Esta entrevista foi publicada em 2005, para a revista Storm-magazine.com

Manoel Ricardo de Lima nasceu no Piauí, há 37 anos e vive actualmente em Florianopólis. Professor, ensaísta e poeta, publicou, no ano de 2000, dois livros de poesia, Embrulho e Falas Inacabadas – objectos e um poema, este em colaboração com a artista plástica gaúcha Elida Tasser, um livro de ensaio, Entre Percurso e Vanguarda: alguma poesia de Paulo Leminski, fruto da sua dissertação de mestrado, e As Mãos, em 2003. Texto que, de acordo com a crítica, se revelou profundamente original, As Mãos pode ser lido como poesia e/ou prosa. Frugal na sua poesia, lírico na sua prosa, Manoel Ricardo de Lima é uma voz que é preciso reter, no vasto panorama da literatura brasileira. A Storm conversou com Manoel Ricardo de Lima.

M.J.C. – Como chegaste à escrita? Pela poesia ou pela prosa?

M.R.L. – Nem por uma nem por outra, Maria, creio. Foi mesmo lendo algumas coisas, as mais diversas, e ouvindo as conversas que na minha casa eram feitas quase em silêncio. Venho de uma família sem leitores de livros, Maria, mas de fazedores de silêncio. Mas acho que uma experiência é singular para mim, a do ALPENDRE, uma casa de arte que montamos em Fortaleza, no Ceará, nordeste do Brasil, nove amigos, e que foi onde pude tensionar mais o meu trabalho com a radicalidade do trabalho de outras pessoas, em artes visuais, vídeo, dança etc. Depois, comecei a rabiscar textos sem forma. Sem lugar. E foi muito a partir destes textos e dessa experiência de convívio com outros baques que consegui ir, lentamente, construindo um jeito com meus textos, com alguma escritura. Meu texto surge então da convivência com o que não era ele.

M.J.C. – Daí  chegar a tua familiaridade e o gosto por trabalhar com artistas plásticos, como foi o caso de teu livro com Elida Tessler. Como ocorre essa experiência e que prazer retiraste dela?

M.R.L. – Acho ainda que o convívio com Elida e as conversas que trocamos até o livro que fizemos (Falas Inacabadas – Objetos e um Poema) e ainda até hoje são de uma delicadeza sem igual. Já fizemos outros trabalhos juntos, ela montou exposição a partir do meu “As Mãos” e parcerias com ela estão sempre se formando, quase sozinhas. Tudo feito com muito carinho, muito afeto. E é bom dizer, Maria, que quando conheci a Elida, eu morava em Fortaleza, à época, e que Elida mora em Porto Alegre, do outro lado do país. São países, aliás, dentro de um mesmo Brasil, completamente distintos. Mas não só com a Elida, o convívio anterior com artistas como Eduardo Frota, que é escultor e absolutamente radical com o trabalho, com Alexandre Veras, que trabalha com imagem, com Andréa Bardawil, que é coreógrafa, com o Solon Ribeiro, artista visual, com o Carlos Augusto Lima, poeta dos mais encorpados, foi e ainda é muito rico pra mim. A minha familiaridade, se há alguma, vem daí, assim como o meu prazer em ainda fazer o meu trabalho.

M.J.C. – A crítica reconhece os teus textos, sobretudo “As Mãos”, como textos algo inclassificáveis, no que respeita à distinção dos géneros prosa e poesia. Para si, que veio na sequela do pós-modernismo, faz sentido, ainda, essa distinção?

M.R.L. – Se eu posso considerar um dois ou três textos que comentaram meu último trabalho, “As Mãos”, como o que normalmente se chama de crítica, digo que foram textos generosos, todos eles, claro, muito até. Mas é que acho que fui lido errado, não por esses textos que apareceram, mas por um outro silêncio. Ou nem fui lido. Mas é isso mesmo. Acho sereno. Faço meu trabalho porque me interessa fazê-lo, nada mais que isso. Preciso fazer, se não desfaleço. O fato é que a distância neste país, aquilo que retira e coloca, ao mesmo tempo, quem está fora dos grandes centros e seus adoecimentos, falo de Rio de Janeiro e São Paulo, provoca um certo desamparo. O país é muito grande, Maria, e tem uma questão econômica forte, também, concentrada, descabida. Este país, Maria, é complicadíssimo. Certas coisas não tem muito senso aqui, e conhecê-lo mesmo e de fato, pra tentar minimamente entendê-lo, só andando por ele. É engraçado, o país é tão abandonado que a poesia que tenho visto as pessoas mais gostarem e mais chamarem atenção pra ela é a que menos diz dele, e isso poderia ser muito interessante se este não dizer o país fosse também uma forma medular de dizer dele, e virá-lo ao avesso. Mas não é. E não saberia como lhe explicar assim, isso, tão rapidamente.

