Isto não é uma fotografia

Quando vi Aylan Kurdi o meu sangue congelou. Mas não havia nada a fazer. Estava ali um cadáver com uma camisola vermelha levantada e umas calças azuis. Não havia nada que pudesse fazer por ele. Sabia-o pela ausência de qualquer grito.

Nilufer Demir

As palavras são da fotógrafa que captou a imagem que iria comover o mundo. A criança síria que deu à costa da Turquia, Aylan Kurdi, é bem o símbolo daquilo a que se chamou o ‘naufrágio da humanidade’. Há ainda a dolorosa fotografia que Demir tirou, a do soldado turco que pega delicadamente na criança, no rosto do qual podemos ler uma indizível tristeza. A imagem, que vale por muito mais palavras que possam ser ditas, é um soco no estômago, que faz abanar a indiferença do mundo ao desespero dos refugiados que acolhem em massa, à espera de uma Europa que os salve e acolha. Não há memória de uma tragédia destas na Europa (há, sim, as atrocidades que são cometidas um pouco por todo o lado, no Ruanda, no Médio-Oriente, em Gaza, etc.) desde a Segunda Guerra Mundial. Não que não tivesse havido refugiados, mas não desta forma, em massas avassaladoras desesperadas, que tudo fazem para chegar às costas da Grécia e da Itália, para, daí, chegarem à Europa Central.

Nós questionamo-nos, agora, acordando de uma letargia em que vivemos durante 10, 15 anos, pactuando com as invasões da Síria e do Iraque, fechando os olhos ao desmantelamento desses países. Talvez fosse demasiado longe, mas agora tudo se tornou tão perto, o pesadelo é atroz. E, de repente, esta indiferença já não pode sê-lo. Porque o horror não só nos entra pelos olhos adentro, mas também pelas nossas casas, pelos nossos países devastados pela crise económica e pelo desemprego, sem lugar para acolher (com dignidade) os que vêm de fora, não falam a nossa língua e precisam de ajuda para sobreviver. Agora é o final do Verão, mas daqui a um ou dois meses, consoante a zona da Europa, o frio irá apertar e pensamos o que será destas pessoas sem roupas, sem víveres, sem dinheiro, sem casa. A resposta para a crise tem de ser urgente, tão urgente quanto a chegada do Inverno. Ou, então, teremos uma catástrofe ainda maior, de milhares a morrerem de frio e de fome.

Escrever a quente sobre isto não é fácil, mas não é possível calar, não pode não ser dito, não ser falado, não ser testemunhado, pela réstea de humanidade que nos habita. Aylan é, não um menino sírio qualquer, mas o menino que poderia ser um filho nosso e é nesse lugar que temos de nos colocar. E não nos pormos de fora, como se nada tivéssemos que ver com isso. Nem podemos pactuar com as reacções dos nazis alemães a repudiar os refugiados, ou com as afirmações ominosas de Marine Le Pen, de reenviar os migrantes imediatamente para os seus países de origem ou as posições de extrema-direita da Hungria. Não se trata de ceder ao ‘apelo à misericórdia’, mas de reconhecer o outro e o seu direito à dignidade e à sobrevivência, àquilo que há de mais básico (e sagrado) ao ser humano. É a questão ética, que aqui se encontra, nesse respeito pela essência do ser humano.

Encontrar formas de os reencaminhar para lugares seguros, enquanto se reestruturam, acolhê-los e garantir-lhes a segurança, pô-los a trabalhar em tarefas comunitárias, como uma forma de os integrar e de os devolver a uma vida normal, longe do terror do seu dia-a-dia. Activar programas de acolhimento e trabalhar para reestruturar os seus paises de origem, onde eles possam voltar, mas sem que o Estado Islâmico os espere. Estar atento aos ‘infiltrados’ que aguardam a sua oportunidade de chegarem à Europa, para dar seguimento ao programa do EI.

Provavelmente iremos questionarmo-nos sobre o que devemos fazer, a Europa anda desorientada e assustada com a chegada maciça de migrantes. Mas há tanta gente a mobilizar-se para ajudar aos que chegam (na Grécia há dezenas de estrangeiros que se disponibilizaram para ir auxiliar os que chegam e isso é o melhor sinal que a humanidade poderia trazer-nos), os grupos de auxílio sucedem-se em vários pontos da Europa, chegarão a Lisboa, como já foi anunciada uma plataforma de auxílio disponibilizada pela Câmara de Lisboa. Pouco a pouco, as redes de solidariedade constroem-se, muito mais rápidas que as instituições internacionais, porque sermos e estarmos no mundo não passa só por existirmos, mas essencialmente pela empatia para com o outro, esse gesto tão simples que nos faz humanos.

Para qualquer coisa terá servido o olhar pungente da fotógrafa, nem que fosse para nos despertar desta indiferença mortífera. A mesma imagem que lhe congelou o sangue talvez salve o que ainda resta para salvar: um ideal do humano.

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One thought

  1. Herberto Helder, talvez dissesse:

    “vou-me embora/ quer dizer que falo para outras pessoas, falo em nome de outra ferida, outra/ dor, outra interpretação do mundo/ outro amor do mundo,/ outro tremor
    (…) outro mundo”.

    (…)
    “luz inteligente sobre o mundo”
    (…)

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