Já conheço a escrita de André Gago desde «O Rio Homem», publicado em 2010. Um romance que li com deleite, nessa altura, e que foi vencedor do Prémio Revelação do PEN de 2011. Voltei a surpreender-me pela positiva com a leitura do «Manuscrito de Alexandria» que, como sabem, foi vencedor do Prémio Armando Baptista Bastos. Na altura, o júri salientou a originalidade e a densidade da escrita, a sua elegância. Mas haveria muito mais a dizer sobre esta obra, o que vou fazer aqui. Se há obras que se deixam ler como uma história ou que nos prendem pela intriga e pela sucessão dos acontecimentos (coisa que aqui também acontece), outras há que nos obrigam a interromper a leitura, a fechar o livro e a pensar sobre ela. «O Manuscrito de Alexandria» pertence claramente a esta segunda categoria. É uma obra que exige do autor não apenas atenção, mas também disponibilidade para reflectir sobre o mundo em que vivemos, sobretudo sobre a violência, a alienação e a perda de contacto com a cultura e a leitura, com a memória, em suma.
É desde as primeiras páginas que nos apercebemos que não estamos perante uma distopia convencional. A ideia do autor não é impressionar-nos com máquinas extraordinárias e técnicas e instrumentos futuristas, com sociedades totalmente irreconhecíveis, mas a força desta obra reside no facto de nos confrontar com um mundo inquietantemente próximo. A Paris onde decorre a acção continua a ser a mesma que conhecemos, como as Tulheries, o Sena, o Marais, a Torre Eiffel, entre outros lugares que fazem parte do nosso imaginário. Todavia, essa cidade converteu-se no próprio espaço deformado da nossa própria época, corroída pelo capitalismo selvagem, pela desigualdade, pelo isolamento social e pela alienação.
O subtítulo do romance – Autobiografia futura – é a primeira provocação que o autor nos faz. Uma autobiografia fala normalmente do passado, mas André Gago escreve-a a partir do futuro e essa inversão altera completamente a perspectiva do leitor. O autor imagina um futuro suficientemente plausível para que possamos olhar o presente com outros olhos. Walter Benjamin dizia que a catástrofe consistia em não se poder parar o progresso e esta visão parece assentar que nem uma luva.
O próprio título da obra merece que nos demoremos nele. Alexandria, no nosso imaginário, é uma palavra carregada de memória, evocando imediatamente a grande biblioteca fundada na Antiguidade, esse sonho de reunir todo o conhecimento humano num lugar. Cruza-se o passado com o presente e o futuro, pois André Gago vai à procura de um livro antigo, Fisyonomia, na biblioteca de Alexandria. Este é o ponto de partida para a sua aventura. Mito, presente e futuro cruzam-se assim nesta obra, pelas evocações que nos traz. E, acrescentemos, aquilo que aqui «arde» não é a biblioteca e os seus livros, mas antes uma determinada ideia de humanidade. A pergunta filosófica em torno da qual gira toda a obra é: o que acontece a uma sociedade quando perde a sua relação com a memória?
E se este é um livro que reflecte sobre a memória, é preciso referir as suas referências fundamentais: Jorge Luís Borges e Umberto Eco em primeira mão, mas também encontramos ecos de Camus e da sua ideia de absurdo, de Kafka, de Dostoievski, de Orwell e de Huxley, bem como da tradição clássica greco-latina. Todavia, estas referências não são usadas de forma gratuita, mas são incorporadas de forma orgânica na narrativa, como se esses livros do passado continuassem vivos dentro do próprio romance.
O narrador apresenta-se-nos como um homem profundamente só. Apesar de viver em Paris na Torre Eiffel, com todo o conforto, vive praticamente fechado em casa, afastado do mundo e das pessoas, numa existência esvaziada. André Gago evita todos os efeitos melodramáticos e estamos perante um homem que perdeu a sua ligação ao mundo. Então encontra Nadèje, uma mulher livre, inteligente e culta e que constitui para ele uma verdadeira forma de transformação. Esta representa precisamente o contrário do narrador. Embora viva de forma mais modesta, possui aquilo que o protagonista perdeu: uma relação viva com a cultura, com os livros, com a memória e com a reflexão. É Nadèje quem o introduz na leitura e na cultura e opera nele uma extraordinária mudança.
Vivemos numa época em que muitos romances sacrificam o estilo em nome da rapidez narrativa. Porém, André Gago faz o contrário. A sua escrita é lenta e rica em imagens, profundamente musical, cinematográfica e muito precisa. Há descrições que possuem uma evidente qualidade pictórica, enquanto os diálogos revelam uma rara capacidade para articular reflexão filosófica com naturalidade narrativa. O autor nunca interrompe a história para explicar uma ideia. As ideias nascem das personagens, das situações e da construção do mundo ficcional e essa é talvez uma das maiores qualidades de «O Manuscrito de Alexandria».
