Lula: a esperança viva dos que sonham a revolução

Dois dias seguindo o vertiginoso desenrolar dos acontecimentos, desde a negação do Habeas Corpus a Lula, julgado num processo sem provas pela posse do APT, tiram as ilusões a qualquer um que esteja minimamente atento e conheça algo do Brasil e da sua política nos últimos anos, desde o governo Lula e Dilma.

Não são invenções, mas factos: Lula tirou milhões de brasileiros da pobreza, ampliou o alcance do ensino superior, com a criação de cerca de 200 universidades pelo país, dando a possibilidade de estudar a milhares de jovens que não tinham acesso ao ensino superior, incrementando a bolsa família, um subsídio que aliviou economicamente as famílias brasileiras. Se hoje há produtos como Marielle Franco (recentemente executada) e negros chegados ao ensino superior, a quem foram dadas oportunidades que antes não tinham, isso deve-se a Lula e ao prosseguimento das suas políticas com Dilma Rousseff. Nunca tantos jovens brasileiros puderam concorrer a lugares na universidade brasileira, usufruir de apoios do CAPES e outros para estudar fora do país e trazer um enriquecimento da sua experiência ao Brasil. Além disso, os seus programas retiraram o Brasil do mapa da fome, o que não é de menor importância. Dirão que tudo isso não aconteceria se a economia brasileira não tivesse sofrido um crescimento com base na economia do petróleo, também, o que é inteiramente verdade. Mas os seus governantes poderiam ter optado apenas por manter uma elite financeira, branca e rica, esquecendo os problemas das favelas e dos jovens brasileiros, deixando-os, como sempre, entregues às redes de narcotráfico. Não, enquanto a economia brasileira florescia a olhos vistos, as políticas do PT (que poderiam ter feito mais pelo ensino médio e pela saúde, por exemplo) beneficiaram uma classe que quase não existia e que é hoje a classe média brasileira, composta por um sector forte do ensino superior e profissionais liberais, etc. Na prática, é esta classe que é hoje a mais reivindicativa, pois passou a ter plena consciência dos seus direitos e a ter a noção clara da democracia, ainda mais jovem do que a portuguesa.

Dirão, com razão, que o PT cometeu erros (e graves), nomeadamente o de ter-se rodeado de uma classe de políticos corrupta, de ter feito alianças perigosas, como se justifica agora com Temer, o qual ajudou e beneficiou dessa vergonha maior que foi o impeachment de Dilma Rousseff, presidenta legitimamente eleita e contra a qual não existe qualquer acusação de corrupção (na prática, Dilma é a única que não tem nenhuma acusação contra ela). Foram erros que abriram a porta ao descalabro que se seguiu, um golpe de estado perpetrado pelo conluio entre políticos corruptos, juízes e tribunais corruptos e corrompidos e uma media que fez o trabalhinho sujo que havia a fazer, como a Globo, ao serviço dos grandes interesses do capital financeiro, que não tem feito outra coisa senão proceder ao «desmonte» do Brasil, entregando as grandes empresas aos grandes grupos financeiros internacionais. Sobre esse monstro criado pela coalisão entre poder político, financeiro, media, tribunais e poder juríco, aconselho a que leiam o lúcido artigo de Rubens Casara, O monstro Behemoth na política brasileira, publicado recentemente na Caliban. Cito aqui Casara:

 A aproximação entre o poder político e o poder econômico, o desaparecimento dos limites ao exercício do poder (em especial, o afastamento/relativização dos direitos e garantias fundamentais), a atuação política do poder Judiciário, o crescimento do pensamento autoritário, as tentativas de controle ideológico de professores e funcionários públicos, o desmantelamento da rede de proteção trabalhista, o controle e a manipulação da informação pelos meios de comunicação de massa; a divulgação de notícias falsas e a demonização dos inimigos políticos, a destruição de determinados setores da economia nacional e a invasão de corporações internacionais, o crescimento do lucro dos bancos em meio à crise, o desaparecimento dos obstáculos ao lucro das grandes empresas e à circulação do capital financeiro; o desmantelamento dos instrumentos para uma política econômica soberana, a distribuição de isenções tributárias para grandes empresas, o congelamento dos gastos sociais, a substituição da política pela religião, a transferência para empresas privadas do patrimônio público, a intervenção militar na segurança pública; dentre outros fenômenos expressam, não uma estrutura coerente, mas a tentativa de atender aos diversos interesses das partes que compõem o Behemoth brasileiro.