.J.C. – E que poesia pode dizer o país? Para os leitores portugueses e ávidos de conhecer a poesia e a literatura brasileira, que poesia aconselharias?

M.R.L. – A poesia que pode dizer o país é a que se intensifica, como intensidade mesmo, nos seus percursos, nas suas brechas, nas suas distâncias. Qual aconselhar eu não sei. Sei que não é essa que muitas vezes vejo alumbrar muita gente aqui, porque o país é tão largo que as pessoas acham que isso ou aquilo só existe ali, naquele lugarzinho, perto, e esquecem do longe, do que está fazendo ao largo, margeando, e que é muito bom, tanto quanto ou mais. E muitas vezes isso está tão dobrado dentro do trabalho de alguém que carece outro gesto pra ver, ler, atentar ao nó. Tenho repetido isso, mas não me custa: acho que temos livros demais e trabalhos de menos. Um livro de poemas nunca quer dizer um trabalho, penso eu. Um trabalho solicita outra cartografia, outra insistência.

M.J.C. – Essa cartografia de que falas ou insistência tem que ver com um verdadeiro trabalho de linguagem? Mais radical? Que desestabilize a linguagem feita, os cânones literários?

M.R.L. –  Passa por isso, também, claro. Mas não só os cânones, mas muito mais a própria cartografia do país. Como aqui se desconhessece nosso melhor articular disso tudo, que foi o geógrafo Milton Santos, morto recentemente. Um trabalho que tenha passagem pelo corpo, em travessia. E não por essa coisa livresca, oficial, institucionalizada pelo mercado editorial. E não por esse êxodo e essa cata de espaço, mas sempre penso numa busca ou encontro de um lugar.

M.J.C. – Sei que és crítico e que tens exercido ampla actividade na imprensa, o que te dá um conhecimento real do modo como as coisas ocorrem no meio literário. Como mapeias a poesia brasileira actual, fora desses conluios e interesses meramente mediáticos?

M.R.L. – Não me considero um crítico. Mas muito mais um avisador de certas coisas. Saio avisando, onde posso quando escrevo na imprensa, sobre trabalhos daqui que não chegam ali, e dali que não chegam aqui e assim vou. Quando morava em Fortaleza (capital do estado do Ceará, no Nordeste brasileiro) dava notícia, semanalmente, na minha coluna, de coisas que não chegavam lá e que tínhamos acesso, amém, sabe-se lá como. Espalhado, escrevo em jornais de cidades diferentes, de regiões diferentes, procuro ocupar os espaços para dizer o às avessas de cada lugar, de cada senso, de cada meio. É a forma que encontro para deixar um dito meu, mínimo que seja, do como penso e de meus entornos de pensamento. Minhas vaguidades. Como agora tento dizer a maldade que estão fazendo com a região nordeste deste país, por exemplo, agora, que ainda continua açoitada com a marca de uma certa literatura regional, e de uns tempos pra cá descobriram aí uns saltibancos, publicaram essas pessoas no eixo cultural do país e acham, com todas as forças, que estes caras estão refazendo estas questões quanto a certa paisagem e dito da cultura e literatura no Brasil. Mas é de uma pobreza, de uma ignorância, de uma lerdeza, de um gesto tão umbigal e empobrecido que dá pena ver como as pessoas dizem e escrevem destas pessoas, com tão rasgados elogios. Ora, isso já está virado pelo avesso faz tempo, muito tempo. E só agora eles vêem e acham que descobriram o cerco do mundo.

M.J.C. – E é fácil conseguir esses “espaços”? É fácil a um jovem poeta ainda não reconhecido amplamente dizer o que pensa, aceder aos grandes jornais? Digo isto pela preponderância dos circuitos citadinos literários e centrados, no Brasil. Ouve-se muito o que se faz no Rio ou em S. Paulo…

