Nossa tradição barroca é repaginada hoje, nossos artistas se tornam “catadores de ruínas”

Professor, tradutor e ensaísta, Marcio Seligmann-Silva cruza fronteiras entre a história, a filosofia, as artes e a teoria literária. É na sua obra que reconhecemos essa interdisciplinaridade que move o seu pensamento, não apenas como inspiração, mas essencialmente como matriz. Foi na tradução e na história que “tropeçou” no pensamento de Walter Benjamin, que marcou indelevelmente o seu próprio pensamento, indo das artes à literatura, aos estudos mais recentes sobre a memória e sobre o seu próprio legado familiar.

Se há um conceito que se adeque à sua obra, ele é o de interdisciplinaridade. Sendo historiador, transita entre a história, a teoria da crítica, a estética, ao longo da sua vasta obra. Se começou como historiador, na PUC, é, no entanto, na literatura que sobressai, com a sua obra Ler o Livro do Mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (1999). O que o conduziu da história à literatura?

Sou formado em História e, apesar de ter feito meus estudos de pós-graduação em Letras e de, há 16 anos, ser professor de Teoria Literária e Literatura Comparada, a história permaneceu para mim a minha disciplina de base. Isso porque nunca abdiquei da convicção de que o pensamento deve ser calcado na história e a reflexão sobre a estética e a cultura de um modo geral devem ser encaradas como parte de um processo de construção e embate mnemônico. Tudo é memória e as ditas ciências humanas são técnicas de rememoração crítica, enraizadas nos problemas de nosso presente. A interdisciplinaridade é o corolário dessa concepção. Ela foi desenvolvida já no curso de História sobretudo com a leitura das obras de Walter Benjamin. Esse autor desenvolveu um trabalho que não pode ser contido em nenhuma disciplina e sua “indisciplina” sempre vi como uma de suas forças. De filósofo a germanista, romanista e teórico das artes, Benjamin nunca pode ser definido a partir de uma só disciplina. A prioridade do momento material, determinado por seu materialismo histórico, o impediu de ser um filósofo convencional.

Paralelamente à sua actividade de investigação e actividade docente, o seu percurso foi marcado pela tradução. Em 1993, ainda antes da publicação de Ler o Livro do Mundo, traduziu a obra de Walter Benjamin, O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão, bem como a obra de Lessing, Laocoonte ou sobre as fronteiras da Pintura e da Poesia. Foi essa tarefa de tradutor que o levou até ao pensamento de Walter Benjamin?

Na verdade a tradução serviu de método de leitura mais detida e crítica. Primeiro Benjamin serviu de tábua de salvação em uma época em que as Humanas no Brasil, em meio à ditadura militar, estavam marcadas por uma exigência combativa que a levou ao marxismo Mas esse marxismo não necessariamente permitia uma liberdade metodológica como eu via na obra benjaminiana. Benjamin e seu percurso em direção à teoria da cultura me inspirou. Sua obra, assim como a obra de Kafka, nasceu de uma urgência. Essa urgência era fruto de seu engajamento com seu mundo. Também na América Latina daquela época, os anos 1980, existia essa pressão do presente. A resposta criativa e crítica era aquela capaz de desmontar o fascismo e não a que simplesmente colocava esse fascismo de ponta-cabeça sem o desconstruir. Exigia-se um certo desprendimento, para se aceitar a força crítica e mesmo revolucionária das artes e da análise estética. A tradução das obras de Benjamin, missão que continuo até hoje, faz parte da aposta nesse modo de pensar. Era necessária a tradução do doutorado de Benjamin para que o público leitor dele pudesse conhecer essa obra fundamental na construção de sua teoria e prática crítica. Depois disso já fiz a revisão de tradução de dois dos volumes das obras escolhidas de Benjamin publicadas pela editora Brasiliense e estou organizando para a editora L&PM, de Porto Alegre, uma série de novas traduções desse autor. A primeira foi a do ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, que publiquei em português no Brasil pela primeira vez nas suas quatro versões e com os fragmentos que ainda não tinham tradução no Brasil. Trata-se do texto mais lido de Benjamin e é importante ter uma boa edição dele. Depois organizei uma coletânea dos textos de Benjamin sobre arquitetura e cidades, também para a L&PM, que está no prelo.

