Reaprender o mundo na luz da manhã

4ec40-traduc3a7c3a3odasmanhc3a3sQuando nasci voltei a reaprender a traduzir o mundo maior (…)

Gisela Ramos Rosa
Este é o segundo livro da autora, já que o primeiro havia sido publicado em 2006 e intitulava-se Vasos Comunicantes, fruto de um intenso diálogo com a belíssima poesia de António Ramos Rosa, um poeta maior da nossa literatura, recentemente desaparecido. No entanto, a poesia é um conviva diário na sua vida, nessa casa que é o Ser, como a poeta diz, no poema da página 24. Gisela Ramos Rosa é natural de Maputo e tem uma infância certamente parecida com a minha, que passei a minha em Angola. Isto não é um facto de pouca importância, como verão, pela leitura do livro, mas tatua a pele e inscreve profundas marcas no corpo. Licenciou-se em Relações Internacionais, em Portugal e é Mestre em Relações Interculturais. Tem colaborado com poemas em várias Antologias de Poesia, nacionais e internacionais, em Revistas de poesia como a Mealibra, Saudade, Sulscrito, Cultura entre Culturas, onde colaborou com trabalhos fotográficos, também, e escritos sobre o poeta. É actualmente coordenadora da colecção de Poesia “Meia Lua”, da Editora Lua de Marfim. Este é o número 7 desta colecção.
Já conheço a Gisela há algum tempo e tenho vindo a acompanhar os seus projectos e a sua dedicação incansável e louvável aos mesmos. Como também tenho observado a forma admirável como tem lutado pela divulgação da obra do seu tio, António Ramos Rosa, conservando sempre uma postura discreta e avessa a exposição.
No título do livro, tradução das manhãs, propositadamente escrito em minúsculas, está contido todo um programa que se inscreve numa poética da pobreza, para usar um termo rilkeano. É certo que a poesia de Gisela Ramos Rosa se perfila no horizonte de uma poesia metafísica, mas sem qualquer ostentação, muito mais próxima dos mestres da luz como Hölderlin, onde o poema canta nas suas pausas, no não-dito ou, ainda, na sua indizibilidade. Por outro lado, como não poderia deixar de ser, pela marca da poética de António Ramos Rosa e de Agripina Costa Marques, de quem diz, com a humildade que lhe conhecemos, na dedicatória inicial: “Aos meus tios António Ramos Rosa e Agripina Costa Marques que me ensinaram a escrever e a sentir a liberdade e o silêncio”. Porém, atrevo-me a desdizê-la: há uma experiência bem mais fundante, mais originária, que se apresenta na sua poesia, a da infância. E não é a de uma infância qualquer, mas aquela que é marcada por uma vastidão e uma liberdade que são, quase, incomunicáveis.
No primeiro poema, diz a poeta: “preciso escrever-te, em teus olhos repousa a prece da infância/que desmente as pedras e os muros”. Esta associação dos versos, a da “infância que desmente as pedras e os muros”, fala-nos precisamente do sentimento de liberdade experienciado na infância e, ao mesmo tempo, da necessidade de voltar a ela, pela escrita, pelo desejo de a reencontrar, no seu espaço de liberdade. E todo o poema fala dos gestos simples, da inteireza da luz, como um desejo de retorno. São recorrentes, nesta poesia, referentes como o pão, o fogo, a casa, a água e a luz. Encontramos também, ao longo de todo o livro, este diálogo com a poética de Ramos Rosa, este “preciso escrever-te”, como um acto, não apenas de partilha secreta da experiência, como também da linguagem.
No segundo poema diz, na p.9: “Quando a sede é pergaminho/a mão avança para a água do poema”. Reconhecemos o eco da ductilidade do poema roseano, a sua matéria orgânica, constante e a refazer-se. O poema, também, como matéria da poética, isto é, como uma meta-poética exigente e a reclamar o seu espaço, a sua conformação. A “sede” não é a de água, mas a de pergaminho, do mesmo modo que o poema é água que dessedenta, que liberta e invade as margens, que procura uma forma secular, na pedra. Talvez porque a pedra, mais do que enigma, seja o lugar onde se inscreve a escrita, guardando-a imemorialmente. A pedra guarda em si, fecha o sentido do poema, na medida em que nele se inscreve. Um exemplo disso são as runas, as pedras onde se grava a escrita, deixando o seu testemunho. O poema é dúctil, maleável, mas procura a sua fixação na pedra. Como um segredo, guardando em si o seu próprio sentido.