M.R.L. – Mas só se ouve o que se faz no Rio de Janeiro ou em São Paulo. E isso é uma tristeza. Uma doença, quase. E há uma contínua migração para estes lugares culturais do país. Mesmo hoje, com internet e mais. Não adianta. E cansa, muito, porque o que se vê nos lugares que não estes é uma tentativa de repetir o que se faz neles. Fico triste. Mas já relaxei com isso. Recentemente, perguntava em encontro de poetas em SP o que é que se costuma chamar de poesia brasileira: a que se faz no Rio e em SP ? a que se publica no RJ e em SP ? a que corre atrás feito cabriolinha atrás da que se faz no ás da que se faz no Rio ou em SP ? E agora, pasmo, me pergunto até quando isso e quando é que se vai baixar a cabeça pra ignorância e parar de se chamar conjunto aquilo que é parte, e com mais delicadeza ainda, quando é que se vai baixar mais ainda a cabeça pra tentar ler o buraco, a distância, o deserto? Em diante, não há espaços. Há uma cerca quase dicotômica que ainda abraça este país. Aliás, abraça não, porque isto é afetivo, e sim que amarra, impata, impede.

M.J.C. – E como pode um crítico manter os “olhos limpos” para a poesia?

M.R.L. – Não há olhos limpos. Não sejamos tolos. Ninguém é. E sem essa que tem alguém que é. Há uma escolha, mesmo que seja amorosa, ou vil, mas há uma escolha. Em nada nesta vida, penso eu, Maria, debruçamos alguma coisa sobre algo a que possamos chamar de olhos limpos ou estados puros. Nosso olhar é sujo, se não, e muito, quando um pouco, embaçado. Sempre. Estamos no mundo largados para o contágio, a contaminação. Assim também é toda crítica, todo pensamento.

M.J.C. – Claro que não há pensamento “puro”, sabemo-lo. Mas tem de haver condições necessárias para exercer o pensamento e a crítica, não? Dentro dessa “contaminação” há uma latitude vasta…a pergunta era: não há um círculo vicioso nesse ser-se simultaneamente crítico e poeta? Sentes dificuldades em lidar com isso? Ou é-te natural?

M.R.L. – Não, nenhum problema. Não consigo pensar um poeta anódino, um artista que não reflita o mundo através de seu trabalho. E é isso que tanto reclamo. Não falo de arte engajada, mas de uma ética, de uma condição política (e você deve saber o que falo, é leitora de Agamben), de um pertinência história. Escrever sobre poesia ou sobre arte ou sobre o pensamento ou sobre isso ou aquilo é estar ao mesmo tempo dando algum frescor ao meu trabalho. Por isso, talvez, Maria, com tanto frescor, eu não consigo escrever mais. Faz tempo. Tenho preferido ler coisas que me devia ler, e escrever sobre elas. Tenho me sentido melhor assim.

M.J.C. – Que influências foram mais marcantes para ti, na tua formação? E o que continua a ter mais impacto, ainda?

M.R.L. – O que mais me importuna como formação foram certas experiências demoradas de fixidez e depois de viagem, experiências com a ranhura da paisagem de alguns lugares: onde morei muito tempo, onde passei rápido por eles. Todas as minhas leituras, depois e antes, passam a ser feitas numa vinculação dos textos aos espaços, e seus tempos, não numa condição sociológica (que pode ser muito empobrecedora), mas numa condição de estabelecer linhas tensas. E aí, procurei ler de tudo, o que pudesse. E ver de tudo, e tatear tudo, até céu, se pudesse, pra deixar meu trabalho o mais inseguro possível, muito inseguro, totalmente inseguro, gosto e prefiro assim. Daí, muito importante pra mim, Maria, o contato com artistas visuais e com pessoas que trabalham numa outra configuração de linguagem, tenho muita vontade de afastar o máximo possível o meu texto da literatura. Não sei como isso é possível. Mas é uma vontade, uma potência para continuar fazendo o meu trabalho.

M.J.C. – Pode-se dizer que a tua literatura se alimenta da tensão com a imagem? E que dialoga com ela?

M.R.L. – Não sei se com a imagem. Mas com algo que é próprio sim da imago. Não acredito que vivemos um mundo de imagens, estas, mas que o trabalho com alguma quase arte é dar sentido de imagem ao mundo, outro, o da imaginação. Procuro brincar assim, sem morrer. Tentando ter alegria no trabalho, riso com ele. E aí, penso que meu trabalho não é fruto da palavra, ou para ela, mas sim, invertendo Mallarmé, um poema não se faz com palavras, mas com a vivência, como víscera, de cada uma delas. Penso que assim meu trabalho se articula, com a vida e com as tensas dela no meu corpo.

M.J.C. – Lembro o ensaio benjaminiano “O Narrador”. Em que Walter Benjamin fala da relação entre a experiência vivida e a linguagem e coloca os limites da linguagem nessa visceralidade violenta da vida. Concordas com ele? Como vês a relação arte/vida? Até que ponto a arte nos salva da vida?

