A débil luz entre as ruínas

Walter Benjamin, O Anjo da História, Obras escolhidas de Walter Benjamin, tradução de João Barrento, editora Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos seus olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés (…)”.
Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, I, 2, “Über den Begriff der Geschichte”, p. 697 (tradução de João Barrento, in O Anjo da História, p. 13).

É de saudar esta edição, mais uma vez cuidadíssima, que acaba de sair pela editora Assírio & Alvim, acrescentando mais um volume – o quarto – à tradução da obra completa de Benjamin, cujo título original é Gesammelte Schriften, obra organizada por Adorno e Gershom Scholem e editada por Rolf Tiedermann, na editora Suhrkamp Verlag, em 1974, e posterioriormente reeditada. Contrariamente à recepção entusiástica de Walter Benjamin no Brasil, em Portugal não houve uma adesão significativa ao autor. No entanto, o interesse que Walter Benjamin tem vindo a suscitar na última década, no nosso país, reflecte a necessidade da sua tradução rigorosa e cuidada.
O título deste volume, O Anjo da História, resulta de uma decisão do tradutor e que considero acertada. Neste livro, João Barrento agrupa textos de Benjamin, de épocas diferentes, mas que têm uma afinidade notória entre si. Se aparecem, aqui, os textos de Benjamin, redigidos na viragem da década de 20, como os textos “Sobre a Crítica do Poder como Violência”, “Destino e Carácter”, “Fragmento Teológico-Político”, “Anúncio da revista Angelus Novus”, também nos aparecem os textos mais tardios, escritos em meados dos anos 30, “Experiência e Indigência”, “Eduard Fuchs, coleccionador e historiador”, bem como o incontornável texto de 1940, “Sobre o Conceito de História”, que se manteve no silêncio durante muitos anos e foi publicado graças aos esforços constantes da sua amiga Hannah Arendt. Foi, entre todos, o texto que mais controvérsia causou entre os leitores de Benjamin, por várias razões e algumas delas prenderam-se com o adiamento da sua publicação.
Que fio de pensamento une, estes textos, que se agrupam sob o título O Anjo da História? Antes de mais, é necessário relacioná-los com a paixão de Benjamin por um quadro de Paul Klee, intitulado Angelus Novus. Gershom Scholem, seu amigo devoto e biógrafo, conta que Benjamin adquiriu a obra de Klee em 1921 e refere que o amigo considerava esta obra como a sua possessão mais importante. O quadro de Paul Klee tornou-se, para Benjamin, uma imagem obsessiva, que iria acompanhá-lo para o resto da vida. Expressão de uma certa visão da história, sem falar nas implicações talmúdicas da angelogia judaica, o Anjo da História alegorizava, aos olhos de Benjamin, a ideia da catástrofe e da ruína. Mas a concepção benjaminiana da catástrofe, que já se apresentava na obra A Origem do Drama Barroco, é, antes de mais, a percepção lúcida de uma falência do paradigma da concepção da história como progresso, insuflada por uma visão contínua da temporalidade e dos acontecimentos históricos. O olhar de Benjamin desespera nessa percepção falseada da realidade, em que a ilusão do progresso da história norteia toda a concepção da história na sua época.
Ao longo de todos os textos que aqui se encontram traduzidos, uma mesma ideia lhes subjaz: é preciso interromper a catástrofe, romper com a ilusão do Progresso e despertar para uma outra concepção da história, que seja capaz de redimir a injustiça e despertar a débil força messiânica que existe em cada geração. Isto é, despertar para uma outra dimensão da história, em que o passado surja metamorfoseado pela luz da redenção messiânica, mas também para outra dimensão da temporalidade, a do instante do Agora (Jetzt). Ora, esse é precisamente o “momento revolucionário”, que rompe o contínuo da história e da visão da história entendida como sucessão e continuidade, a única, assim, capaz de interromper a catástrofe imparável. Assim, é esclarecedor que o texto Sobre o Conceito de História apareça aqui, logo no início da obra, precisamente porque é ele próprio que abrirá a linha de compreensão dos restantes textos. Ainda que cronologicamente seja o mais tardio (1940), é, todavia, aquele no qual culmina o pensamento benjaminiano da história, que vinha sendo anunciado nos textos anteriores (os mais breves encontram-se nesta tradução de João Barrento). Já no texto “Sobre a crítica do poder como violência”, bem como no “Fragmento teológico-político”, ambos redigidos praticamente no mesmo ano (1919/1920), o que é claramente anunciado é o poder revolucionário e instaurador de uma nova ordem de valores que a interrupção messiânica comporta, a partir de si. No primeiro, é a interrupção do Direito humano, a favor da instauração violenta do Direito divino, pois só esse funda a verdadeira justiça, como o diz Benjamin, na página 71: “Ao poder divino, que é insígnia e selo, mas nunca meio para a execução sagrada, chamaremos o poder que dispõe.” Também no texto “Fragmento teológico-político”, é a interrupção da ordem profana e o seu contínuo que opera a restitutio in integrum espiritual, isto é, fazendo surgir, através da dissolução do profano, a verdadeira ordem messiânica. Essa ideia, de uma ordem messiânica, é algo que se esbaterá nos anos seguintes da obra de Benjamin, que descobre o materialismo dialéctico em 1924, ao conhecer Asja Lascis. Só mais tarde regressará à sua visão messiânica da história (que já se apresentava claramente nos textos de juventude).
Saliente-se, ainda, o texto “Teorias do Fascismo Alemão”, redigido em 1930. Vemos como Benjamin já pressente a iminência do nazismo na Europa. A sua visão da história pretende-se como um antídoto face ao que pressente, pois Benjamin percebeu que o optimismo da visão progressista oculta o hediondo rosto do fascismo alemão. Por isso, a visão benjaminiana da história, o seu pessimismo histórico surge associado ao sentimento de uma “melancolia revolucionária” que procura, não obstante a visão catastrófica, uma saída de emergência para a mesma, que só pode ser encontrada desta forma, como ele próprio afirma: “Marx diz que as revoluções são a locomotiva da história universal. Mas talvez as coisas se passem de maneira diferente. Talvez as revoluções sejam o gesto de accionar o travão de emergência por parte do género humano que viaja nesse comboio.” (Arquivo Benjamin, manuscrito 1100). Trata-se, com efeito, de procurar levar a cabo um gesto ético que interrompa a catástrofe e abra a passagem para uma outra compreensão da história, que permita redespertar a força do passado, no presente, e devolva a glória aos vencidos da história. O Anjo parece esperar esse gesto, o momento redentor, ainda, não obstante o vendaval do Progresso que o arrasta “imparavelmente para o futuro”, não obstante o olhar alucinado e incrédulo.
Maria João Cantinho, publicada na Revista “Ler”, Janeiro de 2011.

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