Walter Benjamin
Noto que existe um trabalho intenso no Brasil sobre os textos de Benjamin, havendo espaço para várias traduções do autor. Relembro, não apenas a tradução de Willi Bolle, da obra O Livro das Passagens(já com alguns anos), mas também a tradução que Jeanne-Marie Gagnebin tem em curso. E a tradução do germanista João Barrento, na editora Autêntica. Elas não colidem? Há espaço para todas? Falo nisso porque em Portugal a tradução da obra de Benjamin parou…

Na verdade acho que ainda existe no Brasil, de um modo geral, um apego às edições da Brasiliense, que foram iniciadas com as traduções de Sérgio Paulo Rouanet, nos anos 1980 (Obras escolhidas). Essas obras de Benjamin (quatro volumes, incluindo o Origem do drama barroco alemão) são emblemáticas, pois de fato reúnem uma mostra ampla da obra de Benjamin e possuem uma tradução competente. Mas não podemos esquecer que o universo acadêmico brasileiro é enorme, e cresceu de modo exponencial nos últimos 10 anos. Temos cerca de 8 milhões de estudantes universitários. O outro lado da moeda é: temos muitas cópias piratas das obras de Benjamin e de outros clássicos que circulam pela Internet. Evidentemente isso representa um limite para as editoras e um desincentivo a novas traduções. De qualquer modo, ainda existe muita coisa de Benjamin para ser traduzida em português. Minha ideia é trabalhar no sentido de tradução desses inéditos agora, se não como tradutor, por falta de tempo, ao menos como organizador de coletâneas. Mas é verdade que as editoras no Brasil, agora em uma crise econômica profunda, também puseram novas publicações em stand-by. Vamos ver até quando.

O que o atraiu nos estudos sobre o Pré-Romantismo? Uma visão do mundo, marcada pela ruptura relativamente ao pensamento sistemático e totalizador? A sua estética do fragmento?

Quando comecei a ler Friedrich Schlegel e Novalis iniciei-me também na leitura dos também esotéricos Hamann (o “mago do norte”) e Johann Wilhelm Ritter. Atraia-me o antikantismo radical desses autores e seu ar de revolta. Não por acaso Philippe Lacoue-Labarthe (autor que também traduzi) denominou o grupo dos primeiro-românticos alemães de primeiro movimento de vanguarda. Eles anteciparam as vanguardas históricas do século XX na visão crítica do conhecimento sistemático, construído sob a batuta de uma razão totalizante e totalitária. Eles salvaram a imaginação como a rainha das faculdades e praticaram a “indisciplina” de modo rigoroso. Daí advém a centralidade no pensamento deles do “Witz” e de sua pulsão analógica, que junta de modo violento o que antes estava separado, criando curto-circuitos históricos e no saber, em oposição à disciplina do “Urteil”, o juízo que separa, isola e aliena. O “sistema de fragmentos” dos primeiro-românticos é uma decorrência dessa desconstrução da razão e do princípio de não-contradição. Eles também perceberam que para criticar a razão (e nesse sentido eles foram kantianos: fizeram a seu modo a crítica da razão) eles teriam que quebrar seu logocentrismo que se espelhava em um nacionalismo. Os primeiro-românticos, em oposição ao romantismo posterior, são grandes praticantes e teóricos da tradução de um ponto de vista não nacionalista. Eles perceberam, com Goethe, que a literatura nacional é letra morta se não for pensada em uma rede de intertextualidade que rompe com a tutela do nacional e do “próprio”. Com eles nasceu a moderna teoria da tradução e não por acaso Benjamin, leitor desses autores e responsável pela revalorização de suas obras, também vai ser autor-chave nessa moderna teoria da tradução que não vê mais essa atividade como algo instrumental e mecânico.

Na década de 80 houve uma recepção intensa da obra da escola de Frankfurt no Brasil, do pensamento de Adorno e de Walter Benjamin, algo que só posteriormente aconteceu em Portugal. O que contribuiu para isso? Penso nas traduções de Sérgio Paulo Rouanet, mas também em autores como Haroldo de Campos, Leandro Konder. Em que medida a leitura e o contacto com estes pensadores foi fundamental para a sua formação?

