Alberto Pucheu: dizer, interrogar o (im)possível

(…) enquanto os dias passam por mim voando

ou enquanto em mim eles teimam em quase parar,

há momentos no meio dia, momentos

que sei que são esparsos (….)

Alberto Pucheu, “!”, p. 33.

Acolher um novo livro de poesia de Alberto Pucheu será sempre, antes de mais, rodeá-lo com a nossa admiração e o nosso agradecimento. A sua poesia, que conheceu um período de pousio entre 2007 e 2013, ano que assinalou o seu retorno à poesia com mais cotidiano que o cotidiano (Azougue, 2013), mostra-nos um movimento de uma energia inexaurível, que se renovou (e se reforçou) durante esse tempo precioso em que o silêncio não foi senão uma espécie de lavra subterrânea, em busca de novos filões e feixes de energia que irradiam agora na sua poética. Durante esse período dedicou-se intensamente à escrita ensaística, em particular ao pensamento de Agamben e ao seu tema predilecto, a poesia brasileira contemporânea, à qual tem dedicado dos melhores textos que conheço e que foram publicados no Brasil, sobre os seus autores de eleição, como Roberto Corrêa dos Santos, Caio Meira, Leonardo Gandolfi, Antonio Cicero, entre outros[1]. Ressalto aqui o notável Pelo colorido, para além do cinzento (a literatura e seus entornos interventivos), editado pela Azougue Editorial (2007).

É, aliás, essa dupla dimensão da poesia e da filosofia (na qual se formou) entranhada na sua escrita, que lhe confere uma dimensão híbrida e um vigor filosófico e poético surpreendentes (não saberíamos diferenciá-los aqui), estabelecendo passagens entre o poema, a prosa e o ensaio. Leitor voraz de filososofia e poesia antiga e contemporânea, num amplo espectro que vai de Platão a Agamben, Derrida Benjamin, Pucheu dialoga com o pensamento e a poesia clássicos, mas igualmente com a poesia contemporânea, fundindo géneros e registos vários que atravessam em ritmo torrencial o(s) poema(s). E essa torrente narrativa convoca o grandioso, o sublime, o menor, o trivial e o extraordinário numa escrita convulsa em que o múltiplo e a dialéctica, o paradoxo, se entrelaçam para nos dar a forma do poema essencialmente narrativo, numa fidelidade à vida. Há poemas cuja intensidade se constitui quase como um arremesso, cito o poema “Três dias atrás, em Teresopólis” (p. 61), confrontados que somos com a violência do quotidiano, através do próprio olhar do poeta. Ou no poema “Preto sobre Preto” (p. 121) ou, ainda, “O Golpe”.

Além desse diálogo com os géneros, entre o ensaístico, o filosófico e o literário, em que o poeta opera numa zona de esbatimento da sua fronteira, trabalhando sempre num limbo que, de certo modo, renega um certo formalismo da poesia contemporânea brasileira e o procura ultrapassar, é relevante notar a questão que atravessa a poética de Pucheu, a da interrogação dos vários sentidos do contemporâneo e a singular relação estabelecida com o seu tempo, vivido em simultâneo dentro e fora do mesmo:

eu gostaria de começar com o outro, com quem vem antes,

com quem vem primeiro, com quem vem à minha frente,

eu gostaria de começar com o outro, com quem vem antes,

com quem vem primeiro, com quem vem à minha frente,

eu gostaria de começar com o que vocês gostariam

de me perguntar. Eu poderia mesmo começar

de Keats a Woodhouse, indo para a do vidente do Rimbaud,

indo para a a do Pessoa ao Casaes Monteiro, para dizer

que poesia é um lance do fora, do outro, do heterônimo,

mas isso já seria uma aula , não uma anoficina. Eu prefiro

começar com vocês, seguindo vocês, indo atrás de vocês…

Esta ideia de que a poesia «é um lance de fora», ou uma oficina do contemporâneo parece nortear a poética de Alberto Pucheu, em que o presente se abre como fissura ou rasgão, permitindo o transporte para a alteridade e para pensar o outro, a comunidade e a linguagem do quotidiano, convocando amigos e experiências comuns, que traçam esse presente, na sua singularidade, mas introduzindo nele elementos díspares e atemporais, inactuais. Como no poema “Mercado Ver-o-Peso (Belém” (p. 53), tomando-o como exemplo dessa convocação, a partir do instante do presente e do olhar quotidiano, da própria morte, pelo cheiro fétido do peixe: “há um cheiro exalando no ar,/não cheiro de peixe, cheiro/ da morte do que um dia foi/peixe, da morte do que um dia foi/peixe, da morte do que um dia/chamamos de peixe sem saber/o que é peixe, sem saber o que é/o cheiro do peixe, cheiro/da morte que exala esse cheiro (…)”. É, aliás, a morte, o elemento que se apresenta ao longo de todo o poema, significante alegórico que se abre a partir da visão do peixe no mercado.

