Antologia Poética Clepsydra, organizada por Gisela Ramos Rosa

Apresentação de Antologia Poética Clepsydra

O vento, poeta, é o caminho.

Amadeu Baptista
Permitam-me começar com este verso do poeta Amadeu Baptista. Do mesmo modo, Gisela refere o “incerto” e o “indeterminado” como possibilidades de nomeação poética, como este verso me permite o acesso a esta antologia, ao abri-la ao acaso. Gisela Ramos Rosa diz ter centrado esta antologia na ideia de Tempo, sob a imagem da clepsidra, que dá título à mesma. Nada é mais vago, como núcleo temático, mas é preciso lembrar que o tempo é também uma matriz imagética poderosíssima na poesia. E a clepsidra é um relógio de água antiquíssimo que, como todos sabemos, tinha uma função: medir o tempo. Mas que tempo é este, de que aqui se fala? Será o tempo actual, o dos relógios, mecânico e esvaziado, a que Baudelaire se referia, num poema de Spleen et Idéal, como um tempo reificado, em que os minutos cobrem o homem como flocos de neve: “E engole-me o Tempo, minuto a minuto,/tal como a neve imensa a um corpo enregelado.”[1]? Um tempo que aliena o sujeito da sua dimensão mais autêntica da experiência, deixando-o à mercê da desumanização das grandes cidades? Baudelaire fala destes citadinos que foram “expulsos do calendário”, no Spleen, que se parecem com as pobres almas que andam de um lado para o outro, mas que não têm história. Essa é a experiência que nos cabe, nos dias de hoje, e que nos arreda do próprio acto de escuta e da fruição natural do mundo. Na sua introdução, Gisela fala desse tempo, o tempo vazio, que “consome o corpo e a alma no ritmo infernal de um mundo máquina, prisioneiro de um mercado que estilhaça o humano.”
Assim reaver a experiência passa por andar ao invés desta vertigem destrutiva, reabilitando um ritmo temporal mais qualitativo e que devolva ao homem a sua potência criativa. Porque recolher ao poema e à sua leitura, à sua escrita, é reaver esta dilatação do tempo que salva a experiência. Neste sentido em que o exercício da linguagem apenas pode exercer-se na lentidão e na demora, no mergulho ao ínfimo, ao fragmentário. E disso sabiam muito bem os poetas como Hölderlin, o poeta do silêncio mais puro, como o sabiam Novalis e os grandes poetas de tradição metafísica. Não é por acaso que é aqui citado António Ramos Rosa e que é, para mim, aquele que nos trouxe, na sua poesia e deforma esplendorosa, o lastro dessa tradição metafísica.
O tempo da poesia é o tempo da passagem, do limiar, da escuta. O tempo do silêncio, como o refere Gisela, ao citar esse texto incontornável de George Steiner, Linguagem e Silêncio, que foi recentemente traduzido entre nós. Porque é preciso abandonar todo este ruído que nos persegue e nos esvazia, para deixar ressoar a presença da linguagem, obscurecida e esquecida e os poetas conhecem esse compasso de espera, que os conduz a si próprios e à sua voz. Há nessa espera um abandono, um despojamento que os deixa em perigo, no limite da linguagem e que os mergulha na sua solidão.
E são estes tempos, “tempos do humano”, como o designa Gisela Ramos Rosa, que foram aqui “grafados” por 92 poetas, que reúnem as gerações mais velhas às mais jovens. Trata-se de um projecto ambicioso e arriscado, sobretudo pela sua heterogeneidade. Junta vozes poéticas de várias gerações, de origens geográficas diversas, com diferentes poéticas, o que torna ainda mais difícil a sua organização, mas que Gisela levou a bom porto. E, como o diz no posfácio Marília Miranda Lopes, “antologiar poemas sobre o tempo é uma forma de condensar o efeito da sua passagem”. Condensação que guarda em si, neste caso, uma vibração própria da nossa época, com as suas inquietações, certamente algumas mais explícitas e outras menos. E nos tempos difíceis que atravessamos, a poesia confere ao gesto esse carácter político, de resistência aos ventos adversos da história. E, mesmo durante as épocas de catástrofe histórica, sabemo-lo, a poesia conserva em si essa potência salvífica do “seu tempo”. Basta lembrarmo-nos de poetas como Paul Celan, Anna Akhmatova, cuja experiência terrível e destroçada acabou por converter-se em poesia absolutamente única. Catártica ou muito mais do que isso, a poesia tem esse poder de, pela palavra, intensificar o mundo e o real, transformando-o em linguagem. Por isso, ela convoca a presença do real, de todas as formas, configurando-se como a sua manifestação.
