Não fosse a ponta do iceberg não seria grave

A propósito de uma crónica de Patrícia Reis no Blog Delito de Opinião, em que a escritora manifestava a sua indignação pelo facto de não ter sido escolhida uma única mulher, na lista dos cronistas de vários órgãos de comunicação, para falar de 2017, vieram à liça alguns despiques. Parece que não só achavam o facto normal (pois não existem mulheres de destaque em Portugal e dignas de figurar nessa lista de eleitos) como ainda achavam estranha a indignação por parte das mulheres.

A minha ingenuidade leva-me sempre a um optimismo indesculpável (dada a minha idade). As conquistas inequívocas, em todos os campos, a todos os níveis, não só da paridade entre os géneros, mas também da inclusão social das minorias, a luta pela defesa dos direitos, por parte das mais diversas organizações, desde os direitos dos homossexuais (casamento, adopção) aos de grupos ligados à exclusão de minorias sociais, do racismo, dos refugiados, dos deficientes físicos e mentais, dos animais, inaceitáveis num estado dito democrático, induzem-nos no sentido de uma natural integração desses direitos. Todavia, há atavismos que não se compreendem, creio que são até mais escandalosos, nestes tempos conturbados e de confusão política, de grandes transformações que são visíveis, mas isso constitui apenas a ponta do iceberg, pois esconde-se sob a superfície uma camada imensa e invisível, composta por graus diversos de atavismo e preconceito. Níveis de medo colectivo, de representações larvares que condicionam e manipulam a forma de pensar, de modo mais ou menos inconsciente, radicados num terreno tão propício ao crescimento da erva daninha, onde o abandono lavrou em vez do cultivo da razão. Daí a atenção necessária e a ingenuidade ser um caso perdido.

2017 será um ano de combate, mais uma vez. Tudo o que se anuncia mostra-nos que há muito para fazer. Não se trata apenas de «desconstruir», mas de lutar (ou de continuar a zelar pela luta) dos direitos das minorias, pela inclusão social e pela paridade e igualdade social. Não é um chavão, a igualdade, mas uma ideia reguladora e kantiana, que não deve nunca abandonar-nos, ou já estaremos todos mortos. Por dentro.

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