Quando terminamos esta primeira parte da narrativa, percebemos que o verdadeiro centro do romance está por revelar. O encontro com Nadèje abriu apenas uma porta. Atrás dela espera-nos aquilo que se tornará o verdadeiro coração simbólico da obra: a extraordinária biblioteca que ela guarda e que representa um novo mundo por descobrir. Representa também a possibilidade de resistir ao esquecimento e a permanência da cultura num tempo de barbárie, algo que nenhuma tecnologia nem nenhum poder político conseguirá destruir.
Mas é precisamente quando julgamos compreender a natureza deste romance que André Gago desloca subtilmente o centro da narrativa. Aquilo que parecia ser o relato apenas de um encontro amoroso começa a revelar-se como uma longa iniciação intelectual. Um dos aspectos mais interessantes e originais do romance reside na ideia de que o verdadeiro conhecimento não chega através das instituições oficiais, nem através da tecnologia, mas sim através dos livros, enquanto diálogo vivo entre gerações. É por isso que a biblioteca de Nadèje se torna um dos espaços mais importantes desta narrativa. Esta valorização da leitura aproxima André Gago de uma tradição que atravessa Borges, Steiner, Alberto Manguel ou Umberto Eco: a convicção de que a biblioteca não é um depósito de volumes, mas uma forma de organizar a experiência humana.
É precisamente neste momento que começamos a compreender melhor o título do romance. O verdadeiro “manuscrito” não é apenas o diário que o protagonista escreve. É toda a herança cultural que atravessa o livro. É impossível não recordar aqui a grande tradição do romance europeu desde Dante a Proust. Muitas vezes é a figura amada que conduz o protagonista para uma forma superior de conhecimento. A história de amor que se tece entre ambos é construída sobretudo através da conversa. Os diálogos ocupam um lugar central na narrativa e não são meros intervalos entre acontecimentos. São os próprios acontecimentos. Esta opção revela uma confiança muito grande no poder da linguagem. Num mundo saturado de imagens, André Gago devolve protagonismo à conversa, ao pensamento e ao prazer de discutir ideias.
O romance não esquece a dimensão física do amor. As cenas de intimidade entre o narrador e Nadèje são de uma delicadeza pouco comum e o erotismo nunca surge como provocação gratuita, sendo antes apresentado como uma forma de reconhecimento mútuo, como um momento em que dois seres humanos recuperam uma autenticidade que o mundo exterior parece ter perdido. O corpo deixa de ser mercadoria ou espectáculo para voltar a ser linguagem de proximidade e também como uma forma de resistência ética, restituindo à intimidade a sua dignidade.
Pelo meio do narrativa aparecem Jackie e o perverso Próvost, que irá lançá-lo numa aventura louca, à procura de um livro antigo. Em Lisboa, o protagonista cruza-se com Aristides (creio ver aqui uma alusão ao cônsul de Bordéus que arruinou a sua carreira e fortuna para salvar judeus, fazendo-os passar para Lisboa), o qual lhe dá indicações de que o livro que ele procura está na biblioteca Alexandrina, na cidade de Alexandria. Não quero desvendar muito a história, para deixar ao leitor o prazer da descoberta. Aqui, a biblioteca, mais uma vez, ocupa um lugar central. Não porque os livros resolvam os problemas do mundo, mas precisamente por preservar a capacidade de conversar com os mortos para compreender melhor os vivos. Quando George Steiner escreveu que «somos hóspedes da linguagem», estava certamente a lembrar-nos que cada palavra transporta séculos de experiência humana e André gago parece partilhar profundamente desta convicção. Os livros e as bibliotecas não pertencem ao passado. Continuam activos. Continuam a questionar-nos e a confrontar-nos com os problemas de sempre. Isto é, continuam a desafiar-nos e a desafiar cada geração.
Talvez seja essa a verdadeira esperança que percorre silenciosamente «Manuscrito de Alexandria». Não se trata de uma esperança ingénua, fundada na crença do progresso, mas sobretudo uma esperança construída sobre a persistência e o carácter imorredouro da cultura.
A saída de Paris e a partida para Alexandria moldou um homem completamente diferente. A sua transformação extraordinária faz descobrir que o verdadeiro problema nunca havia sido o tédio, mas sim o esquecimento: da história, da literatura, da responsabilidade, de si próprio e até da beleza. E é justamente nessa lenta recuperação da memória que fará do seu manuscrito não apenas um diário pessoal, mas essencialmente um testemunho sobre uma época que parece caminhar para a perda daquilo que a tornou verdadeiramente humana.
É por essa razão que esta obra ultrapassa largamente os limites da ficção distópica. É um romance sobre o futuro, sim, mas é sobretudo um romance sobre o presente. Cada página nos obriga a perguntar que mundo estamos a construir e que património invisível corremos o risco de abandonar.
No final, André Gago deixa-nos uma pergunta que permanece muito para além da última página e que, talvez, seja uma das questões fundamentais do nosso tempo: o que resta de uma civilização quando ela perde a capacidade de guardar e de transmitir a sua memória? Enquanto procuramos responder-lhe, percebemos que este romance já cumpriu a sua missão: obrigou-nos a olhar para o presente com outros olhos e a reconhecer que, antes de perdermos os livros, corremos sempre o risco de perder aquilo que eles guardam — a nossa própria humanidade.
Maria João Cantinho