Uma página na história contemporânea da Europa

No início, confesso, estava pouco crente na vitória do “Não”, apesar de o desejar. A chantagem a que o povo grego se encontrava submetido, em todos os aspectos, a pressão internacional e as privações que se fizeram e fazem (e farão) sentir na Grécia, deixava pouca margem à nossa imaginação europeia, já pouco acostumada às grandes dificuldades.

O volte-face de um governo pressionado ao limite, que joga tudo num referendo popular, para auscultar o seu povo e procurar nele uma legitimidade democrática para negociar um acordo cada vez mais difícil, foi surpreendente, ainda que arriscadíssimo. A minha surpresa, à medida que a diferença entre o “Não” e o “Sim” ia crescendo, foi cedendo lugar à alegria, depois à comoção e profunda admiração, perante a decisão de um povo que não cede à chantagem nem ao medo.

O que explica esta temeridade, de que todos os outros povos europeus são incapazes? As extremas dificuldades a que têm sido submetidos ao longo da sua história? Mas também Espanha e Portugal sofreram na carne as feridas de uma guerra colonial e do fascismo. Porém, devemos lembrar-nos que a nossa submissão ao fascismo foi longa e mesmo a nossa libertação e transição para o regime democrático foi suave e pacífica. Não fosse a insubmissão dos militares de Abril, cansados da guerra colonial, nada teria acontecido. Já a Espanha tem uma história violenta e uma tradição de revolta, protagonizada por movimentos como a ETA. A sua austeridade começou depois da portuguesa e o partido PODEMOS aguarda astuciosamente pela melhor ocasião, que serão as próximas eleições, para conseguir, tal como o Syriza, o apoio democrático necessário para a viragem.

E nós? Que impacto tem isto sobre Portugal? Para já, a onda de reacções entusiásticas da direita portuguesa morreu diante da surpresa. Teve até alguma graça observar algumas reacções histéricas dos opinion makers, que davam como certo o “Sim” e tiveram que engolir os sapos em directo e na TV. Foi verdadeiramente uma derrota para esta direita, que assola os jornais e as televisões portuguesas e que, triunfantemente, começaram os seus alarves comentários no início (enquanto a diferença de percentagem era escassa). À medida que o tempo passava, era vê-los de escasso sorriso e preocupados. Quando o “Não” se tornou triunfante, o histerismo tornou-se a nota dominante do comentário. Na verdade, tudo se resume a uma patologia típica e que tem que ver com uma incapacidade de pensar por si próprio. É assim que somos. Em lugar de pensarmos pela nossa própria cabeça e nos guiarmos pelo instinto, tantas vezes certeiro, guiamo-nos pela suposta autoridade – que também desce dos céus do neo-liberalismo – , essa que nos garante a verdade e uma impunidade, ainda que injusta. Parece-me que isso tem que ver, também, com a falta de coragem atávica, pois colocarmo-nos do lado (e ao lado) do poder é uma prova dessa ausência de coragem. Tem que ver, também, com a obediência cega a interesses que nem sequer nos servem, mas que garantem um certo bem-estar, o comodismo acanhado dos “bufos” e das “marias que vão com todos”. A Grécia tramou-os, com a sua coragem, mesmo que o gesto implique uma derrota catastrófica. Mas isso, os “bufos” não o sabem, é apanágio de herói, daqueles que lutam até à morte, mesmo que a catástrofe lhes siga os passos e os deuses se enfureçam. Uma ética que não dobra ao capricho do vento nem ao das imposições da UE, uma ética estrutural e “visceral” porque a democracia, senhores, inventaram-na eles, no século V A.C.. Obrigada, Clístenes e a todos os que descenderam dessa linha directa de bravos e indomáveis. Que Zeus os acompanhe e o vosso caminho se ilumine. O tempo é vosso, agora. O tempo puro, da ágora viva e falante.

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