Texto sobre o livro de Raquel Nobre Guerra, "Groto Sato"

O Pen Clube português decidiu atribuir o Prémio Primeira Obra à autora Raquel Nobre Guerra, pela sua obra de estreia na poesia, cujo título é Groto Sato. O júri foi constituído por Teresa Cadete (Presidente) e pelos vogais Manuel de Queiroz e Maria João Cantinho.
Não é um caminho fácil, o de penetrar nesta obra, e sabe-o quem a leu. Um primeiro livro, particularmente de poesia, que se entrega assim ao risco da linguagem, sem medo e desnudando-se deste modo, prenuncia uma poesia muito forte. E por várias razões, que se tornam evidentes para quem lê Groto Sato. Logo neste título se desenha um programa, na conjugação de duas palavras que não se ajustam, que remetem para a contradição. “Groto” é uma palavra polissémica, apontando para a ideia da gruta mágica, enquanto a palavra “Sato” nos reenvia para a língua japonesa, que significa “iluminado”. Um lugar iluminado, mas que também se situa nas profundezas.
Em primeiro lugar, esta obra não faz concessões de espécie nenhuma. Começa logo na epígrafe: “no paraíso só se entra com uma escavadora”. A metáfora é, em si mesma, um foco de irradiação que simultaneamente nos adverte e se constitui como promessa: o acesso ao paraíso. Mas a questão permanece: De que paraíso é este, de que se fala aqui? E por que razão apenas se pode entrar de escavadora? A resposta está nesse trabalho/labor sério da poesia que, rejeitando os clichés, reclama o lugar e o fulgor da poesia inteira. Ou o da linguagem poética, aquele que faz vacilar os cânones e os transgride, num jogo de reinvenção da linguagem. A entrada no paraíso, assim, não é dada, mas conquistada arduamente, fruto de um labor incansável e subterrâneo, uma vez que as próprias forças da linguagem (e a sua eficácia) nem sempre são visíveis, resultando antes de uma laboriosa transfiguração. A escolha de Raquel Nobre Guerra radica nesse evitar do caminho fácil, procurando sempre o efeito da surpresa, no modo como recorre às imagens e às metáforas e, aqui, esse jogo é intensíssimo.
Como João Barrento diz, no seu posfácio, “A poesia tem legitimidade para exigir o que quer, mas nunca mudou o mundo. Ela tem de estar atenta (…)”. Em lugar de se perder na banalidade do mundo e de se confundir com a debilidade de uma boa parte da poesia actual, o/a poeta é alguém que perscruta as profundezas da sua própria época e que procura dar conta dessas forças sísmicas que a percorrem e é nesse sentido que a poesia desta autora se furta à banalidade de algum discurso poético, numa diversidade ampla de registos que a percorre, desde o poema breve e aforístico aos poemas de grande, desmesurado fôlego, como a magnífica “Saudação a Álvaro de Campos”. Um ponto voraz, eis o que ela persegue e, ao folhear-se este livro, damo-nos conta dessa imensa ductibilidade formal e linguística que contém tantas possibilidades e encerra uma promessa. A sua escrita oscila entre essa leveza, de uma frase apenas, e os longos poemas de pendor imagético surrealizante, visceral e fortíssimo. Por vezes, revela-se mística e litúrgica, mas ela acontece sempre num diálogo lúcido e erudito com a filosofia e a literatura, num jogo de escuta das grandes vozes da poesia. Esta poesia, perdoem-nos a expressão, é um assalto às nossas convicções, um convite ao sobressalto, onde nos acena o paraíso. Ou o que dele vislumbramos.
-Maria João Cantinho
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