Rotas da Lusofonia

Há quem não goste do termo Lusofonia e seja até muito crítico, achando que ele traz em si inscrito o traço do colonialismo e de uma suposta «superioridade», porventura tendo em si, e de forma velada, essa herança um tanto amaldiçoada, uma ferida da nossa história, mas não mais dolorosa do que todas as outras culturas, como a francesa, inglesa ou espanhola. Quando falamos de lusofonia, da  identidade cultural partilhada por oito países, unidos por um passado vivido em comum e por uma língua que, enriquecida na sua diversidade, se reconhece como una. Estes países, com os respectivos núcleos de emigrantes, fazem do idioma português uma das línguas mais faladas do mundo, constituindo uma comunidade de cerca de duzentos e quarenta milhões de pessoas. A Lusofonia pode ser também a plataforma a partir da qual os povos que hoje falam português se poderão aproximar e ampliar o âmbito e a acção da CPLP.

Às vezes comparam-se as cicatrizes, mas o que se torna cada vez mais importante é, não reavivar essas marcas dolorosas do passado, mas activar uma potencial unidade e as possibilidades de estabelecer passagens e pontes entre os vários países da lusofonia, em utópico desejo de superação. E, enquanto continuarmos de costas voltadas entre nós, não é possível restabelecer nenhuma espécie de diálogo ou de sonho possível.

Detenhamo-nos, ao fim de tantos anos de história comum, no que somos hoje e na relação que desejamos construir com os outros, se ansiamos (ou não) por vivificar e intensificar os laços criados. E é apenas o que importa: esta herança comum plasmada na  língua portuguesa. O que fazer disso? Que responsabilidade é a nossa perante os outros?

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O escritor Almeida Faria

Há alguns dias, numa outra mesa do Printemps Littéraire Brésilien* que teve lugar na Universidade de Luxemburgo, o escritor Almeida Faria, um dos convidados, referiu um aspecto deveras curioso. Os brasileiros dizem que falam o português, enquanto nós dizemos que eles falam a língua brasileira e não a língua portuguesa usada pelo Brasil como nossa. Não sei como se passa em África, de herança mais recente e provavelmente mas dolorosa. Mas o facto de o Brasil assumir essa frontalidade do uso da língua portuguesa reflecte bem que nela reconhecem a língua materna, sem complexos. Do mesmo modo que nós deveríamos aceitar esse facto, sem preconceitos, sejam eles de que ordem forem. Dizer que a sintaxe do português brasileiro mostra apenas o modo como a língua possui uma natureza plástica e moldável, como está viva e respira. No Brasil, o português canta. E a capacidade de reinvenção da linguagem, na escrita e na arte, na música, é uma evidência,  no modo como a metamorfose se instala na sua origem, provavelmente trazendo novas ressonâncias, novos sentidos e musicalidades outras.

Digamos que isso não é o mais ínfimo ou o menos importante dos aspectos. Se Pessoa se lê de formas diferentes, é ainda, no entanto, a sua alma que ressoa, a sua língua, tal como o é em Camões ou qualquer outro autor, de um lado ou de outro. Resta-nos a humildade (este é o gesto decente, o do reconhecimento) das vozes dos escritores, ficcionistas e poetas, de vários países, todos eles grandiosos, todos eles portadores de um espírito e de um tempo, de uma poética lavrando-se nesta terreno fértil da língua. E não poderia ser de outro modo, senão o de trazermos em nós memórias de outros tempos, de autores que nos antecederam e aqui chegaram, num solo comum. Porque a língua materna é a do canto da nossa mãe, em que ouvimos as primeiras histórias, as primeiras palavras, cheia de ressonâncias afectivas. Ao olharmos para a língua do outro e, se a reconhecemos como outra, mais não fazemos do que cavar fossos, barreiras e nada construiremos, apenas rivalidades mesquinhas.

 

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Sessão na Universidade de Luxemburgo, coordenada por Adília Carvalho (Leitora do Instituto Camões e Professora na Universidade de Luxemburgo) e Leonardo Tonus (Professor na Universidade da Sorbonne).

Dirão que precisamos de tempo. Porém, nós precisamos de olhar para o outro sem suspeita, partilhando, discutindo, confrontando, e neste momento todas as portas se abrem para esse diálogo e temos de decidir se queremos ou não franquear essa passagem. Há um trabalho que está a ser feito: editoras, de um lado e de outro, a divulgarem autores, publicações online (como a Revista Caliban, a Revista Pessoa, Enfermaria 6, etc.) a trabalhar com autores portugueses, africanos e brasileiros. Há, neste momento, o Prémio Oceanos, por enquanto entre Portugal e o Brasil, que prestigia obras de um lado e de outro. Com pouco e devagarinho se vão lançando essas ligações preciosas e necessárias, em nome de uma cultura e de uma língua que é nossa.

*Evento coordenado por Leonardo Tonus.

Texto apresentado como parte do Congresso de Belmonte.

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2 thoughts on “Rotas da Lusofonia

  1. Alberto Cuddel

    Muito obrigado por me ter proporcionado esta leitura, sendo eu um natural e habitante deste “amaldiçoado colonizador”, e ao contrario de muitos dos meu compatriotas congratulo-me por esta variedade linguística que mantem a nossa língua comum em perfeita evolução. Mais uma vez Obrigado!

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