Para o meu pai

Talvez seja só isto. Uma mão que anoitece os dias e que impede a luz de permanecer. Não teremos senão o chão que pisamos, o amor que nos é concedido, o quinhão permitido. E lembro-me, recordo-me sempre dos momentos que antecediam a noite e tu chegavas, mas antes de ti chegava a alegria. O riso malandro, o sarcasmo com que a vida te presenteava, esse modo de acender a alegria onde ela não há. Porque tudo sobrava, desde o cheiro a maresia em frente à casa que foi de um Verão, apenas, na praia deserta. Onde o vento da tarde era abrigo da nossa infância. Não me lembro se era manhã ou tarde, era sempre o tempo sem roldanas. Não te sabia dizer certas coisas, como nunca as disse, mas fazias parte de mim, como a areia ou o vento. Como um sonho de que nos esquecemos. Lentamente. E chamo-te, como o fazia, grito até me ouvires, ainda que não saia um único som. Chamo-te porque não saberia fazer de outro modo, o que sempre aprendi, gestos em lugar de palavras. Olhar, em vez de fala. Porque nele tudo se guarda, mesmo que a noite caia, sonhamos de olhos abertos e as imagens descem sobre as nossas pálpebras. E voltamos ao mar, ao dia claro. Volto a chamar-te, chega-me de ti a gargalhada traquina, e dizes-me que alguma coisa devo ter feito, para te chamar assim. Prefiro sonhar-te assim, no tempo em que as pernas nos levavam para longe e o instinto nos fazia estar atentos ao dealbar do dia, ao passo do animal, ao levantar do voo dos flamingos. Tudo o que vimos e não foi pouco, a beleza fulminante e que desespera, agarrando-se à pele e às lembranças, tocando-nos. Tudo é pó, tudo é memória.

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