M.R.L. – Tenho muita vontade de dizer, sempre, que sou um benjaminiano. Mas sei o quanto isso pode me pesar. E que por mais que, muitas vezes, saiba que o tempo que Benjamin tanto problematiza é um e o meu quase um outro, e saiba de suas impertinências, acho que ninguém foi tão sensato e tão a fundo em certas questões que me dizem respeito tanto quanto ele. E aí, Maria, não só n’O Narrador, que é exemplar, sim, nisso e disso, você tem razão, mas por onde ele conseguiu ir e atravessar e, principalmente, rasgar, com tanto mergulho e profundidade.  E não saberia dizer até que ponto a arte nos salva, porque nunca achei que nos humanizássemos mais a partir dela, que perdêssemos o risco de uma brutalização a partir dela, mas penso que ela pode ser um bom caminho pra isso. Mas também sei que não posso melhorar meu vizinho porque talvez tenha lido mais que ele, ou que meu vizinho seja melhor que o sujeito que me cata o lixo na rua, agora, pela janela, porque leu mais ou viu mais ou conhece mais. Mas sei, com muita certeza, que a única coisa que me mantém vivo hoje é meu trabalho. E que, com mais cuidado, talvez, a minha vida inteira passa pelo meu trabalho. E procuro organizar minha vida de uma forma que eu sempre possa fazê-lo, e cumpri-lo, com alguma alegria.

M.J.C. – A recusa do literário não é, ainda, um “retorno” à literatura? Ao que de mais autêntico nela se procura, enquanto modo de representação do mundo?

M.R.L. – Não sei se trabalho numa idéia de recusa não. Acho que não. Penso que não. Mas apenas de afastamento. Um de longe para poder ser próximo, perto, dentro. Penso que meu trabalho é o mundo, para mim é. É através dele que me vejo, vejo os outros e vejo o mundo. É o que me coloca no mundo, como doer ou riso. Queria muito conseguir um dia, Maria, era retornar a mim mesmo e ao que de mais autêntico consigo ser em mim mesmo, como aquele velho arqueiro zen que se descabe ao caminho da flecha.

M.J.C. – Essa ideia sugere uma procura de pacificação através da escrita? Ou apenas de despojamento, de des-possessão, como o refere nossa ensaísta Silvina Rodrigues Lopes? Isto é, de fusão tão completa entre arte e vida como condição autêntica da arte e da escrita?

M.R.L. – Conheço o trabalho da Silvina, mas não sei agora te dizer se procuro me pacificar ou se procuro me intensificar ou ainda se procuro algo como uma condição autêntica da arte e da escrita. Tua pergunta é muito pra mim, talvez seja isso que provoque esta minha interrogação maior, que o meu trabalho é um algo para me interrogar: como tornar próxima de mim esta vida de longes, de distâncias, a minha mesmo? Um pouco isso, só isso, o que me parece ser muito. Daí, a figura do arqueiro zen e o quanto de insegurança procuro lançar sobre meu trabalho.

M.J.C. – E a literatura portuguesa exerceu alguma influência sobre ti? 

M.R.L. – Hoje, como professor de literatura portuguesa me sinto cada vez mais entranhado com ela, e começo, cada vez mais, a gostar de certas coisas que ela tem e prestar atenção no quanto ela me demove de certos hábitos que tenho. Assim, penso, esta convivência com um outro na mesma língua, que é também uma outra, mas sempre se enfileirando num quase, para mim, é a demarcação certeira e precisa da influência que posso tomar emprestada. O que é diferente de ler poemas, por exemplo, em língua inglesa ou italiana, mas é um ler poemas em língua portuguesa sendo ela mesma uma outra. É simples, precário até, meu raciocínio, mas é assim que me funciona, que me gesta. E é isso que me interessa.

M.J.C. – Sei que trabalhas autores particulares, como Maria Gabriela Llansol e Ruy Belo. Só para citar os dois casos. O que te interessa nestes autores?

M.R.L. – A tentativa de despossuir uma linha de separação entre o que é real, mundo objetivo, e linguagem, condição ficcional, inventiva, de mundo, de vida. Certamente é isso o que mais me convida a entrar as casas de Ruy Belo e Llansol. Estas casas do “Há”, estas casas como zona de fronteira entre a intimidade e a profanação, como diz Llansol, que nos faz encontrar arte nos restos humanos. É isso que me interessa neles.

 

 

 

 

 

 

 

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