Um mundo mineral, onde se torna possível salvar o silêncio. Essa força motriz tão esplendorosa na poética de Hölderlin, que faz detonar a metáfora, o símbolo.
Veja-se, na pag. 10:
As palavras mais vãs são aquelas que habitam
O livre arbítrio dos dias.
Afasto-as do poema com a alma
Por haver um rio entre as muralhas
Onde os olhos se misturam com uma pronúncia muda.
O poema quer-se luz e rio, transcendendo as palavras vãs, aquelas que nos moldam a experiência do quotidiano. É preciso afastar essas palavras que recobrem o poema e o recobrem de vaidade humana. É preciso ver “o rio entre as muralhas”, onde o olhar se encontra com a verdadeira essência das coisas. Por isso a poeta invoca:
Invoco o oceano íntimo que trago no peito
Percorrendo as superfícies nuas.
Amo o princípio evidente das coisas, dos seres
Uma pedra, a boca, a baga desigual
É preciso, então, descobrir essa origem, esse “princípio evidente das coisas”, a sua alma, mas isso não poderia encontrar-se senão na intimidade do silêncio, que conduz aos nomes. Por isso, ela diz “vou encontrando a luz, palavra ou barca,/atravessando o dia até ao lugar do visível,/por detrás dos olhos, onde todas as águas se diluem/e encontram”. Donde vem a luz? Esta passagem, que bebe, implícita ou explicitamente em Platão, sobretudo na ideia de unidade, a de visibilidade associada à unidade, faz-se na linguagem, não através dele, mas nela, como um modo de reconhecimento das próprias coisas nas Ideias. É bem a unidade a fonte primordial da sua luz, mas é também nela que tudo se reconhece como pertença recíproca, como um caminhar para um reencontro. Mas esta linguagem não é a dos homens, certamente, este enleamento estranho e impuro com o quotidiano e a arbitrariedade de que se revestem as palavras que os homens usam, no livre-arbítrio dos dias. É outra coisa, de muito maior rarefacção, como no diz a poeta: “Os pensamentos são uma escrita silenciosa/são como ramos que se ligam por intervalos de silêncio.”
Esta obsessão, explícita nos versos da p. 12: “repara como é preciso ver para dentro e para fora/para a viagem entre nós e o mundo” remete-nos para um pré-horizonte que é o da linguagem poética. Quando Gisela diz “há uma palavra branca antes de tudo”, alude a uma linguagem inicial, anterior à conformação poética, como abertura fundante e possibilitadora do poema. Neste sentido, o poema é celebração da linguagem, no momento em que inscreve nela o sentido, pelo poema, pela nomeação. E é esta possibilidade de inscrição numa realidade pura e metafísica, como expressão, que transforma a poesia num acto metafísico. E a escrita é uma celebração: “escrevo para celebrar a voz que se funde/no corpo da criança que não derruba nem fere/e com a “água do poema” atravesso a frase que/me pensa por dentro como uma dança/no devir do gesto, a Verdade é a minha Liberdade”. Gisela Ramos Rosa faz-me “saltar” o pensamento para a escrita de uma grande pensadora, María Zambrano, que ela aliás cita, no poema da página 26. A pertinência desta afirmação joga-se nesta ideia zambraniana do pensamento e da poesia como uma dança: a dança da metamorfose. A poeta é certamente uma leitora, como eu, encantada pelo pensamento de María Zambrano, que, sem ser poeta, escrevia como uma poeta, próxima do pensamento de outro gigante da Literatura e da poesia: Miguel de Unamuno.
Numa extraordinária passagem da sua obra O Homem e o Divino[1], Zambrano escreve assim:
Incorpórea, a claridade da manhã dança. Quem não terá visto na claridade da manhã, na dança perfeita que é a metamorfose, uma pluralidade de figuras que, desenhadas e desdenhadas, não se corporizam, transformando-se infatigavelmente? Nascem e desfazem-se, enlaçam-se e retiram-se; escondem-se para reaparecer como faz o homem a jogar quando é criança, ou quando joga com esses jogos em que a infância se eterniza.
