas. Pois não via/ Senão ruínas, dessas que resistem/Ao embelezamento, amolecidos/Despojos em que há braços e sandálias/E um cheiro a carne que repugna às feras porque nela trabalham cinza e vermes/Servidores dos necrófagos.”. Mas se o “primeiro Friedrich”, “esse que morreria/Com grande exactidão” (p. 20) e cuja vida “Não chegaria para tanto adeus”, esse que conhecia “A Grécia pela ardência, pelo toque”, suplicava por um sinal dos deuses, ensombrado pelos seus fantasmas e soçobrando na loucura, já o “segundo Friedrich” – e aqui Hélia Correia evoca Nietzsche – escutou outro grito, o da “morte dos deuses”. Mas esse Friedrich já não é a figura crepuscular, mas “O anunciador, o que caminha/Sobre águas estagnadas e parece,/Ao afundar-se, desenhar no lodo/Um mapa para o qual não há leitura.” (p. 24)

Se a primeira miséria diz respeito à deserção dos deuses, ao desaparecimento dessa “bela colecção do paganismo/E, dentro dela, o homem” (p.17), o desaparecimento da “exaltação, o rito – o rito;/O que produz ao mesmo tempo a dança/E o significado, acto e poema”, toda essa visão transfigurada e sacralizada da experiência humana, iluminada pelo envolvimento cósmico e a pertença recíproca e milenar dos homens à natureza, a segunda refere-se à “miséria da interpretação/que tudo trai” (p.26). A poeta fala aqui dos “Persas vindos do Norte, equivocados/Com o som do poema, com a ira/Formosa do poema.” Desencanto e melancolia atravessam esta obra, mas não é apenas uma nostalgia vaga pela perda do farol – “Para onde olharemos?” – que era essa Grécia gloriosa. O tema da ruína e da alegoria é um fio de água que percorre todo o livro, com essa beleza avassaladora que só os que se destinam à morte e ao sacrifício possuem, mas a metáfora atinge o seu clímax no poema 23 (p. 29): “A terceira miséria é esta, a de hoje./A de quem já não ouve nem pergunta.” A ágora, o nobre espaço da polis, perdeu todo o seu sentido, deixou de ser um referencial da ética democrática, mas essa perda assenta em algo mais grave, ainda, e que é a miséria “de quem não recorda”. A terceira miséria é essencialmente a do esquecimento a que se votou a democracia, reflectindo metaforicamente a situação do lamaçal actual em que se afundam as democracias, onde o “orgulhoso Péricles, se torna/Num entre os mais, num entre os que se entregam,/Nos que vão misturar-se como um líquido/Num líquido maior, perdida a forma,/Desfeita em pó a estátua.” (p.29). Mas não é somente a perda da identidade que se destroça, é, mesmo a ideia de uma origem da Europa, uma realidade que se situa muito para além de nação ou de país, de povo. Atenas, esse sonho de um humanismo arquetípico, alimento e matriz de toda a sociedade ocidental, aparece como a mãe assassinada: “Diz-me, onde está Atenas?, perguntava./Falava com a Grécia como o filho/Fala com a mãe morta. Procurando/Os amados vestígios entretanto/Pisados, arrastados pelos becos, /Os véus de outrora presos na imundície.” (p.18). Esta imundície, não vale a pena nomeá-la, todos a conhecemos, pelos seus efeitos devastadores e aniquiladores de uma cultura agonizante, em favor de “um elenco bárbaro/Das novas gargalhadas, dos que agitam/As pulseiras de couro, dos que mostram/As botas ruidosas antes mesmo/ De mostrarem o rosto” (p. 18). Porque estas gargalhadas, as “De quem não sabe rir, caem no corpo/Da cidade”, não se elevam, são demoníacas e destroem tudo à sua passagem. Já Baudelaire, na sua poesia, falava deste riso infernal, aquele que não reconhece o rosto do homem e que se perde na repetição alegórica.

Perda de identidade, erosão da resistência e uma informidade que, cada vez mais, ameaça a singularidade de um povo, fazendo-o soçobrar num mundo espectral, como no poema 25 (p. 31): “Sim, falamos de sombras. Vendo bem,/Incendiámos tudo: Alexandria/E os sábios, as mulheres. Incendiámos/O grande coração. Temos aos ombros/O apetrecho dos destruidores, /Não a pólvora, não: essa arrogância/Pela qual o ocidente se perdeu.”. “O apetrecho dos destruidores” é o que submete o vencido, humilhando-o, matando-o pela arrogância, que é apanágio dos vencedores e de uma história que ignora os vencidos. A imagem não poderia ser mais adequada a esta “terceira miséria” que vivemos hoje, não apenas a dos gregos, mas a da “gente do sul” (p. 38). A condição do despojado, vítima sacrificial, aquela que reencontramos também na condição Homo Sacer, emerge no poema 32 (p. 38): “Oh, os amigos, os abandonados,/Esses, os destinados ao extermínio,/Esses os belos despojados, nus”. Esses são também aqueles que habitam “o grande coração” e “Pouco sabem do frio, gente que dorme/Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto”. Os “belos despojados” são essa “Gente do Sul,/Gente que um dia se desnorteou.”

Se a escrita de Hélia Correia nos aparece aqui contaminada por uma melancolia intensa, porém, há um apelo, uma chamada, uma esperança que a anima como um sopro oculto: “Estão as praças,/Como ágoras de outrora, estonteadas/Pela concentração dos organismos,/Pelo uso da palavra, a fervilhante/Palavra própria da democracia, /Essa que dá a volta e ilumina/O que, por um instante, a empunhou.” Cabe à ágora, esse espaço onde se acende, ainda, o ténue brilho dessa glória antiga e obscurecida, o poder do resgate da miséria. Pois, se a “terceira miséria” é a do silêncio, “em que já ninguém ouve nem pergunta” ou a do esquecimento, a palavra reanima a ideia da polis, reivindicando um “início” (p. 39): “De que armas disporemos, se não destas/Que estão dentro do corpo: o pensamento”. Como também, face à morte de Atenas, a pergunta, a luz reaparece também no poema 31 (p. 37): “E pode/No entanto escutar-se, no entanto/Reler-se, no entanto caminhar/Em direcção diversa, magoar/Novamente os joelhos na jornada?”. Esses viajantes que “esvoaçam/Pelo éter”, como Íris e Hermes, não serão, eles próprios, capazes de reunir “Um exército novo”, recuperando a “Ardência do improvável”? Não serão essas praças, “Pelo uso da palavra, a fervilhante” capazes de reacender a chama antiga da Grécia, de redimir a ideia de polis, inaugurando a hospitalidade dessa casa antiga, onde poderia, ainda, morar a linguagem?

Recensão publicada na Revista Pensar Diverso, nº 4, “Viagens”, dirigida por Celina Martins.

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