A mulher que venceu D. Juan

a mulher que venceuMarques, Teresa Martins, A Mulher que venceu Don Juan, editora Âncora, 2013.
Muito conhecida pela sua obra ensaística, Teresa Martins Marques lançou recentemente o seu primeiro romance. 1989 foi o ano em que a autora venceu o Prémio de Ensaio José Régio com o manuscrito O Eu em Régio: a dicotomia do Logos e do Eros. Em 1993 seguiu-se a publicação de uma obra que se tornou uma referência fundamental, na investigação sobre a obra de José Rodrigues Miguéis, O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis, em 1994. Teresa Martins Marques foi, também, responsável pela edição das Obras Completas (em 13 volumes) de José Rodrigues Miguéis (1994-1996) e, ainda, pelo tratamento do espólio do escritor e poeta David Mourão-Ferreira, durante 7 anos, entre de 1997 e 2004. David Mourão-Ferreira foi o autor escolhido por Teresa Martins Marques, para a sua tese de doutoramento.
Quando a autora pensou em publicar esta obra, o risco era grande, à partida, todavia a autora manteve-se à altura desse desafio a que se havia proposto. Teresa Martins Marques começou por publicar partes do texto na Internet e, nomeadamente, no seu mural, a partir de Outubro de 2012 até ao mês de Maio de 2013, tendo-nos demonstrado que os efeitos da comunicação podem ser utilizados de uma forma criativa e inédita. Foi assim que, combinando personagens reais e fictícias, num constante diálogo com os seus leitores, o romance começou a ganhar forma, tornando-se uma obra instigante e que toma por objecto um tema bem pertinente, o da violência doméstica. A forma como está construído, a sua dinâmica ágil e o enredo envolvente prendem o leitor até ao seu final. E isso não acontece apenas pelo modo como a acção se desenrola, mas também pelo domínio da autora na construção das suas personagens.
Teresa Martins Marques abre o romance com quatro citações, todas elas alusivas a uma das figuras mais enigmáticas e interessantes da nossa cultura: D. Juan. Como sabemos, o donjuanismo é um dos grandes temas, quer no plano literário, como musical, dramatúrgico ou, ainda, no cinema. Infinitas são as ramificações do conceito e a ironia da autora encontra-se exactamente no modo como subverte as interpretações mais tradicionais, acrescentando-lhes interpretações inéditas, provenientes da psicologia e da psicanálise. Só uma profunda conhecedora da tradição literária e do tema em questão, poderia utilizar a sua erudição de uma forma que é, ao mesmo tempo, lúdica e despretensiosa, como o faz Teresa Martins Marques. A destreza como as reflexões se vão concatenando em torno dos temas aqui abordados, como a luxúria e o amor, são consequência de uma decisão clara da autora, a de não querer transformar as suas personagens em figuras vazias e espectrais. Os diálogos fluídos constituem outra das estratégias mais conseguidas, desse ponto de vista. São muitas as figuras que vão desfilando sob o olhar do leitor: o Dr. Amaro Fróis, o D. Juan, o médico hipócrita e devoto da beleza artificial, que desconhece o amor e faz da luxúria o seu instrumento de poder perverso, a Sara/Esmeralda, mulher bela que se rebela contra o estatuto de instrumento sexual e de boneca de luxo ostentada pelo marido poderoso, a psicóloga Lúcia que acompanha (e salva) mulheres que são vítimas de violência doméstica, albergando-as na casa da Caparica (o nome é fictício, mas a organização da APAV é real), Luís, professor universitário e alcoólico, homem bom que procura a redenção pelo amor, Manaças, a figura do oportunista que vive de expedientes, entre muitos outros que ocupam aqui um lugar secundário.
Nenhuma destas personagens carece de espessura, antes se posicionam de diferentes ângulos de visão, em caleidoscópio, evidenciando a subtil capacidade de observação da romancista, cuja experiência e conhecimento da natureza mundana lhe confere instrumentos precisos na descrição dos traços psicológicos de cada uma delas, estabelecendo assim uma clara contraposição entre elas e definindo-lhes o contorno. Essa espessura é o que contribui também para a verosimilhança das personagens, sendo que algumas delas são verídicas. E o trabalho de linguagem da autora é rigoroso, a linguagem que lhe dá corpo é fluída e musical e, não raro, poética.
A acrescentar a essa construção, o conhecimento literário do género narrativo, a ironia mordaz e subjacente que se encontra sempre presente na voz do narrador, libertando o romance dos seus constrangimentos moralistas e hipócritas (outra das virtudes que lhe encontro), exprime bem uma visão da natureza humana que não se prende nunca a um olhar estereotipado, ainda que vários personagens sejam, eles próprios, pela sua natureza intrínseca, estereótipos da nossa sociedade (o machista, a/o interesseiro, a bela fútil, etc.).  