Haroldo de Campos
Como mencionei, esses autores foram sendo introduzidos no Brasil já desde os anos 1960 dentro de uma cultura universitária ávida por pensamento crítico, que precisava se armar teoricamente para entender e criticar a ditadura civil-militar (1964–1985) que foi especialmente violenta contra os intelectuais, os trabalhadores e camponeses. Nesse contexto, esses autores que você menciona foram fundamentais, sobretudo Rouanet, com as traduções que fez para a editora Brasiliense, uma das principais editoras na época, para as ciências humanas no Brasil, e o Haroldo de Campos, que vai desenvolver a sua teoria da cultura, da literatura e da tradução a partir de um profundo e erudito diálogo com a obra de Benjamin. Campos não só construiu sua teoria e prática da tradução a partir de um erudito diálogo com a obra de Benjamin, como também foi o primeiro a fazer uma série de críticas construtivas a essa teoria, transformando-a e eliminando dela certos teologemas que se tornaram difíceis de se aceitar hoje, como o dogma da não tradutibilidade dos textos traduzidos. Haroldo violou essa lei, traduzindo para o português as traduções que Hölderlin fez de Sófocles. Justamente uma tradução modelar para Benjamin enquanto trabalho entre-línguas, mas que, devido a sua tendência à sabotagem do momento comunicativo da linguagem, deixaria de ser passível de ser traduzida. Mas é importante ver que Benjamin desde o início foi recebido no Brasil por pensadores de diversas disciplinas: filosofia, sociologia, letras, escola de artes e de comunicação. Ele significava a possibilidade de um pensamento crítico, em diálogo com o marxismo, capaz de responder também às demandas revolucionárias e, porque não, de redenção, daquela época.

O filósofo Michael Löwy não veio reavivar essa dimensão política e revolucionária, na situação política do actual Brasil? Com as suas obras publicadas recentemente na editora Boitempo, que faz uma excelente divulgação do seu trabalho? Como vê essa actualidade das questões da violência, estado de excepção, que o mundo vive hoje? A questão da própria história e a ideia de catástrofe, por exemplo, faz sentido (re)colocá-la hoje?

Michael Löwy
Michel Löwy também é parte dessa primeira geração de leitores de Benjamin no Brasil e continua uma voz importante na atualização daquele pensador. Ele, por exemplo, de modo original, sempre buscou articular o elemento revolucionário dos textos de Benjamin, seu redencionismo, com a teologia da libertação. Eu particularmente não segui essa leitura, mas com Löwy também acentuou o caráter romântico da obra de Benjamin, ainda que eu acentue mais essa mencionada relação com o primeiro-romantismo. Agora com relação aos conceitos benjaminiano de “estado de exceção” e de “catástrofe” não resta dúvidas de que eles constantemente voltam a nossa ordem do dia. Os países periféricos têm a tendência a expressar de modo mais claro certos conceitos da teoria política. Nesse sentido, o conceito de “estado de exceção” se torna urgente hoje, estou falando em maio de 2016, quando se articula (mais) um golpe em Brasília contra um presidente legitimamente eleito. Benjamin, pensando no papel do príncipe na Contrarreforma, desenvolve sua teoria do “estado de exceção” como jogo entre ditadura e caos: situação muito comparável a nossa no Brasil hoje. O Príncipe fora investido na Contrarreforma de poderes totais, pois a sua singular figura era a resposta à visão da História como Ausnahmezustand (Estado de Exceção). Benjamin escreve: “Quem reina já está desde o início destinado a exercer poderes ditatoriais, num Estado de Exceção, quando este é provocado por guerras, revoltas ou outras catástrofes”. Ou seja, o “estado de exceção” é um conceito correlato ao de catástrofe e ambos são atuais hoje. A suspensão dos direitos, que vive em estado de iminência em toda democracia, é ato, realidade cotidiana, no Brasil. Isso vale também para a interpretação que Benjamin faz das obras barrocas. Para ele, o homem barroco “está obcecado pela ideia de catástrofe, como antítese ao ideal histórico da Restauração. É sobre esta antítese que se constrói a teoria do Estado de Exceção. (…) Se o homem religioso do Barroco adere tanto ao mundo, é porque se sente arrastado com ele em direção à catarata. O Barroco não conhece nenhuma escatologia; o que existe, por si mesmo, é uma dinâmica que junta e exalta todas as coisas terrenas, antes que elas sejam entregues à consumação”. É essa dinâmica que está na base da alegoria barroca como exercício de ressignificar infinitamente um mundo desencantado de qualquer sentido totalizante. Essa análise é fundamental para entendermos a nossa atual produção artística e literária. Nossa tradição barroca é repaginada hoje e nossos artistas se tornam “catadores de ruínas” que procuram ressignificar nosso teatro político de modo crítico e muitas vezes revolucionário. E poderia fazer a mesma leitura atualizante com relação à teoria do “estado de exceção” que Benjamin desenvolve nas suas teses “Sobre o conceito da história”, quando afirma, como lemos em seus fragmentos do espólio, ideias como: “A catástrofe [deve ser vista] como o continuum da história”, ou ainda, de modo seco: “A catástrofe é o progresso, o progresso é a catástrofe”. Em suma, ele dá uma “definição do presente como catástrofe” que é uma descrição viva do que temos diante de nossos olhos. No Brasil as alegorias tendem à literalidade do real. Isso afeta de modo profundo a linguagem.