Casara esclarece-nos neste texto que o intuito principal do governo brasileiro — que não é senão um instrumento ao serviço de uma economia global, que em nada se preocupa com o bem-estar do cidadão brasileiro, a não ser o das suas elites e clientelas — é desmontar os resultados efectivos da política social brasileira conquistada ao longo das últimas duas décadas. Por várias razões: é preciso enfraquecer uma classe social reivindicativa e retirar-lhe qualquer poder negocial que venha a ter, é preciso enfraquecer as classes trabalhadoras e o poder negocial dos sindicatos, para se «escravizar» e tornar a massa dos trabalhadores amorfa e acrítica, por forma a sujeitar-se a trabalhar por ordenados miseráveis e no limiar da sobrevivência, tendência que é cada vez mais evidente, nomeadamente no sul da Europa e no resto do mundo, onde a democracia não existe (ou, se existe, é apenas aparente, no sentido em que os cidadãos não têm poder reivindicativo, mas isso daria lugar a outra crónica), é preciso retirar o acesso à educação a uma classe que adquiriu privilégios inauditos e que são inadmissíveis para as elites brasileiras, constituindo um ataque a uma sociedade classista. Porque, para preservar os privilégios das classes ricas é preciso bloquear o acesso ao negro e ao favelado ao ensino superior, sabotando igualmente o seu poder reivindicativo na arena política.

Ora, Lula é um símbolo vivo, um ícone, um mito da América Latina, que consubstancia exactamente tudo isso. Pobre, sem curso superior, vindo do movimento dos «sem terra», comporta consigo tudo aquilo que a elite brasileira dominante abomina e teme. Lula é o presidente do povo, e basta ver o apoio permanente do povo que o tem acompanhado ao longo destes dois dias, para ver como isso é evidente. Barricado no Sindicato dos Metalúrgicos, rodeado do «seu» povo, que não arreda pé do sindicato, não obstante já ter sido cortada a água nas instalações, é o símbolo vivo desse poder visceral e de uma carga messiânica que está bem presente no imaginário político brasileiro, desde o século XVIII (de origem portuguesa e trazido para o Brasil pelos jesuítas e pelo Padre António Vieira, tendo inspirado dezenas de rebeliões e motins, desde o século XIX). Negar isso é tapar o sol com uma peneira.

Nenhum líder político brasileiro arrasta multidões como Lula, cujos discursos deixam o povo em delírio. Prender Lula, ainda por cima sem provas que o justifiquem, é o acto mais perigoso que o poder político poderia ter feito. Criou um mártir e a história é fértil em exemplos de martírios e no efeito dos seus resultados a médio prazo, pelo menos. O significado político da prisão de Lula é exactamente o de um assassinato político. Mas Lula não é Marielle Franco, que encheu as ruas do Brasil e comoveu o mundo. É muito mais do que isso. É a esperança viva do povo brasileiro. Não aquele que hoje vive narcotizado pela sociedade de consumo e é um produto de uma cosmopolitização e de uma globalização do país. Mas a esperança das pessoas que não têm nada a perder ou que já perderam tudo, dos que não têm senão a vida e a força dos seus braços, dos que sonham a revolução. Prender Lula, e impedi-lo assim de se candidatar às próximas eleições, é uma tragédia e o Brasil pagará isso bem caro. Porque são sempre os que nada têm a perder que combatem nas ruas e não têm medo de morrer para defender os seus ideais.

Tanto quanto me foi dado a ver, nesses dois dias que acompanhei a situação, evitando a nefasta Globo e o seu péssimo guião telenovelesco (v. o artigo de Marcia Tiburi sobre o assunto). Não, eu não vi um homem rendido, não obstante a ordem de prisão, cuja sanha vingativa expôs o ridículo de um juiz incapaz de condenar verdadeiros corruptos como Aécio Neves e Temer, mostrando bem o lado da barricada onde se colocou. Nem vi um homem rendido nem vi um povo rendido ou amolecido, eu vi o fermento de uma revolução em curso. Prender Lula é um erro tremendo, para quem contava ter o Brasil na mão. Pois o Brasil vai acordar e perceber que as prisões políticas andam de mãos dadas com os assassinatos, com o silêncio forçado, com a perda dos privilégios, com a invasão do Brasil pelo exército — que já fala em passar à política, a coberto da impunidade dos últimos dias — com o regresso dos desaparecidos e dos «eclipsados» da história. Os vencidos da história nunca perdoaram nem perdoarão, é só uma questão de tempo. O tempo do despertar. O assassinato político de Lula pode ajudar ao despertar, ao contrário do que se espera.

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