O Anjo ou a sombra do tempo

Ela atravessou o jardim, onde os lilases se fundiam no crepúsculo. O brilho suave do anoitecer era uma canção, por dentro da pele. Ele esperava-a, alto e belo. Tinha o olhar triste, perdido entre o cinza e o verde. Um olhar que lembrava o mar, em certos dias de tempestade, e nele pareciam mergulhar gaivotas, pensava ela. Olhou-o, daquela forma que ele lhe conhecia, o desejo a bailar-lhe nos olhos. Como se fossem as suas próprias mãos, sem estranheza. Beijou-o, primeiro com suavidade. Estava descalça e era Verão. A noite trazia o odor dos lilases. Contra a seda azul do crepúsculo, ele viu as rosas vermelhas, erguidas como delicadas bandeiras de sangue, suaves. Ao longe, os barcos. O tempo não existia quando se encontravam e era apenas aquela doçura intensa e imutável, a rasar o vento das palavras. Um gato de paciência espreitava-os. O tempo não existia e o mar dos olhos dele perdia-se no seu corpo, os mamilos firmes e erectos, à espera das suas carícias, a boca generosa e os olhos a cerrarem-se, enquanto o homem dos olhos de tempestade a possuía. Não diziam palavras, mas murmuravam loucuras, daquelas onde a linguagem não alcança, mais próximas da música dos animais.
Já saciados e deitados por terra, um por cima do outro, sabiam que até ao fim das suas vidas seria sempre assim. Ela viria, sonâmbula e descalça, sem envelhecerem, como imagens um do outro, perfeitos simulacros um do outro. Faziam amor para se fundirem e fazer nascer o tempo puro. E quando o tempo nascia não havia angústia, ela sabia que haveria de voltar a casa, aquela casa sobre a falésia, junto à praia, onde vivia e viveria sozinha, até ao fim da sua vida. Esperava pelo anoitecer, todos os dias, com o coração em sobressalto, caminhando nas escarpas do silêncio, mergulhada nos gritos das gaivotas. Sempre à espera dele, no seu vestido leve. E quando a noite vinha, ele estava lá, muito alto e belo, de cabeça aureolada de luz cinza e olhos tristes.
Já não se lembra há quantos anos, pois o tempo parara e passara a haver noite e dia, já não se lembra, era uma menina e ele espreitava-a no paredão, junto aos lilases do tempo, aos lilases da noite. Ela sonhou-o, enquanto os barcos brancos oscilavam no horizonte, fazendo doer os olhos de tanto desejarem. Era menina e o mar envolvia o vulto do homem alto, deixando-o entregue à solidão. Ela pensou ver duas pequenas formas de luz nas suas costas. Aproximou-se, pé ante pé e não teve medo. Ele olhava-a e era como se estivesse a ver-se a si própria, como se sempre tivesse conhecido aquela ternura. E tudo se aquietava à sua volta, enquanto o poente incendiava o horizonte. Tinha o olhar de verde tempestade. Não tinha medo e ele não possuía sombra, como se não tivesse qualquer matéria e fosse feito de sonho e de luz aquática. Ela sabia que ele não tinha tempo e a primeira vez que fizeram amor, ela entrou no tempo e na luz e esqueceu a dor. Sonhou que ele era feito de tempo e reparou que ele não envelhecia, mantendo-se sempre assim, o desejo intacto, uma via para a eternidade. Ela olhava-se nele como no espelho e o tempo era o espelho, atravessado de silêncio e de luz e tudo se fundia, quando faziam amor. Ele não falava e ela sonhou que ele cantava, que desconhecia a linguagem. Ele era o abismo do seu desejo, da sua voz, do seu olhar. Ele era a vida de cada dia, a música que suportava o tempo, o tempo que beijava a luz, o silêncio dos barcos avançando na noite, enquanto ela fazia amor com ele e se perdia no seu corpo que não era corpo porque era luz. Ele tinha coágulos de vento nos olhos de tempestade. Ela amava-o e essa era a forma de entrar no Tempo.
Maria João Cantinho

Posted in: Poemas

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