Prémio Camões para a Escritora Hélia Correia

A escritora Hélia Correia foi galardoada com o Prémio Camões 2015. É autora de uma obra vasta e polifacetada, entre a dramaturgia, romance, poesia e literatura para crianças.  Este Prémio veio realçar a excelsa qualidade da sua obra. Já em 2013 havia conquistado o Prémio Correntes d’Escrita 2013, com a sua obra de poesia A Terceira Miséria (2012), em 2015 o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2015, pela obra 20 Degraus e Outros Contos (2014).

Poucos autores se movem como Hélia Correia, com a destreza que ela possui, entre os vários géneros literários. Estreou-se na literatura em 1981, com a obra O Separar das Águas e o seu último livro publicado é de 2014, justamente 20 Degraus e Outros Contos. O universo da autora é inacessível, inóspito, devolvendo-nos à rudeza do mundo arcaico e bebendo a sua matriz na força da mitologia grega e celta, na pintura pré-rafaelita, como no seu magistral romance Adoecer.  Este situa-se no período histórico pré-rafaelita e centra-se na vida de Elisabeth Siddal (a musa inspiradora de vários pintores) e de Dante Rossetti. Se há algo de rude na sua obra, acentuando a força das suas descrições e das suas narrativas, somos também arrebatados pela força imagética da sua linguagem  e pelo lado solar e apolíneo da sua poesia, uma luz que emana dessa Grécia irradiante que Hélia Correia traz sempre no coração. A Grécia dos heróis mitológicos, mas também as de poetas como Hölderlin e Byron, que conheceram o apelo irresistível da sua cultura superior. Mas é também a Grécia dos tempos modernos, aquela que Hélia Correia canta, na sua obra A Terceira Miséria, num lamento profundo e corajoso:

32.

Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.

33.

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Discreta e avessa ao palco mediático, vive retirada na sua casa de campo, na qual encontra a sua força motriz e a inspiração que a alimenta,  envolvida pela força telúrica e secreta da terra. Pitonisa dos tempos modernos, Hélia Correia pertence a uma família de raros escritores que encontram na escrita e no combate com as forças da linguagem a sua pátria (ou o seu exílio), como Maria Gabriela Llansol, Rui Nunes ou Sophia.

E tem pautado a sua vida pela consagração à sua obra literária, longe dos holofotes. Muitos parabéns a uma Escritora maior!

Ler mais: http://www.mariajoaocantinho.pt/news/helia-correia-conquista-premio-camoes/

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