Nada aqui é deixado ao acaso e também não o será a abertura do capítulo intitulado “La Donna è Mobile”, onde se descreve o modo como Amaro Fróis tem na ária do terceiro acto da ópera de Verdi, Rigoletto, o seu tema musical predilecto. Amaro Fróis,  o reputado e cínico médico de cirurgia plástica, que nos relembra vagamente algumas patéticas (e bem reais) figuras do Jet Set de irrepreensível recorte, é uma personificação nada escrupulosa, um D. Juan pós-moderno, ocultando os mais obscuros segredos, que se revelarão apenas no final. E será ainda numa das cenas mais decisivas da obra que a célebre ária do Duque de Mântua, essa ironia suprema do donjuanismo, reaparecerá, marcando a tónica, bem como a escolha claríssima que Teresa Martim Marques pretende conferir à narrativa.
Outro título, igualmente revelador e que marca o compasso desta obra é “A máscara do sedutor”.  D. Juan, sabemo-lo, não ama as mulheres, mas apenas se adora a si mesmo, usando os seres que seduz com a finalidade de satisfazer a sua insaciável fome de poder e de luxúria. É verdade que estes seres são galantes e atraentes, mas tais atributos não passam apenas de uma máscara usada para enredar as vítimas. E o donjuanismo, temática literária tão vasta, não é nem nunca será um tema ultrapassado, dado que a estrutura das relações de poder no amor se mantêm inalteráveis na história da humanidade. Não é em vão que a autora invoca detalhadamente o pensamento de Kierkegaard, sobre o qual a sobrinha de Lúcia, Manuela, fará a sua tese de doutoramento, também essa uma luta simbólica contra o don juanismo. D. Juan coloca questões filosóficas de vasto e denso alcance, como a hybris (ainda que de uma foma mais implícita), já que o sedutor se julga acima do comum mortal, desafiando, transgredindo as leis a que o respeito e o amor obrigam. Por vezes, e aqui se encontra também o caso, a sua forma é maquiavélica, na forma como instrumentaliza o Outro e o reduz à ínfima condição, destituindo-o do seu amor-próprio e da sua dignidade. Não é aleatório que Teresa Martins Marques relembre a obra-prima da literatura desse género que é Les Liaisons Dangereuses, do escritor francês Pierre Choderlos de Laclos, evocando a diabólica figura que era o Visconde de Valmont. Amaro Fróis é mortífero como o foi Valmont, mas também morre pelo seu próprio veneno.
O donjuanismo contém tantas variantes quanto os contextos em que se desenvolve, não se limitando ao género masculino (lembro o caso de Joana, mesmo que o termo correcto seja o de “femme fatale” e lembro também, a esse propósito, a Marquesa de Merteuil de Liaisons Dangereuses). Daí que o romance de Teresa Martins Marques, nesse acompanhamento das metamorfoses do don juanismo e dos seus efeitos perversos, seja tão actual e tão realista, ousarei dizer mesmo, tão pertinente. Não se trata de um ensaio académico e desengane-se o leitor que vem à procura de explicações ensaísticas, psicanalíticas e literárias – ainda que as haja. É, antes, um romance político, no melhor sentido que a palavra pode ter, melhor dizendo, numa vertente ética. À autora não lhe interessa uma inócua história de amor bem contada, ainda que do romance faça parte o amor, tal como a morte ou a vida, o mal, entre muitas outras temáticas que se desdobram em variações inúmeras. Sara é a personagem central, mas torna-se difícil, aqui, identificar uma heroína principal, pois, ao longo da obra, encontramos várias mulheres de inabaláveis e irreversíveis convicções. Tome-se como exemplo Lúcia, a psicóloga, ou ainda as mulheres que vivem na casa da Caparica, refúgio da APAV, lugar onde a solidariedade se transforma na grande fonte da sua coragem.
Além de política e ética, a escolha de Teresa Martins Marques é corajosa, uma vez que o feminismo é olhado de soslaio, nos dias que correm, como se pudéssemos fechar os olhos à realidade cruel da violência doméstica, no nosso país e não só. Habituámo-nos a olhar para esse problema como se tal não nos afectasse e acontecesse apenas às “outras”, às que são pobres e sem recursos. Não é verdade, a violência doméstica é transversal a todos os estratos sociais e não se esconde tanto assim. É, aliás, cada vez mais escandalosa e brutal e o livro de Teresa Martins Marques luta contra esse silêncio cúmplice que, tantas vezes, se abate sobre as vítimas. E a violência é tanto pior quanto mais ela se inscreve como tradição nas sociedades inegavelmente machistas, em que as mulheres não alcançaram ainda, por diversas razões que lhes são alheias, a igualdade social. É fruto da ignorância e do medo. A autora denuncia essa realidade, encontrando numa narrativa poderosa, assente em raízes verídicas, a forma mais eficaz de o fazer. Obriga-nos a olhar para as vítimas, a repudiar os agressores, contamina-nos, convoca-nos à reflexão. Como raros livros, esta é, em absoluto, uma obra incisiva e “perigosa”, sobretudo para os que se sentem visados, aqueles que se sentem a salvo, precisamente por contarem com a indiferença generalizada. É perigosa, também, porque o gesto de solidariedade incondicional que aqui é evocado a cada momento, constitui a esperança que falta a muitas vítimas, esse “resto” de qualquer coisa que as pode levar à revolta e romper o círculo infernal. Num tempo em que a indiferença cresce desmesuradamente à nossa volta, urge o uso da linguagem como um gesto ético, de profundo sentido e compromisso.