Entre os muitos temas da sua obra, Marcio trabalhou (e trabalha) com a ideia da reprodutibilidade técnica e o impacto da técnica na alteração das condições de produção da arte e da sua própria recepção. Que entrada faz na sua investigação um autor como Vilém Flusser, que muitas vezes aproxima de Benjamin?

A teoria da arte de Benjamin, apesar de muito lida, já que seu ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, como disse, é seu ensaio mais traduzido e mais lido, ainda não foi nem de longe esgotada. Muitas de suas ideias centrais, que me parecem da maior importância, não foram incorporadas a nossa visão das artes. A noção de recepção dispersa/distraída, por exemplo, é fundamental para se entender o que aconteceu com as obras de arte desde os anos 1960 em sua tendência para a performance, a instalação e o efêmero. A recepção das obras de arte deixa de ter a tutela dos olhos e se torna teatral, conquista o corpo. Ao colocar a arquitetura como modalidade artística central, ao lado do cinema, para refletir sobre as artes, Benjamin revolucionou nossa visão do estético. Além disso, tendemos a esquecer que ele articulou sua teoria da reprodutibilidade técnica, desenvolvida a partir da fotografia, como um correlato do fim da tradição. Ele fala que a reprodução técnica não só implicou o abandono da noção de autenticidade, mas que representou um “abalo violento na tradição”. O significado desse corte com a tradição, por exemplo, é bem mais profundo do que o que se escreveu sobre a pós-modernidade. Benjamin destaca que o testemunho é abalado com o fim da autenticidade. A fotografia é uma técnica que, ao contrário do que se pensava, coloca em suspenso a ideia de comprovação: com a reprodutibilidade técnica somos lançados na pós-história. Assim como a narrativa foi diagnosticada como tendo sido impossibilitada na modernidade (devido a seu ritmo violento e onipresença de choques e interrupções), do mesmo modo o testemunho é posto em questão. Torna-se nossa tarefa paradoxal colher os testemunhos em uma era que abandonou a ideia de lastro histórico e de verdade. Além disso, a segunda versão desse ensaio sobre a obra de arte traz uma teoria ainda pouco estudada de uma “segunda técnica” que seria reconciliadora. Ela significaria não a destruição da natureza e um sacrifício da vida, características da “primeira técnica”, mas sim um armistício com a natureza e a construção de uma sociedade pós-trabalho e igualitária. Se para Benjamin “o ideal da vivência do choque é a catástrofe”, para ele também o ideal da “primeira técnica” são as armas de destruição em massa. Benjamin reatualiza as utopias e os sonhos redencionistas a partir de uma teoria da técnica. Aqui procuro justamente articular a obra de Benjamin e sua teoria das artes como técnica com a visão de mundo de Vilém Flusser.

