A dor incontida

Perdoem-me a raiva, mas consintam-me a revolta. Uma revolta justificada, aliás, que se mede por ter os pés bem assentes na terra. Por observar o que acontece à nossa volta e que julgamos ser dos outros, que nunca nos acontecerá. Mães e pais, família que se ampara, quando é o caso, mas há também os que não têm família nem amparo, os que nunca tiveram emprego garantido, ainda que vivessem com alguma estabilidade financeira (não significa viver acima das possibilidades), pois o trabalho permitia-o. Pessoas que chegam à terceira idade, mas que ainda são demasiado novas para se reformarem, quando os problemas de saúde se avolumam e a conta vazia do banco não deixa ver a luz ao fundo do túnel.

Pessoas que trabalharam durante toda a sua vida e que não tiveram a comodidade de uma vida folgada. Pessoas que foram honestas durante toda a vida, íntegras, e que nunca viveram à conta de subsídios do estado. São muitos deles os profissionais liberais, com profissões que exigem qualificações. Estudaram para isso, descontaram para os impostos, tiveram algo que os cobriu e protegeu durante toda a sua vida: dignidade. Poderiam ter, como tantos outros, uma vida descansada e estar de férias algures, mas não. O dinheiro já não lhes permite tal luxo porque perderam, não o emprego, mas o trabalho, de que dependiam. E sentem-se discriminados, envergonhados, traídos, nem sabem bem por quem. Se devem atribuir a culpa a governos desastrados e corruptos ou à nova ordem europeia e mundial. Não fizeram nada de mal, perderam a sua fonte de rendimento, as empresas faliram, aquilo que lhes garantia o sustento desapareceu.

Pessoas que nunca chegaram a trabalhar e que estudaram. Tornaram-se habilitados em demasia e não são absorvidos pelos empregos de baixas qualificações. A desculpa é sempre a mesma. Habilitações em excesso. Não podem ter filhos, não podem casar nem ter casa, não podem nada. Dir-me-ão, alguns, que estou a ser demasiadamente emocional. Não estou. Num país em que o nível de habilitações é o mais baixo da Europa, custa a entender como é que esta massa de profissionais qualificados não tem lugar. Têm aonde? Terão todos de emigrar? E para onde, já agora? E crianças, já agora, não são necessárias no país? Para quê esta hipocrisia de aumentar a natalidade se não dão às pessoas a possibilidade de ter filhos?

E nós, povinho manso, eu diria idiota, ficamos a olhar. A ver passar o cortejo de jotas e jotinhas sem qualificações que têm empregos assegurados, arranjados à custa de concursos públicos fictícios, metidos à pressão em lugares para os quais não têm competências, a não ser o modo de vassalagem que agrada às chefias. Passam à frente de tudo, impunemente, descaradamente (pois já não se dão ao trabalho de mascarar as suas impunidades), passam à frente dos que estudaram e que trabalharam durante toda a vida com honestidade. Organizam-se por confrarias, clubes e conluios afins, aconchegam-se uns aos outros e pagam os favores em altura devida.

Os outros, os que nunca souberam como arranjar uma cunha (ou que, ainda de forma mais nobre, se recusaram ao jogo infame), ficam a olhar para quem nunca mereceu. Aqui nem me dou ao trabalho de os nomear, pois todos nós sabemos quem eles são, o que fizeram e como foram longe, sem cursos nem habilitações, na sua arte de “lamber” as botas uns aos outros.

Desculpem-me, não sou de odiar e até me considero uma privilegiada. O que tenho conseguido devo-o a mim, ao meu esforço. Mas, cada vez mais, odeio essa gentinha ominosa que se pavoneia sobre os destroços humanos, que sobe à conta de crimes “invisíveis” e atentados à honra de quem é honesto e íntegro. Os que hoje vivem envergonhados e quase se sentem culpados pelo seu fracasso. É preciso explicar-lhes que o fracasso não é deles, mas dos outros, que chafurdam num universo em que os valores humanos estão distorcidos e em que a honra de um homem pouco vale, neste mundo de números e de sombras, sombras de um vazio imperial, em que as estrelas passaram a ser mediáticas e vazias.

Apetecia-me nomear os esquecidos. Como um gesto de justiça, quiçá um desejo de devolver-lhes essa auto-estima. São muitas, essas vítimas sacrificiais de uma sociedade que perdeu a vergonha. Que se esqueceu do gesto de reconhecimento do outro, da solidariedade, de um certo ideal de justiça. Que venha um deus violento e faça o que tenha a fazer: restaurar a justiça. Seja de que lado for, é o mínimo que exigimos.

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