O Lugar onde as coisas começam

Luís Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro, Cotovia, Lisboa, 2010.

Luís Quintais começou a publicar em 1995, com um livro que se intitulava A Imprecisa Melancolia, o qual o colocou imediatamente em destaque, ao arrecadar o Prémio Aula de Poesia de Barcelona. Regressa em 1999 à poesia. Repartido entre uma carreira de antropólogo e a poesia, tem publicado menos do que os seus leitores gostariam, mas as suas obras são marcadas pela sua qualidade inequívoca. Outra das características essenciais às suas obras é a capacidade de reinvenção da linguagem, que tem vindo a afirmar uma voz poética singular.
O primeiro poema, esse lugar “onde as coisas começam”, como diz o poeta no breve posfácio (p. 51), abre imediatamente um território estranho, um limiar onde se cava a interdição: “Um dia não entrarás em casa,/uma chave partida, uma fechadura bloqueada.” E é nesse espaço que se intromete entre o exterior e o interior da casa, “(…)largo perímetro/entre a gramática de luz e o cimento” (p. 9) , que se detém o poeta, “escutando o vento nas poucas árvores”. A imagem da escuta percorre este livro. Por vezes, é a “música da mente” que arrasta o poeta num canto cósmico, ou o eco (p. 17), as vozes dos antigos que em nós habitam (p. 25), mas estas vozes antigas “já não são esperadas”, soçobram na destruição do sentido (p. 25). A ideia judaica (e benjaminiana) de que “somos esperados sobre a terra”, como uma promessa de redenção, desfaz-se aqui, sob a imagem de um mundo devorado pela perda do sentido, onde “tudo é baldio” e as vozes dos antepassados são “tapadas pela aflição escura”. O universo poético de Luís Quintais é o mundo de uma “imprecisa melancolia”, em que caminhamos entre sombras, espaço povoado de imagens alegóricas e saturninas, de enigmas que nos desamparam no limiar da mudez.
No poema XXVII (p. 40), o autor reenvia-nos à poesia de Manuel Bandeira, a poesia como “coisa suja”, impura como o são a vida, o corpo, o sangue, como o são as cidades dos homens, metálicas e cruas, pejadas de detritos e resíduos da miséria. Tudo é matéria poética e o acto essencial da poesia é um “Escutar. Rente ao chão depositar o rosto” (p. 41) para que a violência anónima e o metálico som da cidade nos cheguem à alma, mas esta alma entrelaça-se irreversivelmente na impureza do corpo. Este espaço de que nos fala o poeta, o limiar que é, aparentemente físico, não é o espaço físico, mas o improvável lugar em que “tempo e espaço se enlaçam na experiência e que a linguagem corre, se precipita para algum lado, um lugar onde tudo adquire um sentido último e primeiro” (p. 51). A poesia não é, certamente, um sortilégio que nos é oferecido, deixando-nos à mercê de um encantamento, mas sim o acto de resgatar pela linguagem que nos cabe em sorte, num mundo em que a dor não pode ser apagada no quadro negro. O tempo e a voz do poeta sabem disso a fundo, sem dramas nem ilusões.

Maria João Cantinho, recensão publicada na revista “Ler”, de Setembro.

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