Vilém Flusser

Esse filósofo nascido em Praga em 1920 e que, fugindo do nazismo, acabou virando um paulista, foi também uma leitor de primeira hora de Benjamin. Não podemos esquecer que ele se correspondeu por anos com Sérgio Paulo Rouanet. A teoria da fotografia de Flusser e sobretudo a sua teoria das imagens técnicas, que possui um claro fundo utópico e redencionista, dão continuidade de modo muito sofisticado à ideias de Benjamin. Flusser, além de teórico da fotografia e da técnica, também foi um estudioso do fim da história, da tradução, da linguagem, da moda, da literatura, da escritura, do judaísmo… ou seja, seu campo de interesses se sobrepõe de modo impressionante ao de Benjamin. Ambos foram muito criativos em suas leituras do século XX e colocar uma obra ao lado da outra, para ver suas semelhanças e diferenças, é um importante exercício crítico e de atualização dos trabalhos desses autores. Ambos se colocam como fontes incontornáveis para pensarmos criticamente nossa era que se torna, em todas as partes do planeta, marcada pelo avanço de pensamentos fascistas.

Os seus últimos trabalhos (se não estou equivocada) têm sido mais voltados para a ideia de memória. Porquê o tema? Escolha pessoal, de objecto ou ambas as coisas?

Na verdade eu acho que sempre estive ligado ao tema da memória. Justamente essa minha origem na História já mostra esse meu olhar voltado preferencialmente para o passado. Nesse ponto sou fiel aos estóicos e epicuristas: prefiro voltar meu olhar para o passado e me recolher nessa leitura (colhendo meu néctar para fazer o meu mel) a me dispersar na incerteza angustiante do futuro. Meu interesse por Benjamin com certeza também vem daí, lembremos apenas da última de suas teses “Sobre o conceito da história”. Durante meu curso de História o que me fascinava era a disciplina teoria da história. Sempre me interessei pela história da historiografia e pela memória em seus aspectos rituais e antropológicos. Autores da Escola dos Annales, Foucault, Frances Yates e Mircea Eliade antecederam minhas lituras de Benjamin. Depois somaram-se autores como Derrida, Paul Ricoeur, Hannah Arendt, Eric Hobsbawm, Jean-Pierre Vernant, Reinhart Koselleck, François Hartog, Hayden White, Yosef Yerushalmi, Jan e Aleida Assmann, esses já dentro dos atuais estudos de memória, uma área recente e em expansão. Essa área nasceu justamente do abalo da tradição que Benjamin já descrevera e da dificuldade de se testemunhar nossas catástrofes. Ela se volta para aquilo que está talvez não desaparecendo totalmente, mas decerto transformando-se de modo veloz na era das próteses de memória. O desafio, para mim, é pensar hoje o testemunho na era das (pós- e reiteradas) catástrofes e dos gadjets. Sem um conceito robusto de testemunho histórico, corremos o risco de sucumbir a uma terrível amnésia estultificante. Para além desse aspecto digamos intelectual, meu interesse pela memória também deriva provavelmente de minha história pessoal: como filho de uma mãe judia que escapou em 1939 de Berlim, tendo perdido meus bisavós em Auschwitz, por um lado, e tendo meu pai como um professor de Antropologia que foi caçado pela ditadura militar no Brasil em 1968, por outro, digamos que eu tinha, “de berço”, um pendão para estudar a memória. A virada subjetivista do pensamento é algo que soletro em primeira pessoa sem problemas. Também essa virada pode ser vista como um paradoxal ganho a partir das catástrofes que pontuaram o século XX. O abalo da tradição serviu também para romper com as últimas estruturas do positivismo, que ainda sustentavam a separação estanque (ideológica e, muitas vezes, hipócrita) entre o saber e o seu sujeito. O testemunho é justamente um conceito que permite salvar a complexidade dessa relação entre o sujeito e o mundo. Não por acaso esse conceito deve ser pensado ao lado da noção psicanalítica de trauma.

Nos últimos anos, no Brasil, foi criada a “Comissão Nacional da Verdade”, que procurou fazer o levantamento dos que pereceram às mãos dos militares da ditadura. Mas não há, ainda, consequências desse trabalho, não há torturadores acusados e parece que se evoca agora o nome de alguns torturadores, numa época em que o Brasil parecia ter atingido a maioridade democrática, como encara essa construção da memória e a possibilidade de salvar as vítimas?

