Que fazer quando tudo arde?

Ser-se fustigado(a) com a frase de Juncker, dizendo que a UE tem “um plano detalhado para a saída do Euro da Grécia” provoca-nos um calafrio, ainda que não de surpresa. É preciso “domesticar” os países europeus que viram na UE a sua esperança renovar-se com o sonho da saída de uma austeridade impiedosa.

Apesar de ver algumas figuras sinistras dos jornais defenderem a austeridade com unhas e dentes, num tom que me parece psicótico, reclamando uma qualquer culpa sobre os povos que viveram acima das suas possibilidades (enquanto os bancos nos bombardeavam com as facilidades de crédito para comprar casas, carros, viagens no estrangeiro e tantas outras coisas), os efeitos da austeridade são claríssimos. Ainda ontem, no jornal Público, um artigo dava conta do efeito devastador do desemprego na nossa sociedade, desde que a austeridade começou, em 2011. De uma percentagem em torno de 15% (2011) passou-se para para 35% em 2013 e a situação abrandou em 2014 e 2015, não porque tenha melhorado, mas explicável pela debandada geral dos nossos jovens e trabalhadores para os mais diversos países, para além dos indivíduos que deixaram de receber subsídios e os estagiários, que não figuram nessas listas. Todos os dias há empresas que caem, o crédito mal-parado atingiu níveis exorbitantes – o que só revela que as pessoas deixaram de poder pagar ao banco por razões imputáveis à austeridade (desemprego e significativos cortes salariais).

Todos sabemos que os gregos inauguraram o sistema maravilhoso da austeridade, como cobaias de um modelo económico que se tornou agora no corvo negro que paira sobre toda a Europa. Daí que a UE tenha de procurar e aliciar novos mercados como os países de leste e a sua mais recente aquisição é a “esfrangalhada” Ucrânia, enganada torpemente com o brilho do Euro. São países cuja estrutura de corrupção se assemelha bastante aos nossos e os que lideram a UE sabem disso. Por essa razão, são “parceiros perfeitos”, pois rapidamente se endividarão com os subsídios que servem unicamente para destruir todas as suas fontes de produtividade e perderem, assim, a sua autonomia e (mais tarde) a sua soberania. O negócio da dívida é obsceno e é exercido com a maior das impunidades, com o conluio dos governantes, que, dizendo-se de cada um dos países, não servem senão certos interesses económicos que enriquecem à conta da miséria dos povos que foram caçados na “armadilha”: Grécia, Espanha, Itália, Portugal.

Tornou-se claro que “A Crise”, este conceito vago, difuso, amalgamado e tortuoso, ainda que tenha um fundo de verdade por detrás, não é senão uma noção relativa e uma encenação “terrorista” (lembro que foi exactamente isto que Varoufakis lhe chamou) para nos manter agrilhoados ao medo. Um medo também ele vago, difuso, amalgamado, sociologizado para manter uma coesão colectiva eficaz. Um medo não se sabe de quê, mas que identificamos no olhar apático e falsamente conformado das pessoas (sobretudo no nosso país), incapazes de reagir, o medo de não termos agricultura, nem frotas de pesca que nos valham, de não termos empresas que nos garantam a independência, um medo de ter medo e que gera uma incapacidade de subverter a situação.

Os gregos ousaram, fizeram frente ao medo, perceberam o logro e afrontaram os poderes económicos, apesar das estratégias de terror utilizadas ao longo destas semanas. Foi com muita apreensão que nós, os irmãos acanhados da Grécia, os esperançosos tímidos, acompanhámos o desenrolar e a explosão da Grécia, afirmando a sua soberania e a democracia. A sua dignidade plena. “Fomos enganados, mas queremos recomeçar e alcançar a nossa dignidade”. Dêem-nos espaço para recuperarmos a nossa economia e cumpriremos as nossas obrigações. O jogo é tão limpo quanto isto. Menos limpo é o jogo da UE, que vê o seu modelo económico da imposição da austeridade ser posto em causa, achincalhado por umas “desnorteadas gentes do sul”, como diz Hélia Correia, no seu belo poema da obra A Terceira Miséria. 

Todavia, a UE não suporta esta “impertinência” do sul, que, por acaso, até já percebeu que foi enganada e cujo rastro incendiário ameaça agora contaminar os países que se encontram atolados na mesma lama. Os povos do sul reerguem-se, o PODEMOS espreita e aguarda pacientemente a sua brecha para fissurar o belo edifício da austeridade. Itália e Portugal manifestam essa latência explosiva, mas que ainda não se organizou como o SYRIZA ou o PODEMOS. Na verdade, o que esperamos para compreender o fiasco, quando Lagarde já veio afirmar repetidamente o falhanço das previsões, quando o economista Krugman defende que a austeridade é o cancro da Europa? Quando Yannis Varoufakis os apelidou justamente de “terroristas”?

Nas próximas semanas, a Grécia irá enfrentar a mais dura das batalhas. Desta vez não enfrentará Xerxes, mas um inimigo muito mais manhoso, porque é uma teia. Uma teia cuja aranha gigante não luta lealmente, mas faz do medo a sua arma mais traiçoeira. Há muitos perigos e oportunistas a observar o enredo homérico, entre eles Putin. A Europa que se cuide.

PS: Já agora leiam o magnífico discurso de Hélia Correia, na cerimónia de entrega do Prémio Camões, que a autora dedicou à Grécia.

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