Agamben, no seu livro A Linguagem e a Morte, fala da morte como a supressão da Voz<!–[if supportFields]>CITATION Gio91 \p “152, 153” \l 2070 <![endif]–> (Agamben, 1991, pp. 152, 153)<!–[if supportFields]><![endif]–>. Enunciar “A Voz” não diz nada nem quer dizer nenhuma proposição significante, mas sim indicar o puro lugar da linguagem no tempo, como revelação do humano. E é esse aspecto que, como sabemos, nos demarca enquanto seres culturais. Não só Heidegger insiste nesta vocação maior da linguagem (e portanto da poesia, como a mais elevada das suas dimensões), como também uma certa tradição metafísica que reconhece na poesia essa vertente, não apenas ética, como também política. E quando falo de política, não me refiro certamente ao “estar ao serviço de A ou B”, à instrumentalização da linguagem, mas sim ao seu carácter subversivo, de questionamento. E aludo também a um lado que a poesia nos traz aqui e agora, a da partilha ética, de uma corrente de afectos, ideia que implicitamente se encontra nesta antologia e que importa aqui lembrar. Este sentido de comunidade poética que tende a perder-se na aceleração da vida moderna e que nos cabe recuperar como um antídoto à solidão individual.
A lógica do poder em que nos encontramos e em que vivemos, a de uma economia em que o indivíduo se vê esmagado e engolido, que o reduz a um autómato, numa sociedade em que imperam os valores económicos e um poder cujo rosto não é hoje senão uma máscara alegórica de uns tantos interesses internacionais e que nos são totalmente alheios, configura um território de ninguém, onde já não reconhecemos os ideais que constituíram a nossa experiência do mundo. Eles desapareceram do nosso horizonte e é preciso reencontrá-los, senão no conforto do passado, é, pelo menos, é preciso reinventá-los, a partir da nossa memória colectiva, para que essa constelação da comunidade, a que sempre pertencemos, não nos abandone de vez. Além de memória, o Tempo também se aninha no futuro, para “roubar” uma expressão a Walter Benjamin. O poder da linguagem é simbólico, mas isso não o transforma em algo de menos importante, pois nela age esse imperativo ético da restituição da justiça e de uma ética comunitária, onde seja possível ainda habitar, um lugar ou um topos do humano. E a cultura, num sentido abrangente, pode ainda ocupar esse lugar e deve exigi-lo. Num livro magnífico de Didi-Huberman, um dos pensadores mais interessantes da actualidade, Survivance des Lucioles, ele diz que os pirilampos, esses focos de luz – e de cultura – não desapareceram e que estão entre nós, na nossa noite, mas que precisamos de estar atentos a eles, para que eles nos iluminem e nos permitam resistir à perda da experiência e à dissipação da tradição, ao desaparecimento desta ideia de humanismo que nos foi legada. Dou por mim a pensar que esta obstinação dos poetas em manter as tertúlias, os encontros poéticos, um pouco por todo o lado, mostram bem esse desejo de resistir aos grandes poderes instituídos e que tentam impor a tirania da mesmidade na cultura, como a mais eficaz forma de manipulação social e política. Os que se encontram esmagados, e infelizes, perante este mundo cada vez mais estranho e bárbaro, deviam, por todos os meios, fugir a este pessimismo aniquilador, não através de um optimismo ingénuo, mas de uma organização do pessimismo, como o disse o surrealista Pierre Naville, em plena ascensão do fascismo na Europa. E não nos iludamos, ele está aí de novo, alojado nas fissuras da história, esperando o momento certo para agir. É preciso combatê-lo e, se não tivermos outras armas, então que o façamos com a única arma de que dispomos, a Palavra, esse clarão límpido e irredutível. Falo, evidentemente, da palavra poética, e falo também do Tempo, do nosso tempo.

 Bibliografia

<!–[if supportFields]>BIBLIOGRAPHY<![endif]–>Agamben, G. (1991). Le Langage et la Mort. Paris: Christian Bourgois.


[1] Fleurs du Mal, p. 201.

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7 thoughts on “Antologia Poética Clepsydra, organizada por Gisela Ramos Rosa

  1. Breve Leonardo

    Assim a voz, a voz que ensaia e acolhe o tempo,
    o tempo que como no poema de Fernando Echevarría se diz que

    “(…) vive, quando os homens, nele,
    se esquecem de si mesmos,
    ficando, embora, a contemplar o estreme
    reduto de estar sendo.”

    Tão límpida quanto instigante, tão acolhedora esta sua leitura do Clepsydra “acontecido” a tantas vozes, de tantos múltiplos fragmentos acontecidos poesia, que como “uivo agreste… estrondo silêncio”, se teimam na intemporalidade da palavra como quem se procura no incessante diálogo com o mundo, o tempo e a voz, pelo poema

    por “esse clarão límpido e irredutível”, pela palavra!

    Com gratidão
    nesse imenso abraço,

    bL

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