O Baile Final

Poderíamos chamar James Ensor

ou um qualquer pintor do desencanto

antes pintor, diria o outro, o do spleen,

do que fotógrafo, esses idólatras do real.

 

E a noite das sombras, a do século

que entrou a pique no optimismo da técnica

que faremos dela senão cantá-la?

 

Withman ou Pessoa, Eliot, ou ainda a miragem de Orfeu

piscando o olho à sua Eurídice

aquela que afinal foi só o século que ficou para trás

não a dos gregos, mas a de uma irredutível

e metafórica despedida

 

esse mito que desapareceu do nosso horizonte

e no qual se selou o beijo

de uma aura perdida e sonhada

renascida nos ventos do futuro, no cinema

perdida entre catástrofes,

mas o homem não sabe ler

nos rasgões do passado

 

há sempre um baile que nos espera

uma festa, onde marcámos encontro com o ideal

uma aposta de vida ou de morte

e afinal só vemos desfilar espectros

e sombras de tempos

não parámos para pensar no

depois da música

 

importa antes permanecer

e continuar neste palco,

enquanto todos dançam

como bonecos desarticulados,

exaustos autómatos, dançando

até que a noite os vença.

 

Ninguém parou, ninguém pára, ninguém ousará

pensar no que virá depois da música

 

cairá o palco ou tombarão as sombras?

E o pintor, o que fará?

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4 thoughts

  1. …o que faremos nós? “Exaustos autómatos, dançando até que a noite, o cansaço, ou a morte nos vença…

    Mensagem num poema maravilhoso, que nos alerta para o completo alheamento moral do que se passa à nossa volta.
    Muito Obrigada Maria João

    Liked by 1 person

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