Walter Benjamin

Walter Benjamin: um pensamento nómada

Este génio é hoje mais citado que lido, a sua obra é saqueada (algo que ele próprio não desdenharia) e está destinado a ser utilizado de forma avulsa e descontextualizada, pois a sua obra é inesgotável, nesse manancial multímodo, contraditório, poético.

Desse mar que sempre recai na onda

Nesta biografia pessoal e literária, o seu autor oferece-nos facetas de um Goethe mais íntimo, mas também analisa a sua obra à luz do seu percurso de vida. Dá-nos conta daquele que foi um génio na sua época e que lavrou indelevelmente a literatura universal, cuja tradição humanista está hoje em franco declínio. Era a isso que aludia Benjamin a Scholem quando se referia à perda da tradição e à necessidade de reactualização dessa tradição humanista, numa carta em que usava uma bela metáfora: “um mar agitado, mas para a vaga (se a tomarmos como a imagem do homem) só há uma coisa a fazer, abandonar-se ao movimento para crescer até formar uma crista e tombar em espuma”.

O resto é rosto: rastros Do ínfimo, de Maria João Cantinho; por Danielle Magalhães

Juan de la Cruz, Rumi e Eckart povoam “O lento passo dos nómadas”. Eu arrisco a dizer que todos os passos Do ínfimo são nômades, são todos outros e todos abertos à alteridade, todos passagens, fazendo dos passos, dos impasses, dos saltos e dos abismos começos possíveis de transitar. Do ínfimo é dedicado a todos “que caminham descalços”, aos “que caminham de olhos cerrados”, aos “que caminham de rosto coberto”, aos que “caminham e nunca chegam/ peregrinos de um clarão sem nome” – versos iniciais do poema “Os Peregrinos”.

Nossa tradição barroca é repaginada hoje, nossos artistas se tornam “catadores de ruínas”

Os primeiro-românticos, em oposição ao romantismo posterior, são grandes praticantes e teóricos da tradução de um ponto de vista não nacionalista. Eles perceberam, com Goethe, que a literatura nacional é letra morta se não for pensada em uma rede de intertextualidade que rompe com a tutela do nacional e do “próprio”. Com eles nasceu a moderna teoria da tradução e não por acaso Benjamin, leitor desses autores e responsável pela revalorização de suas obras, também vai ser autor-chave nessa moderna teoria da tradução que não vê mais essa atividade como algo instrumental e mecânico.

“Cada livro é uma pedagogia destinada a formar o seu leitor”*

Não consegui (ainda?) aprender em que língua falam os livros “para crianças” deste poeta, e não há garantia alguma de que isto possa vir a acontecer. As obras falam, para além do que dizem — “É o infalável que fala” — diz MAP; toda a obra é um “infalável que fala”. Enquanto eu só conseguir ouvir os ecos dos meus próprios lugares comuns, enquanto só ouvirmos o que estamos habituados a dizer, não aprendemos nada, nada nos muda, mais vale ficar calado.

Pensar a alegoria em Walter Benjamin

No dia em que se fizer a história da recepção de Walter Benjamin em Portugal, este livro da Maria João será uma chave fundamental para a compreensão da mesma. Ele situa-se como ponto charneira da segunda geração de leitores de Walter Benjamin, segunda geração que se segue e que é herdeira, uma herança, aliás, nada a contragosto contrariamente a outras heranças, de figuras como Filomena Molder, João Barrento ou Bragança de Miranda. O mais interessante, aliás, é ver como esta história percorre o livro de uma ponta à outra e como as clivagens e as diferenças que existem na recepção de Benjamin encontram uma tensão produtiva na própria formulação conceptual da alegoria.

Rui Chafes: Do sagrado na arte

Words move, music moves Only in time; but that which is only living Can only die. Words, after speech, reach Into the silence. Only by the form, the pattern, Can words or music reach The stillness, as a Chinese jar still Moves perpetually in its stillness. T.S.Eliot, Four Quartets À pergunta de Sara Antónia Matos, se…

Custine, um escritor menor do século XIX

Pouco após a publicação de A Rússia em 1839, em maio de 1843, o célebre escritor e filósofo russo Aleksandr Ivanovitch Herzen (1812-1870), o qual teve um papel importante no pensamento político russo a partir de meados do século XIX e foi considerado o fundador do socialismo russo[1], escreveu entusiasticamente que este «era o livro…

“Não quero ser nada”

Entrevista minha concedida a Paulo José Miranda, para o jornal "Hoje Macau" Tens uma obra dividida pelo ensaio e pela poesia, e ambas reconhecidas. Gostava que falasses acerca do modo como entendes cada uma delas, no teu modo de escrita, e também em relação aos outros, ou seja como vês essas escritas para além da…

Montaigne: a vida como palimpsesto — Revista Caliban – Medium

Não há nenhuma existência constante, nem do nosso ser, nem do ser dos objectos. Nós, os nossos juízos e todas as coisas mortais vamos incessantemente fluindo e rolando. Não podemos aceder ao ser, porque toda a natureza humana está sempre no meio, entre o nascimento e a morte, e apenas dá de si mesma uma…