Desaparecidos políticos durante a ditadura brasileira dos militares

Bom, antes de mais nada não existe salvação para as vítimas. O que pode-se e deve-se fazer é um trabalho político de memória. Trata-se de lutar por uma memória crítica e ativa. O relatório da Comissão Nacional da Verdade (2012–2014), que deveria ser a pedra de toque de uma nova era dos direitos humanos no Brasil, foi utilizado pelo governo e pela mídia como uma pedra fúnebre, uma tentativa de se dar um ponto final a esse tema. Ao invés de significar, como ocorreu, por exemplo, no Chile e na Argentina, um primeiro passo para se aprofundar as investigações sobre a verdade da violência da era da ditadura, serviu como um abjeto phármakon, um encobrimento, um filtro visando o olvido. Nossa lei de (auto)anistia, de 1979, ainda é válida e foi ratificada em 2010 pelo nosso Supremo Tribunal Federal. A memória dos desaparecidos e das demais vítimas da época da ditadura permanece ainda hoje uma questão privada. Não se tornou uma questão pública, política. Seus testemunhos não são escutados. Essa memória do mal e correlata luta pela verdade não foram incorporadas às pautas dos partidos, como ocorre em boa parte do mundo. Essa ausência de consciência de uma política dos direitos humanos voltada para os crimes contra a humanidade permite que, como aconteceu no mês passado (abril de 2016), um deputado representante dos torturadores (sim, existe tal coisa no Brasil) votasse pelo impedimento da presidente em nome de um dos seus mais conhecidos e infames colegas de profissão. Nossos torturadores são funcionários públicos, figuras públicas e notórias. Essa é a face terrível do estado de exceção que vivemos quotidianamente. Já os milhares de assassinados pela ditadura sequer são conhecidos, não sabemos seus nomes e muito menos como foram vitimados. A Comissão não conseguiu avançar nesse levantamento, pois ela foi obstruída pelos políticos e militares. Ela acabou sendo apenas algo, como dizemos aqui, “para inglês ver”. Ela se iniciou por conta de uma condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que exigiu a busca da verdade com relação aos crimes cometidos durante a ditadura, e acabou como uma farsa (pese a idoneidade dos membros dessa comissão). Ou seja, nunca essa Comissão teve uma relação profunda com a nossa cultura política. Nossas praças e estradas ainda homenageiam os nomes dos ditadores de 1964–1985, algo impensável no resto da América Latina. Nossa cultura da memória ainda é arcaica, está no século XIX e homenageia figuras ditatoriais e sanguinárias. Essa autocondenação ao esquecimento e apagamento da memória da violência social está na origem da terrível continuidade de nossa história de violência. Não existe, por exemplo, uma consciência da brutalidade que foi e é até hoje imposta às populações indígenas e de afrodescendentes. O genocídio indígena continua no Brasil em marcha acelerada e a maioria da população brasileira não se importa com isso. Calcula-se que mais de vinte porcento dos homicídios no Brasil são praticados pelas nossas forças policiais e a maioria dessas vítimas são jovens rapazes, negros e pobres, das periferias. A visão ética de Benjamin, que via a história do ponto de vista dos espezinhados, precisa ser construída no Brasil. Escritores, artistas e críticos têm se empenhado nesse sentido, mas a luta tem sido basicamente frustrante. E se olharmos para o que vem agora, não temos motivos para otimismo.

O Brasil está a viver uma convulsão política enorme e diria, mesmo, perigosa. Reactivaram-se certas forças que pareciam apaziguadas durante os governos anteriores. O que acha que acontece no Brasil? Algo semelhante ao que está a passar-se em toda a Europa e nos Estados Unidos?