A criação do efeito inesperado, a partir do mais trivial acontecimento constitui uma das virtudes mais notáveis da obra, que nos convida a reflectir sobre o presente, enquanto leitura potenciada pelas imagens que se abrem a partir daquele, questionando o sentido na sua primazia: “a poesia, desde a sua impotência máxima,/incapaz de alterar qualquer coisa/senão, de novo, a primazia do sentido (…)”. (p. 17).

Convocando a clássica e holderliniana pergunta “Para quê poetas em tempos de indigência?”, Alberto Pucheu renova-a, dando-lhe uma potência inusitada, em “Para que poetas em tempos de terrorismos?”. Mais do que pergunta, ela é a rampa ou a plataforma vertiginosa a partir da qual é possível pensar poeticamente o presente, seja ele o histórico, o social ou, ainda, o político. No poema longo que dá título ao livro, “Para que poetas em tempos de terrorismos?”, a sua cadência é marcada pelo verso longo, conduzindo o leitor de forma veloz, quase alucinada, pela sucessão imagética a que nos obriga, introduzindo elementos díspares e heterogéneos, misturando versos e línguas, português, inglês e francês, referências múltiplas, nesse registo avulso e multicultural que é o da sociedade global, onde o tom é também o de uma ironia ácida, da denúncia social e política e o de uma sociedade alienada pelo totalitarismo mediático, pela perpetração da manipulação das massas. Desse modo equívoco e extenso, o conceito de terrorismo é tomado nas suas várias acepções, que assentam num conceito de violência generalizada e de guerra. «é guerra por lá, por aqui, por sei lá onde,/ por toda a parte, o oriente é terrorista, a áfrica/é terrorista, a natureza é terrorista, manifestantes/ são terroristas, professores são terroristas,/ alunos são terroristas, professores são terroristas…». Nessa voragem da violência que varre o mundo com o seu fogo descontrolado, o terrorismo assume todas as formas de barbárie, hoje tornadas banais no nosso quotidiano, para além da guerra considerada tradicional. O(s) terrorismo(s) assume-se mediático, económico, político, social, cultural, protagonizando esse modo do totalitarismo se fazer a experiência quotidiana e irreversível no seu processo. Porque esse terrorismo, repetido, cultuado, espectacularizado, praticado de todas as formas, é aquilo que nos transforma em espectros e figuras fantasmáticas de um tempo ao qual não pertencemos. O que sobra ao homem, diz o sujeito poético, esse «resto», é «o que sobrou para nós foi a nossa impotência,/o último reduto de uma força — frágil — crítica-/que podemos ter» (p. 26). Nestes versos aproxima-se o poeta da célebre tese de Benjamin (II), em que o filósofo falava da tarefa do historiador como aquele a quem cabia uma parcela messiânica, uma frágil força cuja tarefa de resgate pertencia ao historiador. Para Pucheu, a tarefa do poeta, ética, é a do resgate dessa força frágil, como uma espécie de sentinela crítica que lhe permite recusar o poder, essa tarefa revolucionária que lhe cabe em sorte.

Trata-se, assim, de questionar um tempo que é o da urgência, não apenas o de uma alucinada violência irreversivelmente instalada no nosso quotidiano, mas igualmente um tempo em que o défice de democracia é um dado incontornável, pelo que o termo “terrorismo” é usado — e de forma equívoca — no plural e não no singular. Este é ainda o tempo polémico (o do “polemos”), o que se quer como combate e exigência de justiça, o tempo da intervenção no espaço público e na comunidade, modo de lutar contra o(s) totalitarismo(s) que nos cercam. No poema “Da Impotência”, o poeta refere-se mesmo a esse «impasse do nosso tempo, o atual,/entre poesia e revolução» (p. 16), apresentando a natureza desse paradoxo: «eis o paradoxo: a poesia não busca/um poder, a poesia não busca um sentido,/nem mesmo um sentido revolucionário,/mas coloca diante da gente/a inequívoca potência/de todo e qualquer sentido», constatação que é, ela própria, radical no modo como, assumindo a sua impotência, recusa «todo e qualquer desejo de poder» (p. 20). Questão urgente, é também a da (in)utilidade da poesia, que é retomada no poema “Ela, O Outro”. Que a poesia não sirva para nada é, desde Platão, o clássico refrão que a ninguém espanta, ainda que os poetas nunca tenham deixado de o ser, por todas as razões. Nesse poema, diz Alberto Pucheu, naquela que considero ser a mais imperativa e ética das razões: “hoje eu vou dizer que a poesia serve/a um outro, que a poesia é o lugar de um outro,/quer aprender a alteridade, aprender/a se relacionar com outro/(quer aprender um outro/quem quer que seja esse outro)”. O “outro”, anónimo, mas que deixa de o ser no instante em que é reconhecido na e pela linguagem, nessa construção poética da alteridade, eis o que mais se assemelha com um preceito levinasiano do reconhecimento do outro, porventura um leitor com quem se estabelece esse diálogo. E, apesar de tudo, como o diz no belíssimo poema “Apesar de tudo, o impossível” (p. 123) , essa fala de esperança que eleva o canto desse «resto» impossível, “o que é preciso dizer/que tudo ainda está por dizer”, esse «resto» irredutível da linguagem que arde como voz oculta e que se quer silenciada, mas que a comunidade não deixa que morra, mesmo que o medo a amordace, apesar de tudo, esse impossível concentra o lugar da utopia política, esse impossível que o dizer pode tornar um dia possível: “O que ainda pode ser dito,/o que, apesar de tudo, há para ser dito, /o que, apesar de tudo, resta a dizer, /a dizer, apesar de tudo, o impossível/a tornar, apesar de tudo, o possível/sempre a cada vez e de novo possível”. Não que o impossível não se torne um dia, na comunidade, a tarefa inaugural da revolução, seja ela o que isso for, sempre intempestiva e inesperada. Todavia, essa é a vocação da poesia numa época em que o humano vive em tempos de ruínas que se amontoam, de catástrofe em catástrofe, e a esperança nos é ainda concedida como promessa.