É muito esclarecedora a proximidade do universo poético de Gisela Ramos Rosa com o texto de Zambrano. Esta mesma ideia de uma claridade dançante da manhã, associada à ideia de metamorfose e de devir, a ideia de Verdade, associada à de Liberdade, parecem ser os mesmos ideais que animam a poética de Gisela, no seu sentido mais luminoso. A ideia da tradução das manhãs, contida no título, traz essa ideia à sua mais elevada expressão. É próprio daqueles que, como Gisela, pensam poeticamente a linguagem e os seus efeitos, esta ideia profundamente mística e que perpassa uma tradição que percorre a tradição alemã e romântica, desde Jacob Böhme, a Novalis, a de que o lugar da linguagem é, não apenas o da Revelação, mas também o do “reencontro” com as coisas. É também esse anseio de devolver às próprias coisas nomeadas a sua potência mágica, arcaica. No poema da página 24, essa alusão é clara, referindo-se ao “caminho”, que é certamente o “caminho da floresta”, os atalhos que levam a essa clareira do Ser, de que Zambrano fala, na sua obra Clareiras do Bosque. Leia-se, então: “Quando o caminho é um rio que se prolonga/ restituindo um novo olhar sobre a Casa/e persiste escrevendo ondulações sobre o espaço nos ramos das árvores nas janelas dos muros/em redor do coração de quem sente (…)”. Que “Casa” é esta? A própria poeta responde, no mesmo poema: “O Ser é a Casa, espaço que flutua/Alma onde as pedras se elevam/como escada para a herança/das árvores que queremos abraçar.”
Espaço sagrado e puro, litúrgico, sem dúvida, a “Casa” é o Ser, isto é, o conjunto das coisas na sua expressão mais esplendorosa, como realidade mística e inefável, da ordem de uma linguagem, também ela pura, sagrada e secreta, que apenas se dá enquanto nomeação poética. Reencontramos nesta poética um parente próximo, não apenas do pensamento essencialista de Heidegger, como também de Hamann, o mágico do Norte, que um dia disse ser a “Linguagem, pai da Razão e da Revelação, o seu Alfa e o Ómega”. Trata-se de estar atento, de se abrir à escuta, suspendendo o conhecimento objectivo das coisas e das imagens que delas temos e deixar que a voz se revele, como que através de um sonho, por exemplo, ou de um qualquer rastro secreto e interdito, que o poeta segue:
Sempre que sonho deponho as armas
E o ofício dos dias
Ainda que alguém me detenha
Quero ser Eva e ave que esvoaçam
Com as palavras onde encontro o segredo interdito.
Desfaço as rotinas com o Sol e as asas
De todos os silêncios.
Sempre que sonho atravesso uma porta
Que não resiste e me oferece
A pulsação do corpo o lume e a língua
Uma espécie de presença e espuma (..)
“Atravessar a porta” parece designar o gesto iniciático que desencanta o poder mágico da palavra, nesse ir ao encontro das coisas. Perpassa nessa travessia uma libertação do dizer, no seu sentido mais objectivo, isto é, mais comunicacional. A associação dessa transposição do limiar ao verso “Quero ser Eva e ave que esvoaçam” diz precisamente respeito a um retorno ao originário e ao feminino na sua origem, mas também a uma leveza que apenas pode advir desse retorno à origem, pela sacudir da opacidade da palavra e da sua espessura. E a linguagem liberta dessa opacidade é a da nomeação, como nos disseram os místicos da linguagem, como o sugeriram os pré-românticos como Novalis, também. Walter Benjamin, no seu texto “Sobre a Linguagem em Geral e Sobre a Linguagem Humana” resume magistralmente essa posição da linguagem como magia, como pura imediatez do dizer, bebendo no filão da mística de Hamann e de Jacob Böhme. Mas essa libertação da espessura da palavra, para a fazer explodir como nome, exige uma transmutação, uma viagem iniciática, que se concretiza na imagem poética do sonho. Para aquele que sonha a “natureza revela-se”, por se ter libertado da razão e por aceder a uma dimensão outra do Ser.
Novamente, esta leveza, este desejo de espiritualidade e de libertação da matéria, como um sonho órfico, se manifesta no poema da página 19: “Como se um anjo tocasse a matéria/as mãos podem segurar/as asas um impulso de queda//as mãos podem rever os poros/e deslizar na pele//as mãos podem revelar o fogo/como se um anjo tocasse a matéria/as mãos podem ser o voo”.
Detecto ainda, na poesia de Gisela Ramos Rosa, o sopro maior do pensamento e da poesia sufi, sobretudo de Ibn Arabi, o filósofo do amor, e de Rumi, figuras que estou certa que ela conhece. Pela convocação de certas metáforas e imagens, pela recorrência a uma poética amorosa, no sentido cósmico, pela própria forma como trabalha a temporalidade no poema, pelo profundo conhecimento e respeito do mistério da vida, pela incitação à dança e à elevação espiritual e à vida íntima do coração.
Veja-se essa presença no poema da página 23: “Não pronuncies a palavra esperança/ela está fora de ti é vã quando não sabemos/dos círculos que traçamos com o corpo//inventa um animal e dança com os passos/suspensos de todas as formas exactas, respira/se necessário cai, cai sem medo/o erguer recomeça sereno”. É um poema avassalador e, ao mesmo tempo, tão discreto, eivado de uma sabedoria mística, que reconhece a vida como mistério e a aceita, na sua metamorfose. A convocação mística, o apelo (e isto é também um panteísmo, no qual me revejo inteiramente) ao amor cósmico perpassa aqui: “anela os afectos sempre que tocares/uma árvore uma flor a água/envolve-te neles profundamente/como se Deus fosse a urgência do Amor//tudo o que sabes é um anel que cresce/sem que possas antecipar a ave/que vai migrando nos teus olhos/haverá um tempo iminente em que estarás/por detrás do olhar sabendo/que o corpo é uma encruzilhada do tempo/nele os sinais modelam um mapa legado/em cada acto presente//colhe o futuro nesse momento”.
A cadência do poema é um canto, em que o poeta suprime a pontuação, por saber que é uma poesia substantiva, em que as coisas se revelam nos nomes e se transmutam, em movimento livre de dança. Esta é a levez do poema, de onde ressalta a exigência de uma abertura, mas não no tempo do futuro, projectado e adiado, mas sim no tempo do Ser, essa instância do milagre do acontecer, o instante do presente, que se faz poema. Este desconhece os limites que a razão procura impor-lhe, encontra no Ser a sua génese e a possibilidade que o homem tem de habitar o mundo, pela transfiguração do sonho. Por isso diz a poeta no poema da página 24: “Quando o caminho/é um grão que desenha o movimento/e com os seus passos lentos não apela o abismo/ou a vertigem dos que persistem na roda da matéria//quando o caminho é um rio que se prolonga/restituindo um novo olhar sobre a Casa/e persiste escrevendo ondulações sobre o espaço/nos ramos das árvores nas janelas nos muros/em redor do coração de quem sente//quando o caminho é um rebento que agita e leva/a raiz para um lugar sem fronteiras enunciadas//o Ser é a Casa, espaço que flutua/Alma onde as pedras se elevam/como escada para a herança/das árvores que queremos abraçar”.
A ideia de um espaço e de um tempo que se dilatam comunga plenamente da poesia mística, onde revejo muito Hölderlin e também um certo Rilke, menos angustiado, que ela própria cita, nas páginas 29 e 32, com a sua tensão poética. Maria Teresa Dias Furtado estará certamente muito mais à-vontade para falar desta vizinhança, intuída por mim. Só através do canto poético e da linguagem pode o homem libertar-se plenamente. Mas essa exigência é também a de uma libertação da tirania da racionalidade, veja-se onde ela diz, no poema da pág. 26: “os sentidos serão a chave reveladora o mapa/intui uma melodia ela levar-te-á/além da porta”. Este acto, de se deixar levar pelo canto, imagem poética que é aqui recorrente, muitas vezes associada à metáfora do rio, é o que permite essa topologia, que está para além do espaço/tempo físicos, uma vez transposto o umbral do Ser. Só aí poderão as coisas livres, leves, nomeadas. E esse é também o “chão dos poetas”, uma “vigília aberta ao espaço”, um “culto que se estende/da terra à palavra num rastro de mãos/pulsando o início”. Esse é também “o chão dos poetas” que “é seiva que transforma e religa/espírito e matéria cântico e mundo”. E esse é também o lugar onde o “tempo que me acolhe/como um anjo que na neblina formula gestos/de uma barca que ondula no silêncio”. Nascer é isto, entrar na barca do Ser e do silêncio, nomear e “traduzir o mundo maior”, esse que se encontra escrito no Livro, no grande Livro da natureza, onde as manhãs nos trazem esse prodígio da luz, que revela a Linguagem, a que nos fala ao coração e aos sentidos, a que nos sonha e nos torna divinos, libertando-nos da materialidade e da finitude.
Maria João Cantinho


[1]Publicada na editora Relógio d’Água, p. 41.
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