O trafulhazeco

Roubei a expressão do título a um Amigo. O trafulhazeco é uma variante morfológica do chico-esperto. Todos pertencem à mesma família: vivem da (e na) convicção de que são mais inteligentes do que os outros, possuem uma falta de empatia pelo outro, num grau mais ou menos elevado de psicopatologia. Julgam-se senhores do mundo e, quando descobertos, reagem de forma colérica para intimidar os que são, aos seus olhos, estúpidos e medrosos. Pertencem a uma espécie inferior da humanidade porque nem compreendem que a ética pertence à esfera da alta inteligência e de uma absoluta coerência. Para se ser ético não basta ter nascido de uma família que já era naturalmente ética e que essa condição se manteve graças a uma formação profunda e integral. Não foi tomada de empréstimo de exemplos de sucesso fácil ou de sonhos de grandeza nascentes da inveja, relativamente aos outros, nem supôs nunca que a ascensão social e de estatuto se devesse a coisas tão efémeras como o dinheiro ou a fama. Porque quem é não precisa de mostrar que é, só precisa de ser o que é e deixar que essa presença se contagie. Quem é traz no olhar e nos gestos a sua grandeza, não invoca o quão importante é, aos olhos do outro, nem se presta ridiculamente à exposição de uma suposta superioridade, que facilmente todos descobrem ser falsa, por ser hiperbólica.

No mundo dos grandes, ninguém diz que é grande. Chega e impõe-se por si mesmo, pela palavra, pelo gesto, pela forma como desperta no outro a intensa admiração. Não reclama títulos nem vassalagem, pois não teme a liberdade do outro nem a sua superioridade. Quem é, vê no outro o ser que ele é. Sempre como um igual, um irmão, um próximo. Pelo qual sente empatia e respeito e vê no rosto do outro o seu próprio reflexo. Não ordena, mas convida à tarefa, pela argumentação. Não é prepotente, mas explica a necessidade do que fazer e porque se faz. Pondo-se ao nível do outro. O trafulhazeco, essa criatura esperta, mas nunca o suficiente para encobrir-se durante muito tempo, age pela violência, exercendo o jogo da manipulação do outro, instrumentalizando-o, e é tão indigente de humanidade que trata o outro como se vê a si mesmo: um instrumento. Por isso, ao instrumentalizar o outro, no seu jogo de poder, desconhece que ele próprio é instrumento e que, mais tarde ou mais cedo, será punido pela vítima que usou e espezinhou. A vítima, sabe-se, é normalmente um animal ferido e que, não tendo sido abatido, se transforma no justo. Isso é uma lei da natureza que o trafulhazeco desconhece, certamente, porque se conhecesse não cometeria um erro tão grosseiro. Mais, a vítima, que o trafulhazeco toma por estúpida, é normalmente alguém que não é necessariamente estúpida, mas que antes desconhece a maldade, por puro respeito ao outro. A vítima deixa-se instrumentalizar porque desconhece a forma de instrumentalizar o outro. Mas isso não a torna menos inteligente, mas cautelosa, e aguarda o momento certo de agir e vingar a sua honra.

O trafulhazeco é espalhafatoso e exibicionista, inventa vidas, é padre, bandido, editor, rouba partes de livros para contar a história da sua vida, como a “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira ou é o Al Capone, um tanto saloio, é certo, escreve textos de duvidoso gosto, para mostrar ao mundo que também é intelectual. Ao julgar-se superior (mas não o sendo e invejando mortalmente quem o é), tem de mostrar-se e exibir-se, deixando rastros e tornando-se descuidado e negligente, actuando de forma impune e prepotente, enquanto a vítima aguarda a sua menor distracção. E é nesse momento ínfimo, em que o trafulhazeco julga ter dominado tudo à sua volta e à sua passagem, que se dá o golpe de misericórdia. Porque todas as vítimas que foram instrumentalizadas se unem para montar a armadilha ao trafulhazeco. Ele julga pisar a passadeira vermelha da sua glória, montada sobre o sofrimento das suas vítimas, mas espera-o o buraco, onde cai desamparado. O trafulhazeco transforma-se na vítima. Se o trafulhazeco fosse mais inteligente saberia que não há nada mais perigoso do que um animal ferido ou o que é o mesmo que dizer uma vítima. Todos os ditadores aprenderam isto, da pior forma. O trafulhazeco, que é uma variante menor de trafulha e de inteligência social, tem os seus dias contados e isso é uma lei da natureza. Inexorável, certamente.

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