O contemporâneo, di-lo Giorgio Agamben, autor muito familiar a Pucheu, não é aquele que coincide plenamente com a sua época porque isso impedi-lo-ia de a compreender, mas é antes aquele que é capaz de ler o presente, com as devidas distâncias, advindo-lhe desse olhar não-coincidente a possibilidade da clarividência, que o faz «Perceber no escuro do presente essa luz que nos procura alcançar, mas não pode fazê-lo». Talvez esse seja o sentido mais nítido do poema acabado de citar. Perceber, na obscuridade do presente e das suas catástrofes, a luz da promessa, pertence ao poeta, que é também e nesse sentido, o contemporâneo. Atente-se ao diálogo no início do livro:

– a poesia morreu?

– não, ela continua bem viva. quem morreu foram as pessoas.

– mas eu vejo as pessoas por aí e não vejo a poesia.

– você vê fantasmas por aí, cadáveres que procriam(…)

– se a poesia está viva, por que, então, eu não a vejo por aí?

– é difícil um fantasma ver o que de fato está vivo.

– mas você não é também um fantasma? e você não vê a poesia?

– há fantasmas que ainda conseguem vaguear pela poesia, disseminando-a e tentando com isso dar uma sobrevivência às pessoas. (p. 9)

Uma época de fantasmas, cujas vozes transportam o seu próprio tempo, daí que a tarefa da poesia seja ainda a da passagem do testemunho, em nome da comunidade, preservada pela linguagem. Entenda-se melhor: de uma comunidade que há-de vir como modo de sobrevivência da poesia ou, num sentido mais lato, da própria linguagem como o lugar da comunidade, num sentido pleno, de uso da palavra e do espaço público. Se, por um lado, o(s) poema(s) guarda(m) a sua actualidade, como podemos ler nesta obra, por outro, instaura-se neles essa dimensão extemporânea, obscura e latente, intensificando uma potência vislumbrada. Di-lo Pucheu na página 27: «seguimos como conseguimos seguir,/porque também os fantasmas/que somos, que já buscamos/algum tempo de pertencimento,/buscamos, agora, somente o que fazer/com o quase total despertencimento/em que nos encontramos no mundo atual». Esse lado mais intempestivo do olhar, capaz de ver o intemporal no actual, constitui a própria natureza do guardião, essa sentinela intemporal e extemporânea, voz (ou lamento) portadora das ruínas do nosso tempo, uma voz que, como dizia Nietzsche, relativamente ao rumor do mundo, fala das grandes coisas e “As grandes coisas, é preciso calá-las, ou falar delas com grandeza, quer dizer, com cinismo e inocência.” Uma tarefa paradoxal, assombrosa, tanto quanto o pode ser o espanto, cara a cara com o presente. Ou não fosse a linguagem a ilusão derradeira. E, no caso da poesia, radical e sem chão, puro estremecimento.

[1] V. Pucheu, Alberto, Apoesia contemporânea, Azougue editorial, Rio de Janeiro, 2014.

Ouça Danielle Magalhães a ler o poema “Apesar de tudo, o impossível”, de Alberto Pucheu

Nascido em 1966, Alberto Pucheu é poeta, ensaísta, professor de Teoria Literária da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Enquanto poeta, entre seus livros publicados, estão: A fronteira desguarnecida; Poesia Reunida 1993–2007 (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007); mais cotidiano que o cotidiano (Rio de Janeiro: Azougue Editorial/FAPERJ, 2013) e, agora, este Para que poetas em tempos de terrorismo? (Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2017. Como ensaísta, publicou, entre outros Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos (Rio de Janeiro: Azougue Editorial/FAPERJ, 2007), com o qual recebeu o Prêmio Mário de Andrade, Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional/Minc, 2007, Giorgio Agamben: poesia, filosofia, crítica (Rio de Janeiro: Azougue Editorial/FAPERJ, 2010), apoesia contemporânea (Rio de Janeiro: Azougue Editorial/CAPES, 2014) e Kafka poeta (Rio de Janeiro: Azougue Editorial/FAPERJ, 2015).

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