Talvez a academia não se sinta à-vontade com o género (o folhetim) e com o modo como o livro se foi consolidando, num diálogo aberto com os leitores da autora no facebook,. A acompanhar esse diálogo, Teresa Martins Marques procedeu a rigorosas investigações, sem negligenciar a importância do tema. A forma como a autora subverte a mais controversa das formas de comunicação, conferindo-lhe uma eficácia notável, para escrever o romance, é também uma “revisitação” moderna do feuilleton, esse género híbrido entre a prosa e a narrativa criado no início do século XIX e que constituía um registo do quotidiano. Ele era redigido de forma apelativa, uma vez que a publicação se fazia sequencialmente e alimentava as vendas dos jornais. Ainda que visto como um género menor pela crítica literária da época, grandes autores da literatura clássica como Charles Dickens, Eugène Sue, Alexandre Dumas Filho, Gustave Flaubert, entre muitos outros, não foram indiferentes ao poder cativante do folhetim e cultivaram-no de forma prolífica.
O dispositivo narrativo que é aqui usado, no romance, intercala tempos diferentes, não se processando como uma narrativa linear, mas sim de uma forma em que os capítulos intercalam a acção presente com acontecimentos do passado. Esta estrutura vai-se mostrando, capítulo a capítulo, guiando o leitor, iluminando, mas sem lhe facilitar o caminho, pois o final eclode como uma verdadeira surpresa. Em A Mulher que Venceu D. Juan, todos os seus elementos – a história, os acontecimentos aparentemente dispersos – se vão concatenando até ao seu desfecho. Do mesmo modo que os capítulos nos revelam o ponto de vista de cada personagem, contribuindo para a sua densidade psicológica, também não existem acontecimentos gratuitos ou personagens à deriva e, mesmo os que nos parecem alheios, revelam-se como peças fundamentais do romance. Veja-se o exemplo de Joaquim, o motorista que conduz Sara a Lisboa e apenas reaparece no final, manifestando a sua presença absolutamente necessária. E a verosimilhança das personagens encontra o seu correlato na dos acontecimentos e dos próprios lugares em que a acção decorre.

Por vezes, o tom da narradora é satírico e bastante mordaz, nomeadamente nos momentos em que desmascara os propósitos e as duplas intenções de algumas personagens que exercem com frieza e precisão o seu poder. Mas é sobretudo um olhar que predomina, ora neutro, ora comovido, pelas personagens. Porque essas mulheres simples que habitam a casa da Caparica, lugar onde se escondem dos seus carrascos, são seres absolutamente admiráveis, pelo modo como se entregam à protecção umas das outras, ainda que sejam, todas elas, indefesas. Um acordo tácito, um reconhecimento e a gratidão pela mulher que as tenta salvar, a psicóloga Lúcia, eis o que constitui a vibração mais intensa e comovente desta obra. Fica-nos esse sabor amargo do remorso, a nós, leitores, que conhecemos tantas situações idênticas à nossa volta, o de não sermos capazes de denunciar o que é inominável: a violência física e verbal, sobre as vítimas (e não apenas mulheres), a crueldade com que certos seres humanos instrumentalizam o Outro. Para eles, a lição levinasiana do reconhecimento do Outro é um código desconhecido, algo que existe no seu sangue ou no seu DNA, apartando-os do humano. Todavia, se o Dr. Amaro Fróis se revela na sua desumanidade, há um traço de luz que percorre toda a obra e irradia sobre ela, desde o seu início. É nessa humanidade (e não falo aqui de santidade), escoando-se nos veios das palavras de Lúcia, de Sara, de Luís, que o olhar da autora se detém, inquieta e em busca de um sentido, de uma redenção possível. Há um nome que se escreve/inscreve nos intervalos e nos silêncios, nas entrelinhas do que é dito, um nome que se acende, mesmo na mais escura das noites. Ele escreve-se, antes de mais, no olhar da autora, comovido, fundindo-se com as suas personagens. O tempo tudo aquieta, parece dizer Teresa Martins Marques (e isso é sobretudo visível no final), mas, para que o tempo nasça de novo, é necessário desfazer-se do passado e do medo. A mulher que venceu D. Juan não é apenas Sara nem Lúcia, mas sim todas aquelas que cerraram um dia os punhos e olharam o medo de frente. É disso que se trata: olhar o medo de frente e despedirmo-nos do que nos dói, incluindo as máscaras.

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