Nós Fomos Esperados sobre a Terra

Eduardo Prado Coelho
Filósofo? Crítico literário? Cronista? Ficcionista? Historiador da cultura? Pensador? Não saberemos muito bem classificar o trabalho imenso de Walter Benjamin, autor que se tornou fundamental em qualquer tentativa para pensar a modernidade e os seus percursos contraditórios. Para uma certa esquerda europeia e sul-americana (foram frequentes as traduções no Brasil, onde se tornou um autor de culto), Benjamin constituiu uma outra forma de ser marxista, fugindo por completo aos conceitos tradicionais, criticando a ideia linear de progresso, introduzindo a dimensão trágica onde outros prolongavam o optimismo das Luzes, e procurando pensar as consequências das transformações tecnológicas nas formas de pensar e de sentir: neste plano, provavelmente um dos textos essenciais de Benjamin é “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, peça de leitura obrigatória em todos os departamentos de Ciências da Comunicação. Marxista? De certo modo, sim. Ou alguém que se desejava marxista. Mas, ao mesmo tempo, alguém que partia permanentemente da teologia para desembocar numa utopia que se pode definir em termos borgesianos: “O que foi, o que é e o que será, a história do passado e do futuro, as coisas que tive e as que terei, tudo isso nos aguarda num qualquer lugar desse labirinto tranquilo…” Leia-se também os “Quatro Quartetos” de T. S. Eliot, está lá tudo.
Não existe entre nós grande bibliografia sobre Walter Benjamin: em livros sobre a questão da imagem, é imprescindível citar Bernardo Pinto de Almeida; como sempre, José Bragança de Miranda está atento e desenvolve a partir dos seus textos uma utilíssima reflexão crítica, em particular na “Analítica da Actualidade”; João Barrento estuda-o atentamente, em particular, mas não só, a propósito dos problemas de tradução; deve-se a Teresa Cadete uma tese sobre o autor (“As asas da paciência. Dialéctica da catástrofe e da redenção no testamento histórico de Walter Benjamin”) de muito difícil acesso; há uma tese de mestrado de Maria José Campos; António Guerreiro converteu-o, nos seus ensaios de maior fôlego, numa referência fundamental; e por fim um nome central e decisivo, com vários ensaios de leitura obrigatória: Maria Filomena Molder.
Mas faltava um estudo de conjunto, que nos desse uma imagem viva das grandes formulações e invenções conceptuais de Walter Benjamin. A partir de agora, ele existe: publicado na editora Angelus Novus (onde tem vindo a sair algum do nosso melhor ensaísmo e crítica), e da autoria de Maria João Cantinho, temos “O Anjo Melancólico – Ensaio sobre o conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin”, trabalho de origem universitária, orientado pela já referida Filomena Molder. Escrito com grande sensibilidade, que não exclui um incessante rigor terminológico, “O Anjo Melancólico” é uma iniciação, mas ao mesmo tempo uma leitura pessoal, em muitos aspectos sugestiva e tonificante, de Walter Benjamin, baseada fundamentalmente em três textos que pontuam um itinerário: “As origens do drama barroco alemão”, o ensaio sobre Charles Baudelaire, e esse projecto desmedido, estranho e impossível que são as “Passagens”. Se quisermos, no entanto, dizer desde já o que mais nos fascina no trabalho de Maria João Cantinho, devo sublinhar o modo como os temas se vão concatenando de uma forma discreta, segura e inovadora. Tudo chega na hora certa. E no final do livro estamos cheio de admiração pela capacidade de síntese de Maria João Cantinho, mas não podemos deixar de nos surpreender com a excepcional riqueza conceptual de Walter Benjamin. Tantas ideias, tantos temas, que se infiltraram no mais clandestino e inconsciente estrato da nossa ideia de modernidade, e que vêm quase todos de um texto, de um livro, de uma frase, de uma observação de Walter Benjamin! E a ajuda de Maria João Cantinho é preciosa, porque há em Benjamin por vezes frases enigmáticas, formulações obscuras, sondagens alucinadas na noite das ideias, e é preciso uma enorme coragem para afrontar a dimensão figurativa e dialéctica desta prosa densíssima.
Há pensadores da continuidade, que cultivam um optimismo pacificado, e pensadores da ruptura, para quem a catástrofe e a salvação abrupta e impiedosa são categorias essenciais. O lado revolucionário de Benjamin vem menos de um pensamento sobre a revolução do que de uma forma de produzir revoluções, cortes, incisões, viragens, dobras, inflexões, no interior do próprio pensamento.
Neste ponto vale a pena ler a seguinte passagem: “A imagem da felicidade encerra a da salvação, inelutavelmente, tal como a ideia de ‘passado’. A imagem da salvação é dela própria a chave. Não é a voz dos nossos amigos que assombra, por vezes, um eco das vozes daqueles que nos precederam sobre a terra? E a beleza das mulheres de uma outrora não se assemelha à das nossas amigas? (…) Há um encontro misterioso entre as gerações futuras e aquela de que nós próprios fazemos parte. Nós fomos esperados sobre a terra. Foi-nos entregue, tal como a cada geração que nos precedeu, uma parcela de poder messiânico. O passado reclama-a, tem direito sobre ela (…) O historiador materialista sabe disso qualquer coisa.”
Estávamos habituados a pensar a utopia como uma ideia forjada a partir do conceito de futuro. Ora em Walter Benjamin descobrimos a força imensa do passado, de um passado irredimível que é preciso, apesar de tudo, resgatar. O anjo empurrado pelos ventos do progresso é para a catástrofe da história, para a sua acumulação de ruínas, que olha incessantemente. É aí que encontra a sua razão de ser. O que faz que o presente se vá saturando de passado até explodir como um ponto de implosão dos tempos convergentes. E daí também um dos principais conceitos que Walter Benjamin lega à compreensão da história e ao trabalho da arte: a noção de “imagem dialéctica” (que sustenta toda a ideia de “história de arte” de um excepcional historiador e ensaísta como Georges Didi-Huberman, curiosamente esquecido na extensa bibliografia): “Cada presente é determinado pelas imagens que são síncronas com ele; cada Agora é o Agora de uma cognoscibilidade determinada. Com ele, a verdade é carregada de tempo até à explosão. (Esta explosão, e nada mais, é a morte da intenção, que coincide com o nascimento do verdadeiro tempo histórico, da tempo da verdade.) Não é preciso dizer que o passado ilumina o presente, ou que o presente ilumina o passado. Uma imagem, pelo contrário, é aquilo em que o Outrora encontra o Agora num clarão, para formar uma constelação. Por outras palavras, a imagem é a dialéctica em suspensão. Porque enquanto que a relação do presente com o passado é puramente temporal, a relação do Outrora com o Agora é dialéctica: ela não é de natureza temporal, mas de natureza figurativa.”
Maria João Cantinho abre o seu livro com a teoria da linguagem de Benjamin, que pressupõe o mesmo lugar tranquilo nos labirintos da história, que é a linguagem dos nomes, essa forma adâmica de linguagem (e traduzir é fazer com que a língua que traduz e a língua traduzida possam convergir em direcção a essa linguagem pura). Escreve Walter Benjamin: “A linguagem – e nela a essência espiritual – só se expressa de modo puro, quando se expressa no nome, quer dizer: na nomeação universal.” E nesta língua pura comunica-se a própria comunicabilidade da língua, o seu querer-dizer. Na medida em que a linguagem é o lugar do conhecimento da história, esta teoria da linguagem é a plataforma teológica donde emerge todo o pensamento de Benjamin.
No estudo do drama barroco, é a noção de história como catástrofe que ganha predominância, mas o ponto essencial é o confronto entre a ideia de alegoria (que é algo que vive da separação e da suspensão, na vertigem da incompletude), e a ideia de símbolo (que é um projecto de reunião e harmonização, uma vontade de totalizar). Ora a vida é imanência, contingência, repetição infinita, irreversibilidade da duração temporal, descontinuidade dramática, e por isso é no símbolo que encontramos a cifra da sua sempre adiada compreensão. Anunciá-la e adiá-la corresponde ao trabalho da arte – que o crítico prolonga, mantendo a iluminação nocturna da cifra no próprio processo de decifração.
Benjamin, na leitura de Maria João Cantinho, é ainda o leitor de Baudelaire e das suas figuras do herói na cidade. E é também a tentativa de compreensão da cidade do século XIX. Entre o “flâneur” e o coleccionador, entre a perda da aura e a reprodução técnica, entre o fetichismo e a mercadoria, entre o tempo e o jogo, entre a erosão da experiência e a fascinação das narrativas como forma de transmissão, vai-se traçando a experiência do homem da modernidade – aquela que ainda nos envolve mesmo que tal suceda no momento em que a pós-modernidade promove uma irreversível despedida.
EduardoPrado Coelho, in Público, 06 de Março de 2004
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