Os anos de governo do PT (2003–2016) representaram uma profunda mudança no panorama econômico brasileiro. Não há dúvidas que uma nova classe média surgiu e que a pobreza foi reduzida. Mas as reformas que levaram a essas melhorias não vieram ao lado de reformas políticas. Nosso sistema político continua a favorecer os conchavos e a corrupção. O PT aliou-se ao PMDB e outros partidos que têm uma tradição de pouca ética e que só se importam com o poder a qualquer custo. O PT se contaminou com esse tipo de postura e, com o fim da curva ascendente da economia, desarticulou-se essa base que sustentou o PT. O pouco que ainda tinha de “esquerda” nesse partido (seus programas sociais) é agora estigmatizado pelo movimento de direita que ascende e procura tomar o poder, como sendo a origem de todos os males do país. Esse movimento conservador traz de volta um antigo e quase defunto anticomunismo, um culto da família tradicional e das instituições ligadas às diversas igrejas, sobretudo protestantes. No Brasil diz-se que o nosso Congresso nacional está dominado pela bancada da BBB: boi (ruralistas), bala (policiais, grupos que fazem proselitismo a favor da violência nas periferias e representantes da indústria bélica), bíblia (todos os tipos de fundamentalistas cristãos). Esses nossos representantes na verdade significam o fim da política, já que visam apenas seus interesses privados e não possuem nenhuma noção da res pública: não são republicanos, mas candidatos a tiranos ou apoiam tiranetes. Eles votam em nome de seus familiares e amigos, não em nome de ideais e da melhoria efetiva das condições de vida da população. Certamente esse movimento de privatização e diluição do político transcende nossas fronteiras, é geral, mas por aqui acontece de modo mais descarado. O neoliberalismo levou, dentro de sua lógica do enriquecimento de poucos e pauperização da maioria, a esse beco sem saída. A empatia se dá apenas com relação aos muito próximos, os demais podem, literalmente, afundar no mar. A política deve ser reinventada. Precisamos sair às ruas, ocupar o espaço público, abandonado pela pós-política, ocupar também os espaços virtuais. O Benjamin de seu ensaio “O autor como produtor”, pode nos inspirar nesse movimento.

Que Brasil é este, o que se adivinha? O do progresso ou o do retrocesso? Refiro-me aos aspectos políticos, mas também a todas as consequências do que foram as conquistas de Lula e de Dilma na retirada do Brasil do “mapa da fome”, no desenvolvimento da educação, etc.

Certamente o caminho que o Brasil está trilhando agora é o do retrocesso das reformas sociais. Os agentes do mercado comemoram, é claro. As ações da Bolsa sobem e o real se fortalecem com a queda da Dilma. É difícil fazer previsões nesse cenário instável, mas está claro que somos regidos por essa lógica do mercado, que acelera a concentração de renda e produz mais marginalização e precarização do trabalho e da vida. Caminhamos em passos largos para essa precarização. O que resta saber é quanto as forças de oposição a esse processo vão ser fortes para, se não impedir completamente, ao menos evitar ao máximo que essa precarização mande para os ares décadas de conquistas de direitos dos trabalhadores das cidades e do campo. O discurso da globalização manda que precarizemos as relações de trabalho em nome da competitividade. Essa precarização já atingiu as Universidades, com os funcionários sendo mais e mais terceirizados e, tudo leva a crer, em breve não teremos mais concursos para professor, mas apenas vagas para (eternos) “substitutos”. No governo Lula as Universidades Federais tiveram uma grande expansão. O desafio agora é o de manter a qualidade dessa universidade alargada e que está atingindo camadas da população que antes estavam excluídas do ensino superior. Certamente o que adentramos é um período de polarização e de lutas. O pior dos cenários seria aquele no qual sequer teríamos a resistência. Temos, na Universidade e fora dela, que semear essa luta, caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos supérfluos em uma sociedade dominada pelo mercado, na qual o pensamento crítico não tem nenhum espaço ou sentido. Sintomaticamente, há algumas semanas o governador de São Paulo declarou em reunião com seus secretários que as disciplinas das humanidades são algo próximo de inúteis. Não deveríamos nos chocar com esse tipo de declaração que apenas explicita a lógica de nosso sistema económico e social. Devemos, isso sim, lutar para que essa lógica seja desmontada e deixe de colonizar e dominar nossa política capturada e reduzida à gestão do capital.

Entrevista a ser publicada brevemente nos “Cadernos Benjaminianos”.

Leia o magnífico texto de Gustavo Silveira Ribeiro sobre este autor.

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