Do nojo

A mudez transporta consigo a maior das eloquências. Creio que este é o estado de espírito que cresce entre nós, quando confrontados com a falta de meios (e muitas vezes de vontade) para resolver as situações. Assistimos diariamente a um massacre surdo (que nos chega através das imagens) e nem imagino o que é lidar de perto com a impotência, nos locais onde os refugiados chegam. Contra esta tristeza – a da impotência – não nos é possível fazer nada, a não ser pensar em modos de ajudar e de salvar quem tudo deixou para trás. Não o esqueçamos, eles são desapossados, fugiram da guerra e da morte. Partiram em busca de salvar-se de uma morte certa, às mãos do EI. Porque o programa do EI, enquanto não for travado, é o da ocupação de todo o território, conforme se pode ver aqui.

Mapa do Estado Islâmico

Mapa do Estado Islâmico

Os E.U.A. acompanhados dos países da NATO, na Europa, não hesitaram em destruir zonas que, pela sua natureza, ofereciam estabilidade ao avanço do EI. Uma vez desmembrado o Iraque e a Síria, tornou-se possível que os guerrilheiros do EI, actuando junto dos rebeldes e armados pelo Ocidente, rapidamente alcançassem uma tomada de poder sobre esses países, o que deixou as populações à sua mercê. A nossa responsabilidade, portanto, enquanto cúmplices (armando o EI e fomentando a guerra) só aumenta à medida que vamos deixando impunes os crimes destes apocalípticos assassinos, que se arrogam o direito “sagrado” de conquista. E a resposta tarda, enquanto os refugiados se expõem a todos os perigos para chegar à Europa.

Enquanto isso, numa dilacerada Europa, onde grupos de neo-nazis proliferam e se organizam, como por exemplo o Pegida (na Alemanha) e o Géneration Identitaire (em França), a situação dos refugiados que chegam torna-se cada vez mais penosa e catastrófica. Com a suspensão do espaço Schengen e o o fecho das fronteiras da Alemanha (que recebeu largas dezenas de refugiados), Áustria, Eslováquia e Holanda, após a chegada maciça de muitos milhares de pessoas, é caso para perguntar, como o faz André Barata num artigo que escreveu recentemente, se a Europa sobreviverá a esta crise. Ainda esta manhã, a Áustria mobilizou as Forças Armadas para uma missão de auxílio humanitário na fronteira com a Hungria, e a Eslováquia chamou a polícia para “detectar a presença de contrabandistas”. Neste momento, começa a caça aos contrabandistas, justificada pelo ministro do Interior, Robert Kalinak. “Não se trata de controlo de fronteira no sentido clássico”. Na Alemanha, em menos de 24 horas, foram detidos  25 indivíduos sob suspeita de tráfico de seres humanos. A Polónia afirmou, ainda hoje, que não hesitará em fechar as fronteiras e os países dos Balcãs seguirão a mesma política.

A Hungria endurece cada vez mais as suas posições, para travar um fluxo ininterrupto e desesperado de multidões que chegam diariamente, prevendo-se para breve o impedimento da passagem e, mesmo, da entrada dos refugiados, por causa do muro, prestes a terminar. A pergunta que se deve colocar é a de saber o que acontecerá aos refugiados que chegarão, a partir de agora. Serão mandados de volta? A posição de António Guterres, entre o desapontamento e o choque, dirigindo-se à comunidade europeia, na condição de responsável pelas Nações Unidas, é muito clara: “hoje, infelizmente, há uma União Europeia, mas a Europa já não está unida, está dividida”.

António Guterres advertiu ainda que, no plano da batalha ideológica que hoje se trava, a Europa também está a comprometer a defesa dos seus valores, pois rejeitar receber sírios, sobretudo se o motivo for por serem muçulmanos, “é algo que ajuda à propaganda do Estado Islâmico”.

Será que a União Europeia permitirá que isso aconteça, perante a passividade e a recusa em definir quotas de aceitação? E nós, cidadãos europeus, sairemos de consciência limpa? É certo que parece impossível acolher toda esta gente que chega, em condições desesperadas, mas o que faremos, diante disto? E os EUA não terão responsabilidade?

Já sem falar do nojo que sinto, diante de tanta xenofobia e “ignorância perigosa” que grassa por aí. Sentir que o comportamento das pessoas baixa ao nível animal da “marcação do território”, nem que, para isso, seja necessário fazer tábua rasa dos valores essenciais, insultando, tratando os que chegam como se fossem sub-humanos e inferiores. Chamam-lhe, imagine-se, “choque cultural”, como se a religião não fosse algo com que lidamos há milhares de anos e não fosse possível a coexistência pacífica. Como se não o tivesse sido no passado e não haja respeito pela diversidade cultural. Não é que não sejamos animais, biologicamente determinados, mas por algum motivo nos terá sido dada a razão. E a lucidez.

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2 thoughts on “Do nojo

  1. danielemaiatiago

    Oi Maria,

    Muito interessante o artigo e as questoes postas, elas sao extremamente pertinentes. Todavia, me ponho a pensar sobre a omissao dos EUA mediante a crise. A declaracao de receber somente dez mil refugiados feita por Obama chega a ser comica se nao fosse trágica. Essa guerra comecou por interesse estadunidense e quem anda arcando com as consequencias maiores é a Alemanha. Precisamos ser justos e ter ciencia de que a Alemanha nao tem território ou condicoes de receber 800 mil refugiados por ano, é inviável! E qual é a culpa dos refugiados? Eles nao querem vir para a Europa, eles só querem o fim da guerra… Pois, entao, a saída seria acabar com a guerra ou relocar multidoes?

    Beijinhos.

    Daniele

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    1. Maria João Cantinho

      Claro que a tua resposta tem toda a pertinência, Daniele. Fico chocada com a posição dos EUA. Eu também acho que a Alemanha se tem portado de forma exemplar nisto, como a Áustria. Repara que eu friso essa necessidade de acabar com o EI e pôr fim ao terror, creio que é uma prioridade nesta situação. E os países da Europa não podem abanonar a sua responsabilidade nisto. Concordo contigo, por inteiro. beijinhos, mj

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