O resto é rosto: rastros Do ínfimo, de Maria João Cantinho; por Danielle Magalhães

Juan de la Cruz, Rumi e Eckart povoam “O lento passo dos nómadas”. Eu arrisco a dizer que todos os passos Do ínfimo são nômades, são todos outros e todos abertos à alteridade, todos passagens, fazendo dos passos, dos impasses, dos saltos e dos abismos começos possíveis de transitar. Do ínfimo é dedicado a todos “que caminham descalços”, aos “que caminham de olhos cerrados”, aos “que caminham de rosto coberto”, aos que “caminham e nunca chegam/ peregrinos de um clarão sem nome” – versos iniciais do poema “Os Peregrinos”.

Perplexidades e equilíbrios

É um livro de grande equilíbrio, que tem arquitectura e é meditado, denotando ampla consciência do seu ofício. Sendo discursivo não cai no vício da retórica; o seu léxico medido e uma expressividade controlada não perdem de vista os seus efeitos emocionais embora prescinda de se meter em ponta dos pés, no afã de cativar o leitor por um “sensacionalismo das imagens”.

“tem que ser navegando a longa noite”*

Mais do que linguagem, a poesia é antes um «outro olhar», religando o que se encontra separado, reencontrando esse sentido que não havia. Uma convocação, do sagrado ou disso para o qual não há nome, mas que nos permite nomear, reconhecer cada gesto, cada planta, cada animal. Algo que não está para além, mas que existe no íntimo de cada coisa e que a Linguagem faz despertar. Neste sentido, então, um outro modo de olhar o ínfimo e devolver-lhe o fulgor ou o sopro.

“Estamos hoje tão atordoados pelas luzes e pelo ruído que perdemos a capacidade de escutar e de olhar para as pequenas coisas”

"Estamos hoje tão atordoados pelas luzes e pelo ruído que perdemos a capacidade de escutar e de olhar para as pequenas coisas"

Pensar a alegoria em Walter Benjamin

No dia em que se fizer a história da recepção de Walter Benjamin em Portugal, este livro da Maria João será uma chave fundamental para a compreensão da mesma. Ele situa-se como ponto charneira da segunda geração de leitores de Walter Benjamin, segunda geração que se segue e que é herdeira, uma herança, aliás, nada a contragosto contrariamente a outras heranças, de figuras como Filomena Molder, João Barrento ou Bragança de Miranda. O mais interessante, aliás, é ver como esta história percorre o livro de uma ponta à outra e como as clivagens e as diferenças que existem na recepção de Benjamin encontram uma tensão produtiva na própria formulação conceptual da alegoria.

Paul Celan: Da Ética do Silêncio à Poética do Encontro

Já está mesmo a sair o livro "Paul Celan: Da Ética do Silêncio à Poética do Encontro" co-editado por Cristina Beckert, Carlos João Correia, Ricardo Gil Soeiro e Maria João Cantinho. A capa é uma beleza, do pintor Anselm Kiefer.  

Eduardo Prado Coelho

Nós Fomos Esperados sobre a Terra

Filósofo? Crítico literário? Cronista? Ficcionista? Historiador da cultura? Pensador? Não saberemos muito bem classificar o trabalho imenso de Walter Benjamin, autor que se tornou fundamental em qualquer tentativa para pensar a modernidade e os seus percursos contraditórios. Para uma certa esquerda europeia e sul-americana (foram frequentes as traduções no Brasil